Se permiteres ser uma vítima da astúcia alheia, não percebes que és tua alma que se embreaga de tolice e negação de uma verdadeira liberdade de espírito. Aquele que ousa te manipular no pensar, desrespeita o teu ser te convencendo, disvirtua-te da clarez. Esses algozes, mais que acreditar que sejas um tolo sujeito as manipulações dos seus jogos de sentidos, no ato de tua adesão eles provam seu estado de pessoa ludibriada e possivelmente orguilhosa do de se estar no erro da ilusão.
Atualmente, exercer uma livre e séria reflexão pode ser perigoso? Mais perigoso ainda é não perceber como somos levados a pensar.
Este texto examina a arma invisível que molda o debate público: a metáfora. Como ela persuade, divide e aprisiona — e como podemos resistir à manipulação na política e na vida.
Uma reflexão urgente sobre o Brasil, a linguagem e a liberdade que ainda podemos conquistar.
Figuras de linguagem conferem a textos ou narrativas uma amplitude de sentidos. São meios que fomentam plurissignificação, aguçando a imaginação e, por vezes, induzindo a conclusões que se solidificam como evidências pessoais.
Partindo dessa consideração, uma metáfora — conforme a intenção de seu locutor — pode se converter em estratégia para induzir ideias, influenciar mentalidades ou convencer indivíduos e coletividades. Nesse caso, transforma-se em ferramenta para a conquista de certos fins. Parece que entramos na era da exploração do território da mente.
Usada com tal objetivo, uma metáfora assemelha-se àquelas armadilhas para passarinhos: uma vez dentro e envolvidos, torna-se difícil escapar.
Em termos práticos, essas armadilhas linguísticas ao entendimento promovem processos excludentes à clareza e à interação entre compreensões propositivas, dificultando novos aprendizados ou atitudes para um desenvolvimento contínuo da compreensão.
Esse tipo de artimanha comunicativa é especialmente presente na retórica política, constituindo visões de mundo e projetos específicos. Quando os espíritos a eles aderem, tornam-se enrijecidos em suas convicções, crenças e condicionamentos comportamentais. Sem perceber, ficam sujeitos à exclusão de suas potencialidades e ao digno clamor da alma humana por liberdade amadurecida e responsável — quanto ao entendimento, interpretação e compreensão das realidades e das fantasias. A capacidade de distinguir debilita-se, e o terreno para a constituição de entendimentos equívocos torna-se fértil.
Assim, nosso tempo, na facilidade da comunicação digital, paradoxalmente também segue produzindo prisioneiros de bolhas, guetos de signos identitários, onde os adeptos retroalimentam suas perspectivas — sentidas como legítimas pelo reconhecimento entre seus pares de causas, projetos e visões de mundo. Consequentemente, no placebo de suas satisfações internas, elegem o que pensam como se fossem dogmas ou a vanguarda da verdade.
Esse fenômeno se multiplica e participa da composição de visões tanto na esfera pessoal quanto coletiva.
Eis o perigo presente em nossa sociedade brasileira: paradoxalmente, resulta de estruturas que constituem avanços tecnológicos que facilitam o acesso à informação e dão voz a todos para se comunicarem e se expressarem livremente — o que não é sinônimo de ética ou maturidade.
Chegamos a essa dualidade no século XXI: uma realidade instaurada. A era tecnocrata está preenchida de intenções sobrepostas e técnicas manipuladoras de nossa natureza humana. A sociedade elege teorias da conspiração como verdades pré-fabricadas. A serviço de quem? Para quê? O que experimentamos de nosso caminho humanitário e no que estamos nos tornando?
Este contexto funda novos cenários, seguidos de muitos medos. Identitarismos e conservadorismos emergem como se fossem uma saída para o estado de confusão. As classes profissionais seguem competindo entre si, defendendo-se em corpos legais e exercícios de poder. Vivemos num mundo tão complexo e novo que, apesar de ser fruto de tudo que acumulamos — e também do que esquecemos ou negligenciamos — demos um salto em conhecimento: do século XX até agora, é incontavelmente superior à soma de todas as eras anteriores de nossa história. Dados estão presentes e mais acessíveis do que nunca: basta acessar o Google ou outros meios.
Hoje, com todo o arsenal de luzes para o presente, continuamos similarmente repetindo erros e inconsequências. Os saberes de antes permanecem, mas sem uma lúcida adequação correm o risco de não passar de formulações supostamente resolutivas, tolas esperanças para os desafios presentes.
Esse é o perigo do conservadorismo e sua tendência ao anacronismo — ainda que nele também haja clamores autênticos, pois seus adeptos igualmente são filhos deste tempo, em busca de soluções e de um mundo mais harmônico.
Apesar de toda tradição e experimentação de novos paradigmas, parece que não evoluímos para estar onde estamos. Continuamos produzindo e alimentando sofrimentos pela inadaptabilidade à inclusão e ao amadurecimento junto das diferenças. Ainda que iludidos como defensores de um bem, seguimos sendo causa de desintegração.
Fazem-se presentes iniciativas que levantam bandeiras que deformam tudo que lhes é diferente, preconcebendo o outro como ameaça a seu mundo, sobrepondo modelos totalitários regidos por projetos de universalidade excludente.
A título de exemplo, no Brasil basta abrir o YouTube ou outra rede social para constatar a presença de militantes de uma guerra cultural — que, ao que parece, foi idealizada em ambiente classificado como esquerdista, mas que, de fato, em projetos e práticas atuais, está sendo executada por agentes de uma direita. Um fato irônico e incoerentemente paradoxal.
Um sintoma grave desse tipo de movimento é a mesquinhez intelectual, deturpando e coletivizando a manipulação de dados históricos interpretados sob as trevas das teorias da conspiração. Ali, com todos os recursos lógicos e cinematográficos, é quase impossível não acreditar na veracidade do que se assiste.
Esse também é um dos desafios sobre a conjuntura das mentalidades: é difícil, sem preparo ou formação sobre as possibilidades do mundo atual, ter um discernimento hábil.
Estamos na era dos tecnocratas de tudo — inclusive das almas. Há um processo de morte da verdade: a narrativa mais convincente torna-se “verdade”. Para isso, basta lógica e bom discurso. Fatos viram piada, e voltamos a nos satisfazer apenas com uma verdade lógica — nada mais medieval que isso!
Se para os medievais tal pensamento era justificável por seu contexto, pensar somente assim hoje é negar nossa evolução no campo do conhecimento — no caso da cultura ocidental, de matriz judaica, grega e cristã, é negar as revelações que o mundo antigo, medieval e moderno ainda não tinham desvelado.
Não dá para avançarmos sem aprender a distinguir e integrar. Fora disso, é retroagir — abraçar a perda de potencial de aprendizado e, consequentemente, negar descobertas, nossa natureza criativa, os erros do passado e a possibilidade de um futuro mais harmônico, zeloso e amoroso.
Toda essa dificuldade vem sendo alimentada por adesões coletivizadas e, muitas vezes, pela multiplicação de metáforas e fake news. Mas vamos nos ater aqui ao poder das metáforas.
O poder ambíguo da metáfora
Metáforas são excelentes ferramentas de convencimento ou abertura a novas considerações. Até aí, tudo bem. Mas elas têm poder significativo tanto para esclarecer quanto para ludibriar; tanto para a veracidade quanto para fazer a ilusão e a mentira serem sentidas como verdade.
Há artimanhas tão astutas que até mesmo um espírito crítico, sem mínimo empenho, raramente escapa — seja para verificar, seja para superar.
Se olhamos a história das humanidades, a metáfora — assim como outras figuras de linguagem — foi e é utilizada por quase todos os sábios. Mas em todas as épocas há os “sabichões perversos” que, ainda que convictos de suas próprias visões de mundo, também a utilizam e com ela angariam adeptos. Esse tipo de ocorrência parece ser um processo comum às sociedades humanas.
Metáforas são pequenas narrativas pedagógicas: orientam sentidos, ajudam a entender, compor, reforçar e até criar visões de mundo, enraizar opiniões e valores. Mas, infelizmente, podem também reforçar a confusão e a alienação — como prova o Brasil imerso em extrema polarização.
Quando o sentido de uma metáfora internamente torna-se um valor — assertivo ou equívoco —, converte-se também em referencial na formatação de nossos juízos, pois inclina ativamente as interpretações a uma unidade valorativa e afetiva. Assim, tudo que nos toca os sentidos passa por essa lente.
Aos amantes da liberdade, da ética e do caminho para a verdade, é necessário compreender as estruturas de si mesmo, conhecer os jogos de linguagem e os efeitos das próprias afeições. Só assim estarão aptos ao conhecimento e à ação do próprio grau de liberdade interna, podendo romper bolhas e ciclos de repetição que nos aprisionam.
É preciso ter clareza de que compreendemos e interpretamos tudo a partir de um lugar e de uma estrutura processual que diz quem cada um de nós é no presente — ora tendendo à tolice, ora ao caminho dos sábios; ora às trevas, ora à luz; ora à aceitação do senso comum, ora à autonomia em direção a vanguardas.
Nessa rota, determina-se o que é falso ou verdadeiro, o que será do bem ou do mal, elege-se ou expurga-se quem ou o que é do bem ou do mal. Distinguir sem o devido amadurecimento — salvo por graça ou dádiva — só pode culminar em equívocos, erro, soberba e teimosia. Aí pode haver confusão entre identidade e convicções. Há entre nós quem não se dê conta de que ser e saber são coisas distintas.
Somos seres comunicativos que enrijecem ou manufaturam visões de mundo. Nessa natureza criativa, que eticamente exige responsabilidade na moldagem do mundo, cada opinião que externalizamos é um fragmento que revela parte de nossa composição mental e de como estamos sendo — mais para a integridade ou para a destruição. Por mais convictos que estejamos de estar no caminho do bem, o erro pode estar presente.
Nessa visão, há uma exigência que clama por sobriedade e humildade: somos apenas humanos. Nosso valor maior, depois do amor, está na afeição — pois tudo nos afeta.
O mecanismo interno da metáfora
Enfim, metáforas têm o poder de gerar associações que induzem direções aos sentidos que constituem a mente. Consequentemente, as metáforas — constituídas de suas lógicas e sentidos — trazem a sensação de evidência, de contato com as verdades.
É exatamente por isso que tendemos a entender e sentir, no primeiro instante, que aquilo que ao menos se aproxima do que já cremos ser verdadeiro seja de fato verossímil. Mas isso é inocência por privação do espírito crítico: não pensamos ou consideramos o que desconhecemos.
Observe a gravidade ética do mundo atual — tempo da pós-verdade —, onde verdades são produções com fins técnicos de convencer e produzir comportamentos, fazendo às vezes da verdade sem o serem de fato.
Complexo isso. Exigir essa percepção como saída — libertação dos espíritos — depende da própria compreensão de quem somos: humanos, seres culturais, históricos, limitados e maravilhosamente em construção.
O sentido de uma metáfora instaurada na mente é resultado de um entendimento lógico tornado valor interno. Sem a possibilidade de tutela crítica, deixa a mente à mercê de um funcionamento espontâneo que preenche lacunas com imaginação, por razões neuromecânicas, sem distinguir entre o hipotético, o indício, o provável e a descrição do real.
Portanto, na primeira fase do entendimento frente a metáforas — seja para o bem ou para o mal —, ao associarmos acontecimentos, temos um misto de imaginação, lógicas e indícios que se traduzem como fatos em si. É nesse quadro que nos alienamos da possibilidade da luz das verdades. A verdade, nesse quadro, reduz-se à limitação do movimento habitual da mente, e condicionadamente elegemos o que é falso ou verdadeiro.
Nesse caso, a verdade torna-se aquilo que queremos que seja verdade. A crítica deixa de ser útil e torna-se incômoda para a mente, que, por economia de energia, tende a permanecer no mesmo modelo de funcionamento.
Eis um dos desafios: tudo o que consideramos real é eleito como verdade. Por natureza, a mente — limitada em sua conjuntura de significações — acaba ora afirmando, ora negando, em nome de sua comodidade interna, quase nunca consciente em primeiro instante.
Por fim, um alerta
É importante sermos capazes de distinguir entre narrativas descritivas — aquelas que apenas descrevem o observado — e aquelas que criam situações, dão voltas, distraem e engolem no convencimento. Aí, o mundo de uma lógica fantasiosa toma o lugar dos fatos.
Diante de tudo isso, encerro não com uma conclusão, mas com um convite à vigilância afetiva e intelectual.
A metáfora não é um inimigo a ser eliminado — é uma força da linguagem que reflete nossa própria ambiguidade humana: criadores e criaturas dos sentidos que nos movem. O que está em jogo, portanto, não é abolir as figuras, mas educar o olhar que as recebe.
Nossa saída possível não está na ingenuidade de acreditar que escaparemos totalmente das armadilhas, nem no cinismo de achar que tudo é manipulação. Está na humildade de quem sabe que pode estar errado — e na coragem de revisar, a cada nova evidência, os mapas mentais que traçamos.
Se a política hoje se tornou um campo de batalha de narrativas, nossa tarefa civilizatória é recusar a redução do outro a um inimigo a ser convencido ou cancelado. É lembrar que por trás de cada metáfora ardilosa há uma mente humana — tão frágil, tão sedenta de sentido quanto a nossa.
Que estejamos atentos, pois, não só às metáforas que nos chegam, mas às que produzimos. Que possamos ser artesãos de uma linguagem que não aprisione, mas que abra — que não enrijeça certezas, mas que alimente diálogos.
No fim, talvez a única metáfora realmente libertadora seja aquela que nos lembra: somos todos, sempre, aprendizes da realidade. E é nessa condição compartilhada que podemos, com sorte e esforço, tecer um entendimento comum — menos intoxicado, mais generoso, e à altura da complexidade que nos habita.
A arma contra a armadilha não é o silêncio, mas a reflexão consciente.
Contra a alienação, o diálogo paciente, claro e ponderado.
Contra a pseudos-verdades, a busca contínua.
Vamos adiante.
