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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Carta de um cristão para cristãos entre tendências e questões deste tempo

Carta de um cristão para cristãos entre tendências e questões deste tempo

​Muitos entre nossos irmãos cristãos acreditam ou agem como se houvesse uma plena harmonia entre o projeto do neocapitalismo selvagem e a ética cristã. É certo que nem este e nem o que foi o comunismo sejam condizentes com a proposta da instauração do Reino de Deus. É fato que, de algum modo, a "teologia da prosperidade" se hegemoniza como estilo de vivência da fé entre segmentos da Igreja Católica e outros segmentos que compõem o corpo místico de Cristo em unidade. Essas tendências ecoam em paixões por ídolos políticos — o que cheira a uma vã esperança e, pior, a uma das formas de idolatria raramente percebida, que desloca o lugar da real esperança e das sóbrias escolhas. Infelizmente, essa tendência não passa de um outro modo de perversão no corpo de nossa fé — não vale a pena acabar com um mal instaurando outro, isso é ilusão e inauguração de modalidades da continuidade do exercício do pecado.

​Em tempos onde o corpo da fé se reduz a egos individuais, deve-se recordar que a fé cristã se constituiu por princípios essenciais que norteiam a possibilidade de um bem comum que, em sua máxima radicalidade, propõe amar os inimigos — o que é loucura para muitos e contínua proposta de conversão. O bem comum de Jesus se compõe em um amplo anúncio de um Reino para todos. O nosso Deus, em sua humanidade mediante a conjuntura de seu tempo, reconheceu que traria discórdia e não a paz – havia ali uma atitude presente que já revelava a coragem (agir com o coração) e o potencial de escolha para enfrentar o caminho da cruz; contudo, de sua boca e de sua vida nos Evangelhos, temos as afirmações: "fazei o bem e não olhai a quem", "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Ele fazia distinções com um claro discernimento que claramente, nesta era de desinformação, tanto falta para muitos que se satisfazem nas confirmações de suas bolhas identitárias. Pelo amor de Deus, cristãos, voltai-vos para o que vos é próprio!

​Parece que esquecemos que a missão, mais do que julgar ou condenar, é promover a conversão. Isso é uma atitude propositiva e necessária que compõe o corpo dessa fé desde seus inícios! Agora, muitos continuam reféns da exaltação da sensação de medo do porvir. A via da cruz parece estar fora do foco, a esperança é fraca, e o caráter dos seus argumentos, justificativas e escolhas baseia-se no espírito perverso desse exaltado medo e da ameaça da quebra dos costumes... Ao invés disso, é melhor recordar e se devotar à lucidez de sua real salvação, o Cristo Jesus, e sim, em nome Dele, ousar sempre por mais esclarecimento e testemunho a partir da própria vida, com liberdade e independência das tendências deste mundo. Contudo, é preciso manter-se ciente das nossas limitações humanas: se nos iludirmos, querendo ou não, geraremos pecado e alimentaremos mais dor em nós e nos outros. Num mundo de informações e desinformações a um clique, todos podem sentir-se ilusoriamente oniscientes e portadores de um saber em grau de qualidade igualitária — o que não passa de ilusão e arrogância, fruto da insegurança de assumir suas fragilidades diante de um mundo com novos desafios. É próprio da sobriedade reconhecer que nosso saber é naturalmente insuficiente, distinto e íntegro ao ser de cada um. Essa limitação é causa para o a mais ou para o a menos na existência, mas na fé da via da luz que vem de Cristo, temos o a mais e podemos nos inspirar para a comunhão dos santos; podemos ser instrumentos Dele.

​Vivemos um tempo de um proselitismo político mesclado por excessos de costumes, alguns de ordens essenciais ao corpo da fé e outros que podem mudar, mas que por confusão são sentidos como naturais ao corpo da fé, moldando padrões vivenciais. Os envolvidos por estas tendências não se dão conta da semelhança de seus erros: suas atitudes e certezas são similarmente as mesmas daqueles que se inclinaram a crer que o comunismo era uma via de harmonia com o cristianismo; acreditavam de coração estar na escolha certa, julgavam-se fiéis a Cristo. É preciso acordar e retomar o tempo da conversão interna para ser sal no mundo. Infelizmente, há muitas facetas no cristianismo que, sem se dar conta de sua arrogância, testemunham ter-se tornado amargor e força de controle. Esta imagem vendida é uma triste decadência e, de algum modo, um afastamento de Jesus. Para livrar-se deste estigma que se impõe sobre si mesmos, nós, cristãos, devemos retomar nossa unidade comum em Jesus. Deve ser claro que "essa ou aquela ideologia", por mais distintas que sejam entre seus altos e baixos, limites e possibilidades, não são a nossa salvação — no máximo, devem ser meios passageiros para uma humanidade que sabe que pode amadurecer e não é um projeto fechado: há espaço para a conversão. Parte do papel no processo da contínua conversão que cabe a todo cristão é o cumprimento de sua missão: orar pelos governantes, anunciar a retidão e manter-se desapegado da paixão por candidatos como se estes não fossem humanos finitos. Escolher como cristão exige simultaneamente clareza e ternura, lucidez sobre o bem possível para que as cobranças sejam também justas, e não condenações delirantes por se identificar com esta ou aquela tendência política — ou seja, meios de concretizar projetos sob certa ótica ideal. Livres do mal, sim, ore para que esteja escolhendo certo em tempos de eleições — isso é agir com sobriedade cristã, e a medida exemplar de todos é a ótica de Jesus. Não dá para continuar fechando os olhos e afastados da unidade no Espírito de Jesus. É preciso coragem: não basta tentar fazer o bem depositando todas as esperanças no que é de natureza instável... Consegue entender? Sob o domínio da paixão pelas causas terrenas ou intolerâncias, de algum modo nega-se, por essa paixão, a fidelidade ao Evangelho por um mundo melhor. Se estivermos cegos em nossas tendências, não haverá metafísica que possa nos salvar. Por mais que creiamos estar fazendo o bem, na prática podemos, sim, estar fomentando o mal — lembremos que a palavra diabo significa divisão. Precisamos nos afastar deste mal presente entre muitos de nós. Devemos nos acolher na clareza e no amor do Cristo Jesus.

​Sob o desafio de um mundo cada vez mais diversificado, a ferramenta do cristão continua sendo orar por aqueles que governam, pois o Espírito Santo pode agir "quando e onde quiser". Devemos superar as ambições de nossas certezas sem nos perder da construção de um Reino amoroso e justo; a todos cabe responsabilidade e liberdade, abertos à graça e ao testemunho de vida. Convém ao cristão lembrar disso e fazer a parte que lhe cabe: acima de tudo, anunciar, denunciar e iluminar a partir do Amor de Cristo, que a tudo pode converter à justiça do Pai. As coisas deste mundo são passageiras, mas a realidade eterna não deve ser excluída do horizonte cristão; a realidade não para aqui neste tempo... O sonho de lá se encarna aqui no Cristo que vive em nós.

​Muitos entre nós, cristãos, estamos tradicionalmente presos a uma moral da repetição — isto ainda não é estar convertido. Lembremos: o Evangelho é vivo e deve estar vivo nos processos de cada um de nós. Essa foi a estagnação rompida com o farisaísmo: é o ir para além da lei, mas não uma oposição à finalidade da lei, que era estar na via de Deus. Os cristãos do início apenas dinamizaram um pouco mais a via; podemos retomar isso hoje na presença da ação do Espírito Santo.

​Sejamos humildes no espírito e firmes na fé; esta deve confortar nossos corações durante as mazelas deste mundo amado por Deus, mesmo com tantas desinformações e sequelas alienadoras. Tolos são todos os que fomentam inverdades, não notando que alicerçam armadilhas para si mesmos... Lembremos que, se o sentimento de fidelidade a Cristo se alicerçar em certezas sem um bom discernimento, nos encontraremos mais do que induzidos ao erro: não passaremos de cegos arrogantes e inconsequentes. Por mais autênticas e puras que sejam nossas intenções morais, elas não nos conduzirão à natureza da ética de Jesus.

​Enfim, para nossos corações estarem em paz com nossa identidade cristã e para melhor viver no mundo de hoje enquanto se constrói o melhor, devemos necessariamente voltar à raiz da atitude de Cristo, sendo condizentes com o Espírito Santo, que sopra onde e quando quer. Acima de tudo, romper com as reclamações que não passam de crendices sem fundamento, e assumir a responsabilidade de medir e construir as realidades a partir do Amor. E isso começa no coração de cada um de nós — o primeiro lugar a se fazer jardim para um mundo melhor. Anunciai aquilo que, de algum modo, já é o Cristo que vive em você! Seja comunhão! Ele veio para este mundo, não desistiu deste mundo, não o condenou, ofertou vias para a conversão e salvação!

​Mãos à obra, pois pouco ou nada ainda fizemos – como diria o corajoso e amoroso Francisco de Assis.

Autor: Luciano Vasconcellos — pensarconsiderando.blogspot.com


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Enaltecendo a Diferença: O encontro com o outro e a busca pela paz

O convívio com o diferente costuma provocar reações ambivalentes: de um lado, o receio do desconhecido; de outro, a oportunidade do autoconhecimento. Longe de ser um mero obstáculo para a harmonia social, a alteridade é o espelho que consolida a nossa própria identidade. Este texto propõe uma reflexão sobre como o respeito às particularidades do outro transcende o plano das ideias e se torna a única base concreta para uma ética da paz duradoura e verdadeira.

O contato com aquilo que se diversifica do meu mundo e do meu conjunto de referências é a presença do outro que me dá a concretude do saber sobre o meu próprio mundo. Trata-se de um processo enriquecedor que, ainda que permeado por condicionamentos como medo, preconceitos, buscas e estímulos, impulsiona-me a ultrapassar a barreira daquilo que sinto como natural e cômodo. A partir desse contato, sou movido a preencher o desconhecido: ora construo novos horizontes, ora confirmo os padrões já existentes, entregando-me ao desfrute da descoberta — uma verdadeira aventura da alma.

Uma relação aberta ao diferente talvez seja a real condição para uma identidade autêntica, alicerçada na acolhida do movimento da própria vida. Nela, não se vive submisso a um cárcere interno da alma; busca-se e sabe-se reconhecer a integridade em tudo. Não se fica preso a um idealismo fixista nem ao nihilismo, pois há plena noção do fluxo temporal e da possibilidade de um "além disso". Os significados e atitudes funcionam como ferramentas que compõem o viver — algo dinâmico, mas fundamentalmente inserido no tempo.

Nessa postura, não há uma necessidade arbitrária de impor mudanças; prefere-se, antes de tudo, compartilhar e pluralizar, posicionando-se com clareza sem perder a capacidade de deixar o outro ser. Reconhece-se, com maturidade, que as escolhas e atitudes alheias são expressões da liberdade do outro — um ponto radical onde, por respeito à própria liberdade, resta apenas compartilhar, sabendo que a reação do outro pode ir da acolhida à negação ou à mediação.

Daqui emerge uma ética que responsabiliza individualmente o sujeito pela sua forma de construir o mundo e de estar nele. O que se busca é um espaço onde o outro possa manifestar-se e crescer dentro de suas possibilidades de liberdade e complexidade. É essa a condição primordial para a aproximação e para a concretização de uma paz prática, onde a diferença seja um valor que garanta a integridade de todos.

Sem a acolhida prática da diferença, não pode haver boa convivência. Até mesmo o ideal do Amor torna-se frágil se baseado nos esforços tradicionais que tentaram fundar a paz na exigência de visões comuns e comportamentos padronizados sob superficialidades. Por essa via, fez-se guerra em nome de Deus, caçaram-se "bruxas", demonizaram-se religiões e oprimidos tornaram-se opressores. Muito conhecimento desenvolveu-se pela crueldade e, hoje, busca-se uma política econômica padronizada — um novo "deus" do momento que gera profunda exclusão.

Trata-se de uma verdadeira contradição em relação a uma cultura que idealizou o amor Ágape: um amor gratuito, cheio de graça, trans-exigente e nada romântico. Nele, não há por que exigir nem se impor; por isso, a diferença surge como criatividade e multiplicação das realidades. O ideal de um mundo em paz, unificado por uma hegemonia convencionada para excluir as diferenças, é um câncer histórico que só gera imposições, intolerância, revolta e autoafirmações cegas — gerando imenso mal em nome de fragmentos de um mundo mental.

A diferença é a essência da modalidade atual de tudo: uma condição indispensável para a distinção e para a construção da identidade em seu estado vivo e em constante movimento.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Entre a Esperança e a Dor: O Humano como Projeto em Aberto


Entre a Esperança e a Dor: O Humano como Projeto em Aberto


Por Luciano Vasconcellos


O que se entende por humanidade não se constitui como um conceito estático ou um produto acabado. No campo das significações e representações, esse entendimento vai muito além da descrição do fato biológico. A existência humana é, acima de tudo, um exercício simbólico que dança entre sensibilidade e inteligência. Trata-se da forma como se ordena e se vivencia aquilo que se idealiza e se nutre como sentimento do “melhor”. Nesse sentido, a humanidade se consolida como um valor transtemporal e uma via de construção ético-prática, flutuando entre o que já se foi, o que se é e o que se deseja ser. Trata-se de um movimento contínuo que — guiado pela localização temporal e pela crítica — tanto pode expandir-se em consciência, aprimoramento e compromisso, quanto pode esfriar-se em seu próprio dinamismo, chegando a inverter-se em um processo de retrocesso comportamental e cultural.


Trata-se de uma espécie dotada de inteligência, apta a fazer escolhas e a dar direção, capaz de interagir e de se moldar na conjuntura dos próprios sentimentos e acontecimentos. O ser humano é inerentemente criativo, potencialmente inclinado a construir sentidos para a vida — ora belos e realizadores, ora inconsistentes e autodestrutivos. Entre experiências sentidas como positivas ou negativas, o percurso é sempre particular. É curioso, e até lamentável quando se almeja um avanço contínuo, notar como essa mesma inteligência pode se tornar um meio de autossabotagem. Muitas vezes, em vez de evoluir para uma existência mais consciente e colaborativa, permite-se que visões de mundo circunscritas e limitantes — a exemplo de bolhas digitais ou pautas identitárias — desvirtuem o potencial de harmonia entre a individualidade e o coletivo.

Infelizmente, vive-se um desequilíbrio evidente em narrativas que visam disseminar ideias a serviço do controle pela alienação do salutar papel de uma crítica ética. Esse mal se naturaliza e se dissemina, especialmente, pela perversidade de modos de gestão negativa por interesses de poucos no poder e, também, pela ignorância ou pelo desinteresse de muitos. Muitos se encontram distraídos da noção fundamental de que se é parte da natureza, e não seus donos. A organização econômica e social sob o estandarte de uma ambição cega faz a Terra “chorar”. Evoluir e avançar é necessário, mas o “como” isso se faz é o que define as sequelas que se deixará para o futuro.


Hoje, muitos vivem como se a vida fosse um trajeto isolado, sem sequer se dar conta de que se eximem de iniciativas e responsabilidades que nutrem minimamente o bem de si e o bem comum. Há uma espécie de embriaguez em duas paixões: o consumo desenfreado, no qual qualquer coisa ou pessoa pode se converter em produto em nome de uma comodidade negativa — uma espécie de ditadura do prazer que ignora a moderação ou o equilíbrio no uso das coisas e das relações. Essa negligência com a sustentabilidade e com as trocas de energia que sustentam a vida é um sinal de alerta máximo, um indício de que, coletivamente, as forças da sensibilidade se encontram castradas. Há quem prefira a insensibilidade, treinando o espírito para ignorar dados da realidade, pois o que não está na consciência não precisa ser pensado, não precisa ter noção do que é sentido... Esse é o pior estado da privação: o sujeito que se autopriva de enxergar a própria finitude e a chance de se humanizar continuadamente.


A inteligência, nos jogos de signos e significantes, pode servir à cura ou à destruição; eis a grande questão do poder de escolha e destino.


Assim, na vida atual, quem se isola para tirar vantagens egoístas, sem a “poesia prática da alteridade”, acaba por viver um pessimismo disfarçado de sucesso. São indivíduos livres que se tornam “meias-marionetes”, aceitando arquétipos prontos que lhes regem e subjacente dizem: “não pense, apenas consuma, apenas, isso basta lhe para pensar que é feliz ”.


Até o ditado “errar é humano” tem sido usado como muleta para a negligência. Mas é preciso diferenciar as coisas: o erro é uma falha de cálculo, um alvo perdido por limitação técnica ou imprevistos. Já o equívoco ocorre quando se age acreditando estar certo, mas falta a consciência ética das relações e dos efeitos sobre o todo; a parte se julga universal, o que é um sinal de comportamento totalitário que se distingue de uma mera opinião egoísta. Reconhecer quando o equívoco se torna o ponto de referência nas narrativas é o amadurecimento necessário do qual a era tanto carece. Isso merece ser levado à clareza para evitar sofrimentos contemporâneos...


Em um mundo saturado de meias-verdades, onde pseudoautoridades gozam de status de credibilidade quase divinas, a repetição de postagens infundadas e de curtidas tornou-se ferramenta de convencimento. E, na esfera individual, o outro mal é deixar-se convencer passivamente: a nova forma de escravidão do espírito. Ao fim, é preciso entender que as interconexões têm começo, meio e fim — e a qualidade desse trajeto depende da coragem de ser, finalmente, inteiro.


Síntese


O texto convida ao despertar do estado de “meia-marionete” imposto pela cultura do consumo e pela insensibilidade social. Ao distinguir o erro técnico do equívoco moral, o autor reforça que a humanidade é um projeto contínuo que exige responsabilidade ética e harmonia com a natureza. A verdadeira evolução não está no acúmulo ou no poder, mas na capacidade de integrar a singularidade individual ao destino comum da espécie.

Há algo sempre a despertar


Que venha lucidez

Cada pensamento 

Eis uma resposta contextual

A alma é poética, mítica e descritiva...

Força lançada para fora

Um vento que passa

Vai além sua origem

O Propósito torna se brincadeira

 E o que nasceu recontextualiza

O novo encarna singularidades.

Nela não há repetição

O vem a compor-lhe

Há um tudo de novo

A experiência é única

Mundo dos eus

Seja simbólica

Seja diabólica. 

Lá um "Deus" fala

Há um campo imaginal

A sacada importa 

Do oriente a Dança flui

Balançar é equilibrar-se

Praticar é conhecer

Sentir é viver

Sorrir é alegria

Hoje a vida corre

A alma quer ser máquina

Obsessiva, moderna

Metas são plantadas 

Tudo deve estar 

Na fôrma de uma forma

Engana-se feliz assim

A aventura não é desordenar

É liberdade de somar 

O útil verte-se inútil

Se nobre sentido se perde

O prático verte em ócio

O ócio é trabalho

Deveria ser

Poderia ser

Nunca escravo

O inútil a nada serve

A nada precisa responder

Nossa! Quão útil és

A modernidade perde a leveza

Tudo se cobra

Naturalidade vira a falta

O tempo para contemplar

O coração geme silêncio 

Mas se olhas o horizonte

A oportunidade se faz

Há beleza nisso

Há algo sempre a despertar!

TAIJIQUAN: A ARTE DA INTEGRALIDADE EM UM MUNDO FRAGMENTADO


Por Luciano Vasconcellos


​O Taijiquan (Tai Chi Chuan) foi reconhecido em estudos da Universidade de Harvard como um dos sistemas mais eficazes para a manutenção da saúde. Segundo o Harvard Medical School Guide to Tai Chi, a prática é definida como uma "medicação em movimento", capaz de tratar e prevenir os males da vida sedentária e do estresse crônico. Esta arte, embora oriunda do vilarejo de Chenjiagou, na China, transcende suas origens camponesas para dialogar diretamente com as necessidades da natureza humana global.

​A Crise da Funcionalidade e o Resgate do Ser

​No cenário atual, a estrutura da vida moderna tende a reduzir o ser humano a meras funcionalidades de produção apressada. Essa dinâmica condiciona mentes responsáveis a um estresse que desvirtua a ordem do "ser integral". O mal-estar contemporâneo não advém apenas de escolhas individuais, mas das sequelas de uma vida onde os afazeres servem a segmentos específicos, tornando a manutenção da existência uma constante "objetificação". O bem-estar passa a ser entendido, erroneamente, apenas como o cumprimento de metas.

​Contra essa fragmentação, o Taijiquan se abre como um leque de benefícios. Não somos apenas partes isoladas — corpo e espírito, fisiologia e energia. Como aponta a Teoria dos Sistemas Complexos aplicada à saúde, o ser humano é o resultado de suas interações, pensamentos e relações. Ao priorizar apenas algumas dessas partes, fragmentamos nosso potencial.

​O "Co-nascer": Conhecimento como Transformação

​Praticar Taijiquan é permitir-se um processo de "co-nascimento". Ao conhecermos a arte, instauramos um grau de intimidade conosco. Como seres em contínua composição, não somos estáticos. O Taijiquan é o modo prático de viver essa dinamicidade no corpo — a geografia onde tudo se localiza. Enquanto respiramos, estamos em tempo; e é nesse corpo que o espírito se expressa.

​"O Tai Chi não apenas melhora a forma física, mas reprograma a resposta do sistema nervoso ao ambiente." — Wayne, P. M. (Harvard Health Publishing).


​Além das Categorias: Uma Prática Transversal

​Embora seja uma arte marcial interna, uma terapia natural e uma filosofia de vida, o Taijiquan não deveria ser limitado por legislações que o enquadram em apenas um desses nichos. No Ocidente, temos o hábito de fragmentar para conhecer, o que acaba por reduzir juridicamente uma arte de natureza transversa.

​O Taijiquan é uma meditação ativa e uma "ginástica de expansão cerebral". Estudos de neuroplasticidade demonstram que a prática sistemática aumenta a densidade da massa cinzenta e melhora as funções cognitivas. Não se trata de uma ideologia para mudar o mundo, mas de um exercício de integração entre o "dentro" e o "fora". É sabedoria integral comprovada na pele e confirmada pela ciência.

​Sobre o Autor

Luciano Vasconcellos

Professor e praticante de Taijiquan há mais de 30 anos. Oferece aulas presenciais e online, media rodas de conversa e realiza atendimentos terapêuticos baseados em escuta analítica e práticas corporais.


domingo, 25 de janeiro de 2026

A Raiva: Da Proteção à Desordem – Uma Análise sobre sua Função e sua Distorção

A Raiva: Da Proteção à Desordem – Uma Análise sobre sua Função e sua Distorção


No complexo potencial do comportamento humano, um conjunto de forças concretiza-se em expressões, atitudes, significados e sentimentos. Nesse território, uma emoção destaca-se numa trama entre dinâmicas fundamentais: a dor e o sofrimento, em contraposição à busca por alívio; e a satisfação que conduz à experiência do contentamento, àquele “agora em que tudo está bem”.

Entre as forças que atuam nesse campo, a raiva emerge como uma expressão poderosa. Ela é, em sua origem, a resposta ao que ultrapassou o limite do suportável. Reação instintiva e natural, é a expressão de uma ruptura – a transição de um estado anterior para outro. Pode também ser entendida como um mecanismo de defesa, que visa proteger um significado interno, uma ordem de valores estabelecida subjetivamente. Portanto, num primeiro momento, a raiva é um modo de proteção.

Nesse sentido, ela deve ser sentida e entendida como importante e até desejada, pois sinaliza, direta ou indiretamente, que algo saiu da ordem ou que uma circunstância conflituosa se instaurou. É a atualização de uma força natural, uma emoção com função vital.

Contudo, quando estabelecida como padrão predominante de reação, a resposta pela raiva pode tornar-se uma segunda natureza negativa. Cria-se uma vicissitude comportamental padronizada, na qual a raiva converte-se em desequilíbrio interno. Esse desequilíbrio perturba as relações entre o “dentro” (o mundo subjetivo) e o “fora” (o espaço de encontro das subjetividades), onde o comum aos sentidos instaura-se como dado objetivo, podendo exercer uma função de ponte ou convergência entre os signos.

Assim, mesmo sendo inicialmente uma força positiva e protetora, cabe perguntar: quando a raiva ultrapassou a defesa da integridade para tornar-se um paradigma de insensibilidade relacional ou inconsequência?

Nesse ponto, a raiva – antes útil em contextos específicos – transforma-se em força de autodestruição. Acumulada, passa a servir ao “ataque pelo ataque”. Tudo que incomoda é dramaticamente interpretado como ameaça real. Expressa, então, um grau profundo de desequilíbrio interno. Analogamente, será como uma ferida dolorosa na alma (no mundo dos signos e sentidos). A pessoa tende a interpretar tudo que a toca a partir dessa ferida, alimentando uma negatividade que cresce em si mesma – independentemente de causa externa imediata ou de desfoques internos. É preciso coragem para perceber que nem sempre a origem é um trauma, mas, por vezes, um caminho de cultivo negativo.

Quando o comportamento, na vivência das relações, decompõe-se e recompõe-se incessantemente em forças contra o outro – e a raiva torna-se a linguagem de comunicação predominante a qualquer gatilho físico, emocional ou paradigmático –, chega-se a um ponto em que ela precisa, urgentemente, de reeducação e ressignificação.

Em termos de consciência, a raiva deve ser entendida e acolhida como uma dinâmica natural. Ela pode ser uma força útil para a saúde (bem-estar) humana, quando reinserida em seu lugar adequado no psiquismo –  não denotando ameaça ou desordem à própria integridade.

Vontade, pulsão e instinto também se organizam em distintas cascatas de expressão, compondo o modo como sentimos, pensamos e agimos. Os teóricos da alma humana sempre tenderam à busca das respostas mais gerais possíveis. Uma coisa é certa: há uma clara busca por caminhos que conduzam o indivíduo a um estado mais integrado. Ou seja, a uma vida mais plena e feliz, ainda que os sofrimentos, a rigor, sejam inevitáveis. A integração – consciente ou não – é, em si, um caminho para o bem-estar. E a raiva deve ter um bom lugar nesse caminho. Evitar sua desvirtualização é uma aventura pessoal, entre as tantas e tantas forças que nos habitam.




Convite ao Leitor

Convidamos você, leitor, a observar com gentileza os processos e contextos da sua própria raiva. Este olhar pode ser um passo profundo e um gesto para a transformação. E para quem deseja ir além da reflexão e encontrar ferramentas corporais para essa jornada, convidamos a acompanhar o próximo texto de continuidade. Nele, exploraremos dinâmicas e propostas gestuais, práticas baseadas nos saberes do Taichi, do Qigong e da Meditação, que visam contribuir para uma vivência mais consciente, integrada e saudável dessa força fundamental que é a raiva. Até o próximo texto!




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Atenciosamente,

Luciano Vasconcellos
Esp. Filósofo Clínico,
Prof.Taichi, Qigong e meditação...

Aguardo você ao próximo texto, obrigado pela leitura, compartilhe!


Com ações e entregas de reflexões, saberes e ideias sinceras contribuímos para um mundo melhor ético e mais saudável!

quarta-feira, 2 de julho de 2025

"Humano por mais humanidade" - Uma crítica à projeção de um humano superior

     Há uma certa repetição no discurso de várias pessoas de destaque sobre uma suposta evolução do espírito humano, uns dizem que apesar dos avanços tecnológicos, espiritualmente temos muito para caminhar... Há uma certa certeza no patamar de um consenso que parece generalizado, onde seríamos espíritos destinados a uma longa jornada para uma evolução tão sonhada e querida. Mas será mesmo que somos inferiores ou superiores? Será que temos que assumir algum projeto pré-determinado ou desconhecido para alcançarmos nossas projeções acerca de nossos ideais  de bem? Será que não podemos nos equivocar nessa jornada onde apegados a nossas crenças e experiências pessoais tendem internamente serem elegidas como fonte de verdades? Sentimentos de vanguarda de certo modo não geram suas elites e preconceitos? O cuidado é precioso ou não? Seria esta uma atitude apta a todos e parâmetro de liberdade e educação?
    Convém lembrar que adoramos ter alguma justificativa para as questões da vida e para além dela, também queremos ser senhores do bem e do mal a ponto de até inventá-los. E de novo aparece aquele sutiu e eterno conflito das ações e do que se espera da relações entre o indivíduo e a coletividade. Parece que, no  para todos (os sensos em comum na coletividade) sempre entra num desarranjo com o para mim (no senso da individualidade). Insatisfeitos, as máximas começam: fulano precisa ter mais atenção, fulano precisa fazer isso ou aquilo, precisa se converter, não está de acordo... Fórmulas de humanização sob projeção do desejo de um humano superior são vomitadas aos quatro cantos, como se isto fosse exclusividade para alguns ditos mais evoluidos, e nesse processo o próprio senso de solidariedade acaba sendo uma manifestação egoística ou com ar de superioridade. Apesar de parecer contraditório é um possível da condição humana. Sim, essa sim,  pode ser o centro para uma reflexão em torno de nossas insatisfações e projeções.
    Pensar em uma humanidade mais "evoluída" seja entrar num campo contra corrente, onde alguns ideais precisem sofrer algumas inversões.
    O todo da vida talvez deva ser mais que entendido, vivido como dádiva e não sob a tutela de dívidas em relação de passado, presente ou futuro.