Powered By Blogger

domingo, 25 de janeiro de 2026

A Raiva: Da Proteção à Desordem – Uma Análise sobre sua Função e sua Distorção

A Raiva: Da Proteção à Desordem – Uma Análise sobre sua Função e sua Distorção


No complexo potencial do comportamento humano, um conjunto de forças concretiza-se em expressões, atitudes, significados e sentimentos. Nesse território, uma emoção destaca-se numa trama entre dinâmicas fundamentais: a dor e o sofrimento, em contraposição à busca por alívio; e a satisfação que conduz à experiência do contentamento, àquele “agora em que tudo está bem”.

Entre as forças que atuam nesse campo, a raiva emerge como uma expressão poderosa. Ela é, em sua origem, a resposta ao que ultrapassou o limite do suportável. Reação instintiva e natural, é a expressão de uma ruptura – a transição de um estado anterior para outro. Pode também ser entendida como um mecanismo de defesa, que visa proteger um significado interno, uma ordem de valores estabelecida subjetivamente. Portanto, num primeiro momento, a raiva é um modo de proteção.

Nesse sentido, ela deve ser sentida e entendida como importante e até desejada, pois sinaliza, direta ou indiretamente, que algo saiu da ordem ou que uma circunstância conflituosa se instaurou. É a atualização de uma força natural, uma emoção com função vital.

Contudo, quando estabelecida como padrão predominante de reação, a resposta pela raiva pode tornar-se uma segunda natureza negativa. Cria-se uma vicissitude comportamental padronizada, na qual a raiva converte-se em desequilíbrio interno. Esse desequilíbrio perturba as relações entre o “dentro” (o mundo subjetivo) e o “fora” (o espaço de encontro das subjetividades), onde o comum aos sentidos instaura-se como dado objetivo, podendo exercer uma função de ponte ou convergência entre os signos.

Assim, mesmo sendo inicialmente uma força positiva e protetora, cabe perguntar: quando a raiva ultrapassou a defesa da integridade para tornar-se um paradigma de insensibilidade relacional ou inconsequência?

Nesse ponto, a raiva – antes útil em contextos específicos – transforma-se em força de autodestruição. Acumulada, passa a servir ao “ataque pelo ataque”. Tudo que incomoda é dramaticamente interpretado como ameaça real. Expressa, então, um grau profundo de desequilíbrio interno. Analogamente, será como uma ferida dolorosa na alma (no mundo dos signos e sentidos). A pessoa tende a interpretar tudo que a toca a partir dessa ferida, alimentando uma negatividade que cresce em si mesma – independentemente de causa externa imediata ou de desfoques internos. É preciso coragem para perceber que nem sempre a origem é um trauma, mas, por vezes, um caminho de cultivo negativo.

Quando o comportamento, na vivência das relações, decompõe-se e recompõe-se incessantemente em forças contra o outro – e a raiva torna-se a linguagem de comunicação predominante a qualquer gatilho físico, emocional ou paradigmático –, chega-se a um ponto em que ela precisa, urgentemente, de reeducação e ressignificação.

Em termos de consciência, a raiva deve ser entendida e acolhida como uma dinâmica natural. Ela pode ser uma força útil para a saúde (bem-estar) humana, quando reinserida em seu lugar adequado no psiquismo –  não denotando ameaça ou desordem à própria integridade.

Vontade, pulsão e instinto também se organizam em distintas cascatas de expressão, compondo o modo como sentimos, pensamos e agimos. Os teóricos da alma humana sempre tenderam à busca das respostas mais gerais possíveis. Uma coisa é certa: há uma clara busca por caminhos que conduzam o indivíduo a um estado mais integrado. Ou seja, a uma vida mais plena e feliz, ainda que os sofrimentos, a rigor, sejam inevitáveis. A integração – consciente ou não – é, em si, um caminho para o bem-estar. E a raiva deve ter um bom lugar nesse caminho. Evitar sua desvirtualização é uma aventura pessoal, entre as tantas e tantas forças que nos habitam.




Convite ao Leitor

Convidamos você, leitor, a observar com gentileza os processos e contextos da sua própria raiva. Este olhar pode ser um passo profundo e um gesto para a transformação. E para quem deseja ir além da reflexão e encontrar ferramentas corporais para essa jornada, convidamos a acompanhar o próximo texto de continuidade. Nele, exploraremos dinâmicas e propostas gestuais, práticas baseadas nos saberes do Taichi, do Qigong e da Meditação, que visam contribuir para uma vivência mais consciente, integrada e saudável dessa força fundamental que é a raiva. Até o próximo texto!




Siga nossos canais:

https://www.threads.com/@lagarto__azul

https://www.instagram.com/pensarconsiderando?igsh=MW1iOHBtOTZ5NjlwZQ==

https://www.youtube.com/@lagarto-azul


Atenciosamente,

Luciano Vasconcellos
Esp. Filósofo Clínico,
Prof.Taichi, Qigong e meditação...

Aguardo você ao próximo texto, obrigado pela leitura, compartilhe!


Com ações e entregas de reflexões, saberes e ideias sinceras contribuímos para um mundo melhor ético e mais saudável!

quarta-feira, 2 de julho de 2025

"Humano por mais humanidade" - Uma crítica à projeção de um humano superior

     Há uma certa repetição no discurso de várias pessoas de destaque sobre uma suposta evolução do espírito humano, uns dizem que apesar dos avanços tecnológicos, espiritualmente temos muito para caminhar... Há uma certa certeza no patamar de um consenso que parece generalizado, onde seríamos espíritos destinados a uma longa jornada para uma evolução tão sonhada e querida. Mas será mesmo que somos inferiores ou superiores? Será que temos que assumir algum projeto pré-determinado ou desconhecido para alcançarmos nossas projeções acerca de nossos ideais  de bem? Será que não podemos nos equivocar nessa jornada onde apegados a nossas crenças e experiências pessoais tendem internamente serem elegidas como fonte de verdades? Sentimentos de vanguarda de certo modo não geram suas elites e preconceitos? O cuidado é precioso ou não? Seria esta uma atitude apta a todos e parâmetro de liberdade e educação?
    Convém lembrar que adoramos ter alguma justificativa para as questões da vida e para além dela, também queremos ser senhores do bem e do mal a ponto de até inventá-los. E de novo aparece aquele sutiu e eterno conflito das ações e do que se espera da relações entre o indivíduo e a coletividade. Parece que, no  para todos (os sensos em comum na coletividade) sempre entra num desarranjo com o para mim (no senso da individualidade). Insatisfeitos, as máximas começam: fulano precisa ter mais atenção, fulano precisa fazer isso ou aquilo, precisa se converter, não está de acordo... Fórmulas de humanização sob projeção do desejo de um humano superior são vomitadas aos quatro cantos, como se isto fosse exclusividade para alguns ditos mais evoluidos, e nesse processo o próprio senso de solidariedade acaba sendo uma manifestação egoística ou com ar de superioridade. Apesar de parecer contraditório é um possível da condição humana. Sim, essa sim,  pode ser o centro para uma reflexão em torno de nossas insatisfações e projeções.
    Pensar em uma humanidade mais "evoluída" seja entrar num campo contra corrente, onde alguns ideais precisem sofrer algumas inversões.
    O todo da vida talvez deva ser mais que entendido, vivido como dádiva e não sob a tutela de dívidas em relação de passado, presente ou futuro.  

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Rima furtiva

 

Há tantas formas no comunicar
Há tantas formas de juntos estar
Há tantas formas de como amar
Quando fisicamente distantes
As vezes vivo o silêncio que toca você
Enquanto fazes o mesmo a mim
Surfamos entre conveniências, limites e ousadias
Jingamos com a vida
Sabemos de regras
Sentimos o que sentimos
Gostamos de viver
Temos asas, casa, pés e gostamos da rua
Temos nosso querer bem
Tranquila vontade de estar,
segura e sabe esperar
Driblamos amarras
Ousamos em poucos estares
Aconchega-se o coração, calma e afeição
Um estar que não carece definição
Entre assuntos ,sonhos, parcerias e distâncias
É peculiar pontuar tal liberdade
Há uma brisa suave dissolvendo amarras
O vínculo é o amor, não os pactos.
Há tantas formas de amar
Nosso encontro é peculiar
E o mundo ainda não está pronto
Para este estilo de furtivos estares
Uma casualidade
Certezas pelo encontro
Desentendida mágica sentida
Pulsada, forte e moderada
A vida balança
Beleza ainda que em gotas de cuidar
Tudo transversaliza
Em rima furtiva
nossos caminhos se cruzam
É sempre bom querer-te bem!

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Fluxo ao foco de um instante

Mais um dia de presença amanheceu,  os passarinhos cantam... 

Tudo parece um convite aos gestos de silêncio.

Entre sentidos seguimos, percebemos, moldamos, despertamos e nos direcionamos.

 Muito se pode ou nada fazer.

Talvez, se no despertar da presença dos "instantes", possa escolher, moderar, deixar-se ir e ao fluxo focar, aprender, permancer, criar e enovar.

O caminho flui na multiplicidade enquanto ao tempo, sentidos e identificações cada um localiza-se e segue pontuando a vida..."

(L.V. 270323, @pensarconsiderando)

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Brasil Babel 2018 - a realidade e uma escolha em outro ponto de vista.





ENTRE OS PRESIDENCIÁVEIS, QUEM MAIS UTILIZOU RECURSOS DE CONVENCIMENTO EM SUA CAMPANHA? Sinceramente, você acha que sofreu algum efeito disso?

Para uma resposta que fosse além da tão venerada opinião com peso de verdade, seria necessária uma análise completa de todos os discursos dos políticos presidenciáveis na atual conjuntura. O marketing de cada um e as opiniões públicas, sempre instrumentalizadas por planejamentos de profissionais experts no assunto, são midiaticamente lançadas como ondas sobre nós, simples mortais. Os falsos deuses têm um certo poder.

Infelizmente, não é possível fazer isso agora. Adoraria fazer uma análise filosófico-clínica de todos os discursos, mas não tenho tempo nem investimento para tal. Então, depois de muitas tentativas de manter uma campanha neutra nas redes sociais por princípios de discernimento, resolvi falar sobre minha opção presidenciável. Vamos lá!

Primeiro, algo que já circulava no mundo virtual — claro, contendo um slogan sensacionalista, como quase todos. Logo houve reação em defesa de candidatos, até aí normal. Eu já vinha observando o fenômeno das influências, todas afirmando serem bem fundamentadas. Mas surgiu em mim a questão: até que ponto cada um de nós pode sofrer um convencimento e crer em narrativas como verdades absolutas, depositando nossas esperanças sem buscar aprofundamento? Assim, ficamos à mercê do que só o tempo poderá demonstrar — quais serão as perspectivas corretas e os discursos que se provaram verdadeiros perante os fatos e coerentes com as realidades futuras.

Então, olhei para vários discursos, todos apresentando propostas aparentemente bem-intencionadas e legítimas. Mas ainda era pouco. Ouvi teorias da conspiração, esforcei-me para elencar contradições entre fatos, pensamentos e significados de conceitos. A idealização é forte demais. Meu Deus! Tive a impressão de que é assim que pensamos enquanto povo. Uma angústia tomou conta do meu coração. Pensei de novo: meu Deus! E os que sabem que pensamos assim, o que fazem de nós? Ainda assim, procurei escolher um candidato. E aí, na condição comum a todos nós, submeto-me às minhas perspectivas e esperanças. Sinceramente, como exercício de patriotismo, fiz minha escolha ponderada.

Considerei UM PODER QUE NOS ASSOMBRA: ferramentas para o mal-convencimento, como slogans, entimemas e retóricas muito bem elaboradas. Coitados de nós, povo! Que diabo de palavras são estas? São apenas termos que significam conhecimento técnico sobre a arte de convencer, independentemente de fatos ou verdades. Essas técnicas buscam produzir significados, podem criar realidades em nossas mentes. Mas também poderiam servir apenas aos fatos e verdades — só que, em campanha política, isso seria ingenuidade, romantismo moral e seria entendido como atitude de um potencial perdedor... A atual conjuntura, porém, não vai para um lado ou outro intencionalmente. Os experts, formadores de opinião, têm a habilidade de fazer um mix de fatos, verdades, mentiras, invenções e ludíbrios convincentes, invisíveis à percepção leiga. Basta ter uma lógica que incline a crer; parece faltar critério. Assim, perguntei em minha alma: afinal, somos marionetes deles ou de nós mesmos? Vivemos a cultura da escolha do mais fácil e útil. Seria isso um sintoma grave? Muito sério isso… Deixa pra lá!

Os slogans, entimemas e retóricas predominaram em todas as campanhas, acertando flechas certeiras em seus alvos: os corações e pensamentos de nós, eleitores. Essas ferramentas eficazes das artes do convencimento — retóricas e lógicas — mesclaram realidades e suposições reformatadas ou estimuladas em todos nós, criando noias ordenadas, alimentando principalmente verdades pré-fabricadas que apreendem, conduzem e induzem nossas mentes a se ordenarem sob tais lógicas, depois coletivamente reforçadas por nós mesmos nos bares, nas rodas de conversa e nos seios familiares. Que gravidade, meu Deus! Poucos conseguem escapar! A noia criada perpassa pessoas de bom coração, desde intelectuais até ignorantes, todo tipo de pessoa, compondo o que parece uma formulação própria do tempo atual. Mesmo que um indivíduo se esforce para escapar, algo estará ali, infectado como verdade. Uma droga! Uma tentativa é não crer totalmente em nenhuma e não ceder ao pessimismo, pois a simples oposição por lógica, muitas vezes, valida o outro lado. Nesta eleição, isso é um fato!

Então, o que fiz? Procurei ser razoável, nem tanto lá nem tanto cá. Analisei apenas o que dizem e mostram. E, de fato, como a maioria dos brasileiros, não tenho intimidade ou aproximação real com nenhum dos candidatos, nem com esta ou aquela mídia; não faço parte de nenhum partido. Portanto, analisei o que me restou: propostas, disse-me-disse, manifestações apaixonadas, um povo envolvido como nunca (um patriotismo imaturo que pode e deve amadurecer). Só me restou escolher com coerência e análise dentro dos limites da minha consciência.

Esse sincero limite de consciência, para os éticos e bem-intencionados, é um ponto comum como condição de escolha e possibilidade de todos nós, não acha? Afinal, não somos oniscientes! Eticamente, essa condição me faz respeitar a escolha adversa e a similar. Nessa condição, entendo tudo como uma tentativa válida — ainda que infectada por ludíbrios tecnicamente articulados. Fora disso, brotam escolhas imaturas, dignas de comiseração. Não quero crer, e parece evidente que não é intencional ou por mal, apesar de tudo que tenho testemunhado em termos de convicções.

Vejo que a privação de um mínimo conteúdo para uma habilidade qualificada de discernimento é uma desgraça para a sociedade, que se envenena ao simplesmente alimentar os sentidos ofertados para induzir. Essa privação desqualifica a chance de um amadurecimento para escolhas ponderadas! Ponderar é uma habilidade importante para quem pretende ter um espírito livre! Quantos estão nessa condição de privação de conteúdos? O analfabetismo funcional nunca foi tão expressivo. Não se consegue ler e entender; não se consegue escutar e entender o que o mundo do outro revela para si mesmo; o quanto o mundo do outro revela o que se é no jogo das relações; o quanto é possível compor intencionalmente juntos. Mas a "Babel" continua predominando e nos levando à ruína. Poxa! Quantas pessoas nem imaginam o que é um slogan, um entimema? Quantas não têm consciência de que essas construções de ideias, em suas articulações de convencimento, escondem dados — função e sintoma essencial de toda ideologia — e são regidas por reducionismos que enquadram a realidade de acordo com suas conveniências? Isso para o bem de quem? De um grupo? Do povo? Ou até mesmo ao acaso da torpe cegueira fanática? Quem são os senhores das novas oligarquias? Enquanto a luta pelo poder vai rolando, nós, o povo, vamos falando e reinventando novos comunismos, fascismos, direitas, esquerdas e supostos centros. Deus! São inúmeras as teorias da conspiração que, indiretamente, parecem uma confissão de quanto gostamos de ser vítimas… Mas deixa isso pra lá — ou não; restará arcar com as consequências.

Aleatoriamente, na "Brasil Babel", ao conversar com uma pessoa instruída que se diz de extrema direita, verifiquei nela um discurso sonhando com um projeto político que, a rigor, seria uma proposta ideologicamente próxima de um tipo de sonho comunista. Chegamos a esse ponto de perder distinções básicas. Com outro, de esquerda, ouvi opiniões de centro, sendo ele taxado por amigos como comunista. Outro, de centro, apresentou-se com ideais de radical esquerda. Isto é real em nosso "Brasil Babel". Discursos assim revelam a noia dominante e o quanto temos que estudar mais, aprender mais, conhecer mais, compartilhar mais de modo criterioso, pensar e escutar qualitativamente para ponderar melhor. Enfim, sair desta "cultura da noia".

As sabatinas que ocorreram pareciam gerar mais dúvida pela dúvida, em vez de elucidar os eleitores. Seria melhor a confusão ou a instrução? Sonho que um dia isto fique claro e natural em nossa cultura. Os eleitores, por outro lado, sem os debates, já tinham definitivamente escolhido. Nunca vi TANTA PARALISIA DE OPINIÃO. Talvez Jesus diria: "Deixe que os mortos enterrem os mortos". Mas, na complexidade atual, os mortos enterram os vivos. Onde chegamos?

Vejo qualidades e defeitos em todas essas expressões de tipos políticos — ninguém é perfeito, não é? Não é preciso tapar o sol com a peneira, ainda que isso traga a ideia e a sensação de um falso alívio.

Aquele que o espírito democrático, com seus defeitos e qualidades, eleger como nosso representante, eu o honrarei como tal. Ficarei de olho e espero que nos honre com uma representatividade qualificada. Espero que a paixão desta eleição nos faça a todos fiscais participantes da "governança". Aí está a expressão dos meus sonhos para o meu país: um patriotismo qualificado. Atributos de governança deveriam ter sido o fator mais exaltado por todos nós e pelos candidatos, mas o fenômeno ocorreu em outros aspectos.

Fiz campanha pelo discernimento. Agora, na reta final, como todos, faço uma escolha. Assim como a maioria de nós, povo bem-intencionado, apenas fiz uma escolha.

Que venha o resultado, e que o eleito contenha ou desenvolva em si todos os atributos necessários para uma governança concretizadora, qualificada, justa para todos, não ideológica, apaixonante e simplista. O mundo nunca foi tão complexo, com tanta novidade, tecnologias, tendências econômicas e novos comportamentos; quantos medos, inseguranças e tentativas de retorno ideológico. Dentro de um quadro não terminado, um atributo ou outro, bom ou ruim, nisso ou naquilo, só pesaram na minha balança. Por isso, em minha justa consciência e liberdade, pesou a opção, no caso, o 12 (Ciro Gomes). Apesar de ele também usar recursos de slogans, entimemas e retórica, sinceramente, na escalada, apenas achei que usasse menos. Mas essas se tornaram o veículo e atualmente pragas infectando mentes, inclusive mentes brilhantes; algumas, com dinheiro e estruturalmente, financiam as verdades pré-fabricadas perpassando esquerdas e direitas, em nome da ideologia de seus interesses — quase nada lhes é de graça!

Ainda que em desacordo com efeitos de massa, positivos ou negativos, neguei-me a participar das ondas que me atropelavam com caixotes. Deus ilumine nosso futuro.

Para quem não entendeu o que eu quis dizer, no entanto, vou demonstrar (rsrs):

Devo escolher aquele que é bom. Deus é bom, a igreja compartilha os ensinamentos de Deus. Zé frequenta a igreja, logo Zé é a melhor escolha.
Resultado esperado: Produzir associação de que Zé é bom. Por dado lógico, gera-se um entendimento e uma identificação pessoal a partir do "desejado bem" (valor), e a pessoa torna-se vítima de uma astúcia manipuladora que instrumentaliza o que ela tem de melhor: seus valores, virtudes e crenças do bem, neste tipo perverso de arte do convencimento.


O bom pai educa seus filhos. Tonho ama seus filhos; os filhos fazem arte; como "bom pai", surra seus filhos; por medo, os filhos não fazem mais "artes" que possam ser percebidas. Portanto, quem ama bate. Tonho é entendido como um bom pai.
Dininha conversa francamente com os filhos depois de uma arte; os filhos, que nunca apanharam, sentem a franqueza e a privação de alguns "gostinhos" como uma surra. Não fazem mais artes. Tonho viu tudo e pensa: "Essa mulher devia ter dado uma surra, eles aprenderiam mais. Péssima mãe!"
Resultado esperado: Desfocar o centro de atenção, que deveria ser o educar e seu efeito. Daí, o interlocutor se distrai no debate homem × mulher, exemplos de jeitos de educar, costume, tem que bater ou não… Distrai-se do que se deseja: uma educação qualificada.

Isso tudo para dizer que o sensato é fazer o seu melhor. Na política, a dúvida é condição mínima para uma escolha que possa gerar efeitos de um bem real, querendo aprender e amadurecer. Crer na política é diferente de crer no Absoluto. Isso pode dar uma chance preciosa de escolher com real liberdade e dignidade, que cada um de nós merece ter — ainda que se considere um erro depois, afinal somos seres limitados. Democraticamente, importa a liberdade de escolha; melhor se há empenho para escapar das armadilhas indutivas de convencimento, às quais todos estamos sujeitos.

Eu escolhi votar, na reta final, no Ciro Gomes, 12, e manifesto. Poderia não fazê-lo. Há pessoas que me conhecem que poderão repensar suas escolhas por causa disto, eu bem sei. Mas isso seria uma pena, a não ser que tenham feito seu discernimento ao máximo, pois optar pelo voto de um amigo seria uma consideração amigável, mas também irresponsabilidade e imaturidade política — isto é real. E teríamos mais uma vítima da armadilha perversa de uma lógica dos afetos, porém distorcidos de sua função natural: gerar vínculos humanos. Nada a ver com o reconhecimento da qualidade administrativa que exige um cargo político.

Se todo esse sincero e limitado texto for entendido por você como indicação ou convencimento para votar na minha — declarada e arriscada como qualquer outra — opção 12, Ciro Gomes, ALERTA! Por favor, releia quantas vezes for necessário. Se não entendeu o sentido deste texto, possivelmente você pode estar sendo uma vítima das artes do convencimento, e seu voto estará sendo uma peça de manobra. Seria mais coerente votar nulo ou pontuar os aparentemente não elegíveis.

"12, Ciro Gomes", considerando atributos para uma melhor governança, é minha respeitosa opção, numa aposta de quem possa ser o melhor para todos nós — o que é diferente de uma certeza (crença) de que assim será. É apenas minha melhor perspectiva, só isso, nada mais.

Por favor, faça o mesmo, pensando no nós, em sua melhor escolha, sem medos. Faça seu melhor, neste ou naquele. Meu conselho você já sabe! Já sabe que não deve ir na onda dos "conselhos", mas discernir. Manter-se discernindo no realismo deve ser a regra absoluta. O seu melhor revela a condição em que se encontra como ser livre, pensante, responsável e politicamente solícito a todos os brasileiros — ou não.

Respeito sua escolha; respeite a minha. Diferenças de opinião devem ser expostas e conversadas em vista de amadurecimentos; negar isto é negar a possibilidade de si mesmo. O patriotismo é um ponto que deve unir os que querem o melhor desenvolvimento, ainda que haja divergência de opiniões, pois, mesmo crendo em vias de projetos distintos, a fé projetada é para um bem. Há um dito popular bem ético: se não pode ajudar, não atrapalhe. O voto em branco ou nulo também carece de discernimento.

Vamos lá, e viva o Brasil!

Andar para mais que andar

 

Andar não é só caminhar, andar é iniciativa, é concreção, andar é dar direção, andar é o fazer do agora o 100 por cento de cada passo, andar é o reunir as forças do antes e se lançar ao futuro, um passo de cada vez. Assim, a existência é integral, rima passado, presente e futuro, arte de ser sendo onde participativanente o destino se faz.

Andar é gesto onde a cada passo, o milagre do equilibrio acontece.

Andar é uma espiritualidade silenciosa do corpo em ação, signo do devir. Devir pelo corpo, devir pelos sentidos, é a alma que se expressa estando em direção. É via para as conquistas e satisfação  em construção na eminência de cada passo, o melhor modo de ser e estar feliz.

Andar é mais que a meta! A meta é um para onde, uma dualidade entre ser o motivo ou a tênue linha para frustração, afinal deseja-se realização. Andar é sempre uma concreção. Por isso, convém focar no poder do fazer, o agir de agora, fonte mantenedora da alegria do ser sendo.

Siga, aja, vai, anda, viva os 100% (cem por cento) de cada passo.  Isto é atitude de bem viver, é estar sóbrio(a) no acontecer, força que funda o futuro a partir do agora enquanto canaliza os impulsos do passado, afinal somos seres estruturantes.

No agora, sóbrio andar é dançar com a vida, é estar em par a tudo que lhe toca. Andar é administrar-se enquanto afeta-se e é afetado. Andar é ação, metáfora para o onde vai e para onde pretende-se chegar, um depois que torne um agora, andar é deslocar o tempo, transmutar  para parar um pouco. Andar é lidar com as resultantes e continuar, isto é alegria do ser sendo, é o surfar com o movimento.

Predominantemente, andar é a positividade de multiplas direções, espaço para os sentidos,  inclusive o recuar seja para proteger, esperar ou mais como adaptar, depois vem de novo aquele  impulso de continuar indo. Andar é movimento. E movimento é um campo de criação, expressão, e composição do viver. É bom que o andar seja compor-se em beleza. Pode-se involuir, permanecer ou evoluir, multiplicidade dos estados de ser.

Siga, mova-se por dentro e por fora, continue expressando em fatos aquilo que ultrapassou a fase potencial. Viva a realização, continue construindo sobre os momentos, ouse plasmar  a realidade, ouse conquistar a cada passo, desperter-se, assuma-se, liberdade de ser sendo, harmonize as responsabilidades, autoridades só fazem os sentidos de um mundo melhor.

Andar é uma metáfora do empenho, andar é mais do espera-se dos resultados e projetos, andar é ação, condição do tornar-se em realização, sentido que importa e prova aquilo que se é capaz. Continue andando, conquistando, aprendendo o.progresso de si mesma(o), alma que faz a cada passo. Sinta o despertar sorriso interior a cada momento. Viva viver!

terça-feira, 25 de outubro de 2022

A indução das mentes nos dias atuais, qualquer pode ser uma vítima!



Se permiteres ser uma vítima da astúcia alheia, não percebes que és tua alma que se embreaga de tolice e negação de uma verdadeira liberdade de espírito. Aquele que ousa te manipular no pensar, desrespeita o  teu ser te convencendo, disvirtua-te da clarez. Esses algozes, mais que acreditar que sejas um tolo sujeito as manipulações dos seus jogos de sentidos, no ato de tua adesão eles provam seu estado de pessoa ludibriada e possivelmente orguilhosa do de se estar no erro da ilusão.

Atualmente, exercer uma livre e séria reflexão pode ser perigoso? Mais perigoso ainda é não perceber como somos levados a pensar.
Este texto examina a arma invisível que molda o debate público: a metáfora. Como ela persuade, divide e aprisiona — e como podemos resistir à manipulação na política e na vida.
Uma reflexão urgente sobre o Brasil, a linguagem e a liberdade que ainda podemos conquistar.

Figuras de linguagem conferem a textos ou narrativas uma amplitude de sentidos. São meios que fomentam plurissignificação, aguçando a imaginação e, por vezes, induzindo a conclusões que se solidificam como evidências pessoais.
Partindo dessa consideração, uma metáfora — conforme a intenção de seu locutor — pode se converter em estratégia para induzir ideias, influenciar mentalidades ou convencer indivíduos e coletividades. Nesse caso, transforma-se em ferramenta para a conquista de certos fins. Parece que entramos na era da exploração do território da mente.
Usada com tal objetivo, uma metáfora assemelha-se àquelas armadilhas para passarinhos: uma vez dentro e envolvidos, torna-se difícil escapar.

Em termos práticos, essas armadilhas linguísticas ao entendimento promovem processos excludentes à clareza e à interação entre compreensões propositivas, dificultando novos aprendizados ou atitudes para um desenvolvimento contínuo da compreensão.
Esse tipo de artimanha comunicativa é especialmente presente na retórica política, constituindo visões de mundo e projetos específicos. Quando os espíritos a eles aderem, tornam-se enrijecidos em suas convicções, crenças e condicionamentos comportamentais. Sem perceber, ficam sujeitos à exclusão de suas potencialidades e ao digno clamor da alma humana por liberdade amadurecida e responsável — quanto ao entendimento, interpretação e compreensão das realidades e das fantasias. A capacidade de distinguir debilita-se, e o terreno para a constituição de entendimentos equívocos torna-se fértil.

Assim, nosso tempo, na facilidade da comunicação digital, paradoxalmente também segue produzindo prisioneiros de bolhas, guetos de signos identitários, onde os adeptos retroalimentam suas perspectivas — sentidas como legítimas pelo reconhecimento entre seus pares de causas, projetos e visões de mundo. Consequentemente, no placebo de suas satisfações internas, elegem o que pensam como se fossem dogmas ou a vanguarda da verdade.
Esse fenômeno se multiplica e participa da composição de visões tanto na esfera pessoal quanto coletiva.

Eis o perigo presente em nossa sociedade brasileira: paradoxalmente, resulta de estruturas que constituem avanços tecnológicos que facilitam o acesso à informação e dão voz a todos para se comunicarem e se expressarem livremente — o que não é sinônimo de ética ou maturidade.
Chegamos a essa dualidade no século XXI: uma realidade instaurada. A era tecnocrata está preenchida de intenções sobrepostas e técnicas manipuladoras de nossa natureza humana. A sociedade elege teorias da conspiração como verdades pré-fabricadas. A serviço de quem? Para quê? O que experimentamos de nosso caminho humanitário e no que estamos nos tornando?

Este contexto funda novos cenários, seguidos de muitos medos. Identitarismos e conservadorismos emergem como se fossem uma saída para o estado de confusão. As classes profissionais seguem competindo entre si, defendendo-se em corpos legais e exercícios de poder. Vivemos num mundo tão complexo e novo que, apesar de ser fruto de tudo que acumulamos — e também do que esquecemos ou negligenciamos — demos um salto em conhecimento: do século XX até agora, é incontavelmente superior à soma de todas as eras anteriores de nossa história. Dados estão presentes e mais acessíveis do que nunca: basta acessar o Google ou outros meios.

Hoje, com todo o arsenal de luzes para o presente, continuamos similarmente repetindo erros e inconsequências. Os saberes de antes permanecem, mas sem uma lúcida adequação correm o risco de não passar de formulações supostamente resolutivas, tolas esperanças para os desafios presentes.
Esse é o perigo do conservadorismo e sua tendência ao anacronismo — ainda que nele também haja clamores autênticos, pois seus adeptos igualmente são filhos deste tempo, em busca de soluções e de um mundo mais harmônico.

Apesar de toda tradição e experimentação de novos paradigmas, parece que não evoluímos para estar onde estamos. Continuamos produzindo e alimentando sofrimentos pela inadaptabilidade à inclusão e ao amadurecimento junto das diferenças. Ainda que iludidos como defensores de um bem, seguimos sendo causa de desintegração.
Fazem-se presentes iniciativas que levantam bandeiras que deformam tudo que lhes é diferente, preconcebendo o outro como ameaça a seu mundo, sobrepondo modelos totalitários regidos por projetos de universalidade excludente.

A título de exemplo, no Brasil basta abrir o YouTube ou outra rede social para constatar a presença de militantes de uma guerra cultural — que, ao que parece, foi idealizada em ambiente classificado como esquerdista, mas que, de fato, em projetos e práticas atuais, está sendo executada por agentes de uma direita. Um fato irônico e incoerentemente paradoxal.
Um sintoma grave desse tipo de movimento é a mesquinhez intelectual, deturpando e coletivizando a manipulação de dados históricos interpretados sob as trevas das teorias da conspiração. Ali, com todos os recursos lógicos e cinematográficos, é quase impossível não acreditar na veracidade do que se assiste.

Esse também é um dos desafios sobre a conjuntura das mentalidades: é difícil, sem preparo ou formação sobre as possibilidades do mundo atual, ter um discernimento hábil.
Estamos na era dos tecnocratas de tudo — inclusive das almas. Há um processo de morte da verdade: a narrativa mais convincente torna-se “verdade”. Para isso, basta lógica e bom discurso. Fatos viram piada, e voltamos a nos satisfazer apenas com uma verdade lógica — nada mais medieval que isso!
Se para os medievais tal pensamento era justificável por seu contexto, pensar somente assim hoje é negar nossa evolução no campo do conhecimento — no caso da cultura ocidental, de matriz judaica, grega e cristã, é negar as revelações que o mundo antigo, medieval e moderno ainda não tinham desvelado.
Não dá para avançarmos sem aprender a distinguir e integrar. Fora disso, é retroagir — abraçar a perda de potencial de aprendizado e, consequentemente, negar descobertas, nossa natureza criativa, os erros do passado e a possibilidade de um futuro mais harmônico, zeloso e amoroso.

Toda essa dificuldade vem sendo alimentada por adesões coletivizadas e, muitas vezes, pela multiplicação de metáforas e fake news. Mas vamos nos ater aqui ao poder das metáforas.

O poder ambíguo da metáfora
Metáforas são excelentes ferramentas de convencimento ou abertura a novas considerações. Até aí, tudo bem. Mas elas têm poder significativo tanto para esclarecer quanto para ludibriar; tanto para a veracidade quanto para fazer a ilusão e a mentira serem sentidas como verdade.
Há artimanhas tão astutas que até mesmo um espírito crítico, sem mínimo empenho, raramente escapa — seja para verificar, seja para superar.
Se olhamos a história das humanidades, a metáfora — assim como outras figuras de linguagem — foi e é utilizada por quase todos os sábios. Mas em todas as épocas há os “sabichões perversos” que, ainda que convictos de suas próprias visões de mundo, também a utilizam e com ela angariam adeptos. Esse tipo de ocorrência parece ser um processo comum às sociedades humanas.

Metáforas são pequenas narrativas pedagógicas: orientam sentidos, ajudam a entender, compor, reforçar e até criar visões de mundo, enraizar opiniões e valores. Mas, infelizmente, podem também reforçar a confusão e a alienação — como prova o Brasil imerso em extrema polarização.
Quando o sentido de uma metáfora internamente torna-se um valor — assertivo ou equívoco —, converte-se também em referencial na formatação de nossos juízos, pois inclina ativamente as interpretações a uma unidade valorativa e afetiva. Assim, tudo que nos toca os sentidos passa por essa lente.

Aos amantes da liberdade, da ética e do caminho para a verdade, é necessário compreender as estruturas de si mesmo, conhecer os jogos de linguagem e os efeitos das próprias afeições. Só assim estarão aptos ao conhecimento e à ação do próprio grau de liberdade interna, podendo romper bolhas e ciclos de repetição que nos aprisionam.
É preciso ter clareza de que compreendemos e interpretamos tudo a partir de um lugar e de uma estrutura processual que diz quem cada um de nós é no presente — ora tendendo à tolice, ora ao caminho dos sábios; ora às trevas, ora à luz; ora à aceitação do senso comum, ora à autonomia em direção a vanguardas.
Nessa rota, determina-se o que é falso ou verdadeiro, o que será do bem ou do mal, elege-se ou expurga-se quem ou o que é do bem ou do mal. Distinguir sem o devido amadurecimento — salvo por graça ou dádiva — só pode culminar em equívocos, erro, soberba e teimosia. Aí pode haver confusão entre identidade e convicções. Há entre nós quem não se dê conta de que ser e saber são coisas distintas.

Somos seres comunicativos que enrijecem ou manufaturam visões de mundo. Nessa natureza criativa, que eticamente exige responsabilidade na moldagem do mundo, cada opinião que externalizamos é um fragmento que revela parte de nossa composição mental e de como estamos sendo — mais para a integridade ou para a destruição. Por mais convictos que estejamos de estar no caminho do bem, o erro pode estar presente.
Nessa visão, há uma exigência que clama por sobriedade e humildade: somos apenas humanos. Nosso valor maior, depois do amor, está na afeição — pois tudo nos afeta.

O mecanismo interno da metáfora
Enfim, metáforas têm o poder de gerar associações que induzem direções aos sentidos que constituem a mente. Consequentemente, as metáforas — constituídas de suas lógicas e sentidos — trazem a sensação de evidência, de contato com as verdades.
É exatamente por isso que tendemos a entender e sentir, no primeiro instante, que aquilo que ao menos se aproxima do que já cremos ser verdadeiro seja de fato verossímil. Mas isso é inocência por privação do espírito crítico: não pensamos ou consideramos o que desconhecemos.

Observe a gravidade ética do mundo atual — tempo da pós-verdade —, onde verdades são produções com fins técnicos de convencer e produzir comportamentos, fazendo às vezes da verdade sem o serem de fato.
Complexo isso. Exigir essa percepção como saída — libertação dos espíritos — depende da própria compreensão de quem somos: humanos, seres culturais, históricos, limitados e maravilhosamente em construção.

O sentido de uma metáfora instaurada na mente é resultado de um entendimento lógico tornado valor interno. Sem a possibilidade de tutela crítica, deixa a mente à mercê de um funcionamento espontâneo que preenche lacunas com imaginação, por razões neuromecânicas, sem distinguir entre o hipotético, o indício, o provável e a descrição do real.
Portanto, na primeira fase do entendimento frente a metáforas — seja para o bem ou para o mal —, ao associarmos acontecimentos, temos um misto de imaginação, lógicas e indícios que se traduzem como fatos em si. É nesse quadro que nos alienamos da possibilidade da luz das verdades. A verdade, nesse quadro, reduz-se à limitação do movimento habitual da mente, e condicionadamente elegemos o que é falso ou verdadeiro.
Nesse caso, a verdade torna-se aquilo que queremos que seja verdade. A crítica deixa de ser útil e torna-se incômoda para a mente, que, por economia de energia, tende a permanecer no mesmo modelo de funcionamento.
Eis um dos desafios: tudo o que consideramos real é eleito como verdade. Por natureza, a mente — limitada em sua conjuntura de significações — acaba ora afirmando, ora negando, em nome de sua comodidade interna, quase nunca consciente em primeiro instante.

Por fim, um alerta
É importante sermos capazes de distinguir entre narrativas descritivas — aquelas que apenas descrevem o observado — e aquelas que criam situações, dão voltas, distraem e engolem no convencimento. Aí, o mundo de uma lógica fantasiosa toma o lugar dos fatos.

Diante de tudo isso, encerro não com uma conclusão, mas com um convite à vigilância afetiva e intelectual.
A metáfora não é um inimigo a ser eliminado — é uma força da linguagem que reflete nossa própria ambiguidade humana: criadores e criaturas dos sentidos que nos movem. O que está em jogo, portanto, não é abolir as figuras, mas educar o olhar que as recebe.

Nossa saída possível não está na ingenuidade de acreditar que escaparemos totalmente das armadilhas, nem no cinismo de achar que tudo é manipulação. Está na humildade de quem sabe que pode estar errado — e na coragem de revisar, a cada nova evidência, os mapas mentais que traçamos.

Se a política hoje se tornou um campo de batalha de narrativas, nossa tarefa civilizatória é recusar a redução do outro a um inimigo a ser convencido ou cancelado. É lembrar que por trás de cada metáfora ardilosa há uma mente humana — tão frágil, tão sedenta de sentido quanto a nossa.

Que estejamos atentos, pois, não só às metáforas que nos chegam, mas às que produzimos. Que possamos ser artesãos de uma linguagem que não aprisione, mas que abra — que não enrijeça certezas, mas que alimente diálogos.
No fim, talvez a única metáfora realmente libertadora seja aquela que nos lembra: somos todos, sempre, aprendizes da realidade. E é nessa condição compartilhada que podemos, com sorte e esforço, tecer um entendimento comum — menos intoxicado, mais generoso, e à altura da complexidade que nos habita.

A arma contra a armadilha não é o silêncio, mas a reflexão consciente.
Contra a alienação, o diálogo paciente, claro e ponderado.
Contra a pseudos-verdades, a busca contínua.
Vamos adiante.