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sexta-feira, 6 de março de 2026

Entre a Esperança e a Dor: O Humano como Projeto em Aberto


Entre a Esperança e a Dor: O Humano como Projeto em Aberto


Por Luciano Vasconcellos


A humanidade não se constitui como um conceito estático ou um produto acabado. Vai muito além da biologia: ser humano é, acima de tudo, um exercício simbólico que dança entre sensibilidade e inteligência. Trata-se da forma como se ordena e se vivencia aquilo que se idealiza e se nutre como sentimento do “melhor”. Nesse sentido, a humanidade é um valor transtemporal e uma via de construção ético-prática: flutua entre o que já se foi, o que se é e o que se deseja ser, em um movimento contínuo que tanto pode expandir em consciência, aprimoramento e compromisso, quanto pode esfriar-se em seu próprio dinamismo e estagnar-se, chegando a inverter-se em processo de retrocesso comportamental e cultural.


Trata-se de uma espécie dotada de inteligência, apta a fazer escolhas e a dar direção, capaz de interagir e de se moldar na conjuntura dos próprios sentimentos. O ser humano é inerentemente criativo, apto a construir sentidos para a vida — ora belos e realizadores, ora inconsistentes e autodestrutivos. Entre experiências sentidas como positivas ou negativas, o percurso é sempre particular. É curioso, e até lamentável quando se almeja um avanço contínuo, notar como essa mesma inteligência pode se tornar um meio de autossabotagem. Muitas vezes, em vez de se convergir para um ser mais consciente e colaborativo, permitem-se que visões de mundo circunscritas e limitantes — a exemplo de bolhas digitais ou pautas identitárias — desvirtuem o potencial de harmonia entre a individualidade e o coletivo.


Infelizmente, vive-se um desequilíbrio evidente em narrativas que visam disseminar ideias a serviço do controle pela alienação do salutar papel de uma crítica ética. Esse mal se naturaliza e se dissemina, especialmente, pela perversidade de modos de gestão negativa por interesses de poucos no poder e, também, pela ignorância ou pelo desinteresse de muitos. Muitos se encontram distraídos da noção fundamental de que se é parte da natureza, e não seus donos. A organização econômica e social sob o estandarte de uma ambição cega faz a Terra “chorar”. Evoluir e avançar é necessário, mas o “como” isso se faz é o que define as sequelas que se deixará para o futuro.


Hoje, muitos vivem como se a vida fosse um trajeto isolado, sem sequer se dar conta de que se eximem de iniciativas e responsabilidades que nutrem minimamente o bem comum. Há uma espécie de embriaguez em duas paixões: o consumo desenfreado, no qual qualquer coisa ou pessoa pode se converter em produto em nome de uma comodidade negativa — uma espécie de ditadura do prazer que ignora a moderação ou o equilíbrio no uso das coisas e das relações. Essa negligência com a sustentabilidade e com as trocas de energia que sustentam a vida é um sinal de alerta máximo, um indício de que, coletivamente, as forças da sensibilidade se encontram castradas. Há quem prefira a insensibilidade, treinando o espírito para ignorar dados da realidade, pois o que não está na consciência não precisa ser pensado. Esse é o pior estado da privação: o sujeito que se autopriva de enxergar a própria finitude e a chance de se humanizar continuadamente.


A inteligência, nos jogos de signos e significantes, pode servir à cura ou à destruição; eis a grande questão do poder de escolha e destino.


Assim, na vida atual, quem se isola para tirar vantagens egoístas, sem a “poesia prática da alteridade”, acaba por viver um pessimismo disfarçado de sucesso. São indivíduos livres que se tornam “meias-marionetes”, aceitando arquétipos prontos que dizem: “não pense, apenas consuma e acredite que é feliz”.


Até o ditado “errar é humano” tem sido usado como muleta para a negligência. Mas é preciso diferenciar as coisas: o erro é uma falha de cálculo, um alvo perdido por limitação técnica ou imprevistos. Já o equívoco ocorre quando se age acreditando estar certo, mas falta a consciência moral das relações e dos efeitos sobre o todo; a parte se julga universal, o que é um sinal de comportamento totalitário que se distingue de uma mera opinião egoísta. Reconhecer quando o equívoco se torna o ponto de referência nas narrativas é o amadurecimento necessário do qual a era tanto carece. Isso merece ser levado à clareza.


Em um mundo saturado de meias-verdades, onde pseudoautoridades gozam de status de credibilidade quase divina, a repetição de postagens infundadas e de curtidas tornou-se ferramenta de convencimento. E, na esfera individual, o outro mal é deixar-se convencer passivamente: a nova forma de escravidão do espírito. Ao fim, é preciso entender que as interconexões têm começo, meio e fim — e a qualidade desse trajeto depende da coragem de ser, finalmente, inteiro.


Síntese


O texto convida ao despertar do estado de “meia-marionete” imposto pela cultura do consumo e pela insensibilidade social. Ao distinguir o erro técnico do equívoco moral, o autor reforça que a humanidade é um projeto contínuo que exige responsabilidade ética e harmonia com a natureza. A verdadeira evolução não está no acúmulo ou no poder, mas na capacidade de integrar a singularidade individual ao destino comum da espécie.

Há algo sempre a despertar


Que venha lucidez

Cada pensamento 

Eis uma resposta contextual

A alma é poética, mítica e descritiva...

Força lançada para fora

Um vento que passa

Vai além sua origem

O Propósito torna se brincadeira

 E o que nasceu recontextualiza

O novo encarna singularidades.

Nela não há repetição

O vem a compor-lhe

Há um tudo de novo

A experiência é única

Mundo dos eus

Seja simbólica

Seja diabólica. 

Lá um "Deus" fala

Há um campo imaginal

A sacada importa 

Do oriente a Dança flui

Balançar é equilibrar-se

Praticar é conhecer

Sentir é viver

Sorrir é alegria

Hoje a vida corre

A alma quer ser máquina

Obsessiva, moderna

Metas são plantadas 

Tudo deve estar 

Na fôrma de uma forma

Engana-se feliz assim

A aventura não é desordenar

É liberdade de somar 

O útil verte-se inútil

Se nobre sentido se perde

O prático verte em ócio

O ócio é trabalho

Deveria ser

Poderia ser

Nunca escravo

O inútil a nada serve

A nada precisa responder

Nossa! Quão útil és

A modernidade perde a leveza

Tudo se cobra

Naturalidade vira a falta

O tempo para contemplar

O coração geme silêncio 

Mas se olhas o horizonte

A oportunidade se faz

Há beleza nisso

Há algo sempre a despertar!

TAIJIQUAN: A ARTE DA INTEGRALIDADE EM UM MUNDO FRAGMENTADO


Por Luciano Vasconcellos


​O Taijiquan (Tai Chi Chuan) foi reconhecido em estudos da Universidade de Harvard como um dos sistemas mais eficazes para a manutenção da saúde. Segundo o Harvard Medical School Guide to Tai Chi, a prática é definida como uma "medicação em movimento", capaz de tratar e prevenir os males da vida sedentária e do estresse crônico. Esta arte, embora oriunda do vilarejo de Chenjiagou, na China, transcende suas origens camponesas para dialogar diretamente com as necessidades da natureza humana global.

​A Crise da Funcionalidade e o Resgate do Ser

​No cenário atual, a estrutura da vida moderna tende a reduzir o ser humano a meras funcionalidades de produção apressada. Essa dinâmica condiciona mentes responsáveis a um estresse que desvirtua a ordem do "ser integral". O mal-estar contemporâneo não advém apenas de escolhas individuais, mas das sequelas de uma vida onde os afazeres servem a segmentos específicos, tornando a manutenção da existência uma constante "objetificação". O bem-estar passa a ser entendido, erroneamente, apenas como o cumprimento de metas.

​Contra essa fragmentação, o Taijiquan se abre como um leque de benefícios. Não somos apenas partes isoladas — corpo e espírito, fisiologia e energia. Como aponta a Teoria dos Sistemas Complexos aplicada à saúde, o ser humano é o resultado de suas interações, pensamentos e relações. Ao priorizar apenas algumas dessas partes, fragmentamos nosso potencial.

​O "Co-nascer": Conhecimento como Transformação

​Praticar Taijiquan é permitir-se um processo de "co-nascimento". Ao conhecermos a arte, instauramos um grau de intimidade conosco. Como seres em contínua composição, não somos estáticos. O Taijiquan é o modo prático de viver essa dinamicidade no corpo — a geografia onde tudo se localiza. Enquanto respiramos, estamos em tempo; e é nesse corpo que o espírito se expressa.

​"O Tai Chi não apenas melhora a forma física, mas reprograma a resposta do sistema nervoso ao ambiente." — Wayne, P. M. (Harvard Health Publishing).


​Além das Categorias: Uma Prática Transversal

​Embora seja uma arte marcial interna, uma terapia natural e uma filosofia de vida, o Taijiquan não deveria ser limitado por legislações que o enquadram em apenas um desses nichos. No Ocidente, temos o hábito de fragmentar para conhecer, o que acaba por reduzir juridicamente uma arte de natureza transversa.

​O Taijiquan é uma meditação ativa e uma "ginástica de expansão cerebral". Estudos de neuroplasticidade demonstram que a prática sistemática aumenta a densidade da massa cinzenta e melhora as funções cognitivas. Não se trata de uma ideologia para mudar o mundo, mas de um exercício de integração entre o "dentro" e o "fora". É sabedoria integral comprovada na pele e confirmada pela ciência.

​Sobre o Autor

Luciano Vasconcellos

Professor e praticante de Taijiquan há mais de 30 anos. Oferece aulas presenciais e online, media rodas de conversa e realiza atendimentos terapêuticos baseados em escuta analítica e práticas corporais.


domingo, 25 de janeiro de 2026

A Raiva: Da Proteção à Desordem – Uma Análise sobre sua Função e sua Distorção

A Raiva: Da Proteção à Desordem – Uma Análise sobre sua Função e sua Distorção


No complexo potencial do comportamento humano, um conjunto de forças concretiza-se em expressões, atitudes, significados e sentimentos. Nesse território, uma emoção destaca-se numa trama entre dinâmicas fundamentais: a dor e o sofrimento, em contraposição à busca por alívio; e a satisfação que conduz à experiência do contentamento, àquele “agora em que tudo está bem”.

Entre as forças que atuam nesse campo, a raiva emerge como uma expressão poderosa. Ela é, em sua origem, a resposta ao que ultrapassou o limite do suportável. Reação instintiva e natural, é a expressão de uma ruptura – a transição de um estado anterior para outro. Pode também ser entendida como um mecanismo de defesa, que visa proteger um significado interno, uma ordem de valores estabelecida subjetivamente. Portanto, num primeiro momento, a raiva é um modo de proteção.

Nesse sentido, ela deve ser sentida e entendida como importante e até desejada, pois sinaliza, direta ou indiretamente, que algo saiu da ordem ou que uma circunstância conflituosa se instaurou. É a atualização de uma força natural, uma emoção com função vital.

Contudo, quando estabelecida como padrão predominante de reação, a resposta pela raiva pode tornar-se uma segunda natureza negativa. Cria-se uma vicissitude comportamental padronizada, na qual a raiva converte-se em desequilíbrio interno. Esse desequilíbrio perturba as relações entre o “dentro” (o mundo subjetivo) e o “fora” (o espaço de encontro das subjetividades), onde o comum aos sentidos instaura-se como dado objetivo, podendo exercer uma função de ponte ou convergência entre os signos.

Assim, mesmo sendo inicialmente uma força positiva e protetora, cabe perguntar: quando a raiva ultrapassou a defesa da integridade para tornar-se um paradigma de insensibilidade relacional ou inconsequência?

Nesse ponto, a raiva – antes útil em contextos específicos – transforma-se em força de autodestruição. Acumulada, passa a servir ao “ataque pelo ataque”. Tudo que incomoda é dramaticamente interpretado como ameaça real. Expressa, então, um grau profundo de desequilíbrio interno. Analogamente, será como uma ferida dolorosa na alma (no mundo dos signos e sentidos). A pessoa tende a interpretar tudo que a toca a partir dessa ferida, alimentando uma negatividade que cresce em si mesma – independentemente de causa externa imediata ou de desfoques internos. É preciso coragem para perceber que nem sempre a origem é um trauma, mas, por vezes, um caminho de cultivo negativo.

Quando o comportamento, na vivência das relações, decompõe-se e recompõe-se incessantemente em forças contra o outro – e a raiva torna-se a linguagem de comunicação predominante a qualquer gatilho físico, emocional ou paradigmático –, chega-se a um ponto em que ela precisa, urgentemente, de reeducação e ressignificação.

Em termos de consciência, a raiva deve ser entendida e acolhida como uma dinâmica natural. Ela pode ser uma força útil para a saúde (bem-estar) humana, quando reinserida em seu lugar adequado no psiquismo –  não denotando ameaça ou desordem à própria integridade.

Vontade, pulsão e instinto também se organizam em distintas cascatas de expressão, compondo o modo como sentimos, pensamos e agimos. Os teóricos da alma humana sempre tenderam à busca das respostas mais gerais possíveis. Uma coisa é certa: há uma clara busca por caminhos que conduzam o indivíduo a um estado mais integrado. Ou seja, a uma vida mais plena e feliz, ainda que os sofrimentos, a rigor, sejam inevitáveis. A integração – consciente ou não – é, em si, um caminho para o bem-estar. E a raiva deve ter um bom lugar nesse caminho. Evitar sua desvirtualização é uma aventura pessoal, entre as tantas e tantas forças que nos habitam.




Convite ao Leitor

Convidamos você, leitor, a observar com gentileza os processos e contextos da sua própria raiva. Este olhar pode ser um passo profundo e um gesto para a transformação. E para quem deseja ir além da reflexão e encontrar ferramentas corporais para essa jornada, convidamos a acompanhar o próximo texto de continuidade. Nele, exploraremos dinâmicas e propostas gestuais, práticas baseadas nos saberes do Taichi, do Qigong e da Meditação, que visam contribuir para uma vivência mais consciente, integrada e saudável dessa força fundamental que é a raiva. Até o próximo texto!




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Atenciosamente,

Luciano Vasconcellos
Esp. Filósofo Clínico,
Prof.Taichi, Qigong e meditação...

Aguardo você ao próximo texto, obrigado pela leitura, compartilhe!


Com ações e entregas de reflexões, saberes e ideias sinceras contribuímos para um mundo melhor ético e mais saudável!

quarta-feira, 2 de julho de 2025

"Humano por mais humanidade" - Uma crítica à projeção de um humano superior

     Há uma certa repetição no discurso de várias pessoas de destaque sobre uma suposta evolução do espírito humano, uns dizem que apesar dos avanços tecnológicos, espiritualmente temos muito para caminhar... Há uma certa certeza no patamar de um consenso que parece generalizado, onde seríamos espíritos destinados a uma longa jornada para uma evolução tão sonhada e querida. Mas será mesmo que somos inferiores ou superiores? Será que temos que assumir algum projeto pré-determinado ou desconhecido para alcançarmos nossas projeções acerca de nossos ideais  de bem? Será que não podemos nos equivocar nessa jornada onde apegados a nossas crenças e experiências pessoais tendem internamente serem elegidas como fonte de verdades? Sentimentos de vanguarda de certo modo não geram suas elites e preconceitos? O cuidado é precioso ou não? Seria esta uma atitude apta a todos e parâmetro de liberdade e educação?
    Convém lembrar que adoramos ter alguma justificativa para as questões da vida e para além dela, também queremos ser senhores do bem e do mal a ponto de até inventá-los. E de novo aparece aquele sutiu e eterno conflito das ações e do que se espera da relações entre o indivíduo e a coletividade. Parece que, no  para todos (os sensos em comum na coletividade) sempre entra num desarranjo com o para mim (no senso da individualidade). Insatisfeitos, as máximas começam: fulano precisa ter mais atenção, fulano precisa fazer isso ou aquilo, precisa se converter, não está de acordo... Fórmulas de humanização sob projeção do desejo de um humano superior são vomitadas aos quatro cantos, como se isto fosse exclusividade para alguns ditos mais evoluidos, e nesse processo o próprio senso de solidariedade acaba sendo uma manifestação egoística ou com ar de superioridade. Apesar de parecer contraditório é um possível da condição humana. Sim, essa sim,  pode ser o centro para uma reflexão em torno de nossas insatisfações e projeções.
    Pensar em uma humanidade mais "evoluída" seja entrar num campo contra corrente, onde alguns ideais precisem sofrer algumas inversões.
    O todo da vida talvez deva ser mais que entendido, vivido como dádiva e não sob a tutela de dívidas em relação de passado, presente ou futuro.  

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Rima furtiva

 

Há tantas formas no comunicar
Há tantas formas de juntos estar
Há tantas formas de como amar
Quando fisicamente distantes
As vezes vivo o silêncio que toca você
Enquanto fazes o mesmo a mim
Surfamos entre conveniências, limites e ousadias
Jingamos com a vida
Sabemos de regras
Sentimos o que sentimos
Gostamos de viver
Temos asas, casa, pés e gostamos da rua
Temos nosso querer bem
Tranquila vontade de estar,
segura e sabe esperar
Driblamos amarras
Ousamos em poucos estares
Aconchega-se o coração, calma e afeição
Um estar que não carece definição
Entre assuntos ,sonhos, parcerias e distâncias
É peculiar pontuar tal liberdade
Há uma brisa suave dissolvendo amarras
O vínculo é o amor, não os pactos.
Há tantas formas de amar
Nosso encontro é peculiar
E o mundo ainda não está pronto
Para este estilo de furtivos estares
Uma casualidade
Certezas pelo encontro
Desentendida mágica sentida
Pulsada, forte e moderada
A vida balança
Beleza ainda que em gotas de cuidar
Tudo transversaliza
Em rima furtiva
nossos caminhos se cruzam
É sempre bom querer-te bem!

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Fluxo ao foco de um instante

Mais um dia de presença amanheceu,  os passarinhos cantam... 

Tudo parece um convite aos gestos de silêncio.

Entre sentidos seguimos, percebemos, moldamos, despertamos e nos direcionamos.

 Muito se pode ou nada fazer.

Talvez, se no despertar da presença dos "instantes", possa escolher, moderar, deixar-se ir e ao fluxo focar, aprender, permancer, criar e enovar.

O caminho flui na multiplicidade enquanto ao tempo, sentidos e identificações cada um localiza-se e segue pontuando a vida..."

(L.V. 270323, @pensarconsiderando)