"Em um mundo saturado de certezas rasas, vozes barulhentas e respostas fáceis, o que ainda resta para quem busca a verdadeira sabedoria? Vivemos o desafio de navegar entre ilusões, desinformação e julgamentos apressados. Mas e se a verdadeira força não estiver em ter todas as respostas, e sim na coragem de encarar nossas próprias limitações e aprender com os erros? Convidamos você a fazer uma pausa no ruído do cotidiano e mergulhar em uma reflexão profunda sobre discernimento, humildade e o papel da sabedoria em tempos tão incertos."
"Um sábio, depois de tanto estudar a alma humana, seguia aprendendo e ainda nada sabia. Ele descobriu como as convicções são capazes de cegar e aprendeu a ver seu próprio pensamento acontecendo — uma habilidade que aju
dou a si e a outros a se desenvolverem —, mas parecia-lhe que muitos não conseguiam pôr isso em prática. Continuava seu caminho de ofertas, continuava aprendendo. Aprendeu que a dúvida pode ser boa e, muitas vezes entre risos, como louco, não tinha escrúpulos em duvidar de si mesmo; entendeu que a mente também mente. Em suas contemplações, observou que a mente faz preenchimentos para agradar a si mesma e percebeu que os sentidos da alma também falham, assim como os do corpo: quando os olhos se fixam num ponto, cega-se para os outros.
O sábio ia seguindo seu caminho, mesmo sabendo de suas limitações. Certas vezes, em nome de sua sede de justiça (coisa boa como valor), caía em erros e julgamentos precipitados decorrentes de pobres considerações. Eram instantes de pobreza de espírito, a hora do impulso não mediado, não meditado. Mas ele, no exercício da sabedoria, voltava atrás e continuava aprendendo. Ora se entristecia pelas consequências das equívocas paixões que lhe pareceram nobres naquele momento; ora se alegrava por mais um oportuno momento de aprendizado, pois descobria que a força das paixões exacerbadas em causas e questões imediatistas, quando não mediadas, geralmente tende a gerar danos.
O sábio é como um grande espelho das tendências e vivências comuns a todos entre tantos devires e escolhas. Sua sabedoria tem raiz em conhecer a si mesmo na alteridade com os outros. Ele percebe a si mesmo acontecendo, exercita-se em não ser conduzido, prefere participar e esforça-se para não criar ou reforçar armadilhas de sentido que se apresentam no caminho. Mas, mesmo assim, falha: é apenas humano, com o diferencial do esforço para melhor discernir. Apenas isso!
Quantos de nós sofrem, sem se dar conta, nas armadilhas que se constituem numa estrutura de agrado da mente estagnada em suas conveniências? Quantos vivem, agem e pensam sob impulsos identitários de uma ideologia qualquer? Quantos são realmente espíritos livres e éticos?
Afinal, o que é o homem bom? Onde está o ser humano integral em sua
finitude? Certo é que o tempo não para, mas o 'ser para a morte' tolamente vive como se esta condição fosse eterna e, assim, escolhe alienar-se do que importa... Agora imagine: quantas pessoas amadurecidas compartilham seu precioso saber enquanto outros, gratificantemente, consomem apetitosos lixos como se fossem o 'tudo de bom'? Agora imagine: quantos despertarão de suas crenças limitantes, sentidas e escolhidas como as verdades mais coerentes do mundo? Convicções forjadas em fechadas visões de mundo, alimentadas por segmentos etnocêntricos ou identitários, agregam o apoio de pessoas que sofrem num espaço de comodidade mental, espaço de uma alienação comovente que não se comunica para fora. Nesses agrupamentos, instala-se uma mentalidade onde não há espaço para ponderações, pois a mente segue convicta em suas manias de um mundo produzido e estagnado. Portanto, não haverá culpa, haverá apenas certeza; não tem como existirem evidências de outras significações, e outros horizontes serão ameaças descartáveis.
Todavia, para alguns que se envolvem num contexto desse tipo, cabe a compaixão sob o pressuposto de uma certa condição de inocência ou ignorância, caso permaneçam em uma privação de oportunidades e estímulos na qual o processo pessoal de maturação encontra-se estagnado. Já outros que muito receberam, por teimosia, arrogância, preguiça mental, vil comodidade, mesquinhez e atributos como o mau-caratismo, há de se questionar e responsabilizar. Um sábio medieval, considerado uma pessoa sublime em inteligência emocional, chamava pessoas com esse comportamento de 'irmãos moscas' — ou seja, pessoas que vivem somente pel
os impulsos de alimentar seus 'estômagos', dando-se bem a partir do esforço dos outros. Parece coerente pensar que a humanidade, pela condição óbvia de sua natureza finita, deveria gerar um grau de humildade nos espíritos, diminuir a arrogância e o apego a verbalidades inúteis. Mas, infelizmente, este é um tempo em que as vozes de conhecedores são sentidas por muitos como uma opinião qualquer e, algumas vezes, absurdamente subordinadas a subjetividades. Este contexto tornou-se uma mina de ouro para pervertidos experts, que seguem forjando e alimentando uma
extensa rede de massificação de opiniões; uma fábrica de ideias falsas que, vendidas e camufladas de verdades, são consumidas enquanto preenchem de vis sentidos a vida de muitos, enquanto os exploradores de almas seguem se dando bem. Expertise não é crime, e, como há quem a ela adira, esses mentores seguem se beneficiando da fraqueza humana. Sutilmente ou até escrachadamente, influenciam inúmeras mentes vendendo-lhes desejos por meio de gorjetas de satisfação viciante em suas esperanças. Tornam-se tutores de uma pretensa verdade e de pretensas soluções, ampliando o espaço para insanas opiniões e eleição de heróis como se fossem solucionar todos os problemas. Pessoas comovidas por tais sistematizações de ideias tendem a se perder numa dependência da existência desse mundo inventado — e não por maldade, mas em razão de suas esperanças. Entram num movimento de reação, negando falas, ideias e projetos com propriedade e o direito a saudáveis contradições, tão necessárias à prudência.
Infelizmente, isto está naturalizado no mundo atual. O que sobra é uma disputa por espaço entre tolices absurdas que distraem as orientações e decisões daquilo que se deve considerar prioritário ou essencial. Somos uma sociedade onde sábios de fato perderam seus espaços e funções. Vivemos um caos social em que os cidadãos se apartam do conhecimento de suas legislações como alicerce igualitário e ordenador impessoal da ordem nacional; parece que nunca tivemos bom senso, e o consenso sempre veio aos trancos e barrancos.
Ultimamente, mais do que nunca, as redes sociais se tornaram a nova e mais forte expressão da Torre de Babel, onde milhares dão credibilidade à mentira e à inversão de valores perenes que garantem o desenvolvimento humano. Basta o placebo de uma satisfação para que a força técnica de convencimento não seja questionada, enquanto se produz um consenso meramente numérico que determina o rumo de países. Assim se caracteriza essa dominante força medíocre que determina os espaços políticos.
Que tempo é esse, em que parece que tudo quanto provier de sabedoria e ponderação deverá tornar-se resistência? Que tempo é esse, onde todos podem se expressar, mas ninguém parece ter a força da razão? Que silêncio é esse de tantas vozes do bem, emitidas, mas não auscultadas? E, ainda assim, alguns podem sentir alguma alegria porque compartilham e se manifestam. Não basta poder se expressar, há de se querer mais...
Por outro lado, os convictos 'filhos da pós-verdade' irão legislar e governar por vias demagógicas, apoiadas na crença quantitativa parcial que legitima uma representação que se diz de todo o povo, onde os símbolos nacionais e até mesmo Deus, numa idealização, são instrumentalizados e adestrados absurdamente a um segmento.
Esta realidade que se concretiza como traço da época é mais uma das presas dos feitos humanos. Mas, neste contexto, a esperança, agora instrumentalizada, deverá se converter diante das factualidades dos sofrimentos e manter-se viva, pois da Babel sempre prevalecem infelizes consequências: o choro chega como resultado que não provém do acaso, mas de um erro, de uma negligência.
Imaginem: tivemos o Museu Nacional a queimar, a prova de um descaso estrutural. Será que isso despertou algo? Será que erros assim se convertem em sabedoria, mas a que preço? O que nos falta? Serás tu, sabedoria? Não seria muito melhor se o mundo das livres opiniões fosse elaborado com pelo menos uma pitada de ética, sensibilidade, estímulo à reflexão e boas ponderações? Será que recebemos os estímulos certos? Nos passaram as lições certas?
Que situação! Se continuarmos como estamos, presos nesta roda de guerra de ideias e lutas pelo poder político, eternizando nossa tradicional falha administrativa, será que em tempos de eleição expressamos apenas um histérico pedido de socorro e apostamos cegamente? Por que passamos a admirar a arrogância pelo poder e as autoafirmações? Até quando nos submeteremos a trocas de favores? Até quando mentalidades em que não há espaço para provocações e plasticidade irão impedir o desenvolvimento? Até quando a opção pela comodidade e pelo que parece mais fácil será nossa escolha?
Pelo jeito, estamos num tempo em que até as pedras devem começar a gritar! Mas a boa escuta, a ação eficaz e a madura consideração parecem ir muito mal. Há muita falta no caminho da sabedoria! Se não se assumem erros, não se aprende com eles! Somente pessoas que se dão conta do próprio tempo, das circunstâncias e das tendências nas quais estão inseridas podem desenvolver-se nos caminhos. Essa deve ser uma tarefa de todos para que cheguemos ao patamar de um povo que pode discernir sempre melhor — um povo disposto a aprender com os erros, reconhecendo o papel de cada um na soma de todos; um povo que avalie a retidão política sob valores e razões de bem comum que estão acima de segmentos como direita ou esquerda.
Temos que ter ciência de que os lados devem se submeter ao que importa. Há de se ter um mínimo de lucidez, atitudes e estratégias que nos protejam sempre, ainda que tenhamos que inventá-las. Isto seria ser um país 'abençoado por Deus', como diz a canção. Isto tem que ser nosso desejo, nosso fazer, nosso compromisso até o fim, enquanto povo. É preciso efetivar sábios líderes, cujos defeitos pessoais não se sobreponham ao interesse comum. Se errarem, que se mostrem dispostos e eficazes a consertar os erros que devem ser assumidos.
Infelizmente, estamos num tempo em que a simpatia midiática se confunde com competência, onde o identitarismo organizado se tornou uma fábrica de verdades inventadas que dão muito lucro. Portadores de saberes não têm a devida credibilidade e voz, mas eles estão por aí. Em vez de reacionarismos, é preciso voltar a escutar, perceber para melhor julgar... Saber articular acolhendo e unindo as diversidades. Não há vergonha nenhuma em tentar acertar, mesmo que dê errado."
