No complexo potencial do comportamento humano, que se concretiza em atitudes, significados e sentimentos, destaca-se a trama entre dinâmicas fundamentais: a dor e o sofrimento em contraposição à busca por alívio, e a satisfação que conduz à experiência do contentamento.
Entre as forças que atuam nesse campo, a raiva emerge como uma expressão poderosa. Ela é, em sua origem, uma resposta a algo que ultrapassou o limite do suportável. É uma reação instintiva e natural, a expressão de uma ruptura – a transição de um estado anterior para outro. Pode ser entendida, também, como um mecanismo de defesa que visa proteger um significado interno, uma ordem de valores estabelecida subjetivamente. Portanto, num primeiro momento, a raiva é um modo de proteção.
Nesse sentido, ela deve ser sentida e entendida como importante e até desejada, pois sinaliza, direta ou indiretamente, que algo está fora da ordem ou que uma circunstância conflituosa se instaurou. Ela é a atualização de uma força natural, uma emoção com função vital.
Contudo, quando estabelecida como um padrão predominante de reação, a resposta pela raiva pode tornar-se uma segunda natureza. Cria-se uma vicissitude comportamental padronizada, na qual a raiva se converte em um desequilíbrio interno. Esse desequilíbrio perturba as relações entre o "dentro" (o mundo subjetivo) e o "fora" (o espaço de encontro das subjetividades).
Assim, mesmo sendo inicialmente uma força positiva e protetora, cabe perguntar: quando a raiva ultrapassou a defesa da integridade para se tornar um paradigma de insensibilidade relacional ou inconsequência?
Nesse ponto, a raiva – útil em contextos específicos – transforma-se em uma força de autodestruição. Acumulada, passa a servir ao "ataque pelo ataque". Tudo que incomoda é dramaticamente interpretado como uma ameaça real. Expressa, então, um grau profundo de desequilíbrio interno. Analogamente, será como uma ferida dolorosa na alma (no mundo dos signos e sentidos). A pessoa tende a interpretar tudo que a toca a partir dessa ferida, alimentando uma negatividade que cresce em si mesma, independentemente de uma causa externa imediata ou de desfoques internos.
Quando o comportamento, na vivência das relações, se decompõe e se recompõe incessantemente em forças contra o outro – e a raiva se torna a linguagem predominante a qualquer gatilho físico, emocional ou paradigmático –, é sinal de que ela precisa de reeducação e ressignificação.
Em termos de consciência, a raiva deve ser entendida e acolhida como uma dinâmica natural. Ela pede, e pode ser, uma força útil para a saúde humana quando reinserida em seu lugar adequado no psiquismo.
Vontade, pulsão e instinto também se organizam em distintas cascatas de expressão na composição de como sentimos, pensamos e agimos. Os teóricos da alma humana sempre tenderam à busca das respostas mais gerais possíveis. Uma coisa é certa: há uma clara busca por caminhos que conduzam o indivíduo a um estado mais integrado. Ou seja, a uma vida mais plena e feliz, ainda que os sofrimentos, a rigor, sejam inevitáveis. A integração – consciente ou não – é, em si, um caminho para o bem-estar.
Convite ao Leitor
Convidamos você, leitor, a observar com gentileza os processos e contextos da sua própria raiva. Este olhar é o primeiro e mais profundo gesto de transformação.
E para quem deseja ir além da reflexão e encontrar ferramentas corporais para essa jornada, convidamos a acompanhar um texto de continuidade. Nele, exploraremos dinâmicas e propostas gestuais práticas, baseadas nos saberes do Taichi, do Qigong e da Meditação, que visam contribuir para uma vivência mais consciente, integrada e saudável dessa força fundamental que é a raiva.
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Atenciosamente,
Luciano Vasconcellos
Esp. Filósofo Clínico,
Prof.Taichi, Qigong e meditação...
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