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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Carta de um cristão para cristãos entre tendências e questões deste tempo

Carta de um cristão para cristãos entre tendências e questões deste tempo

​Muitos entre nossos irmãos cristãos acreditam ou agem como se houvesse uma plena harmonia entre o projeto do neocapitalismo selvagem e a ética cristã. É certo que nem este e nem o que foi o comunismo sejam condizentes com a proposta da instauração do Reino de Deus. É fato que, de algum modo, a "teologia da prosperidade" se hegemoniza como estilo de vivência da fé entre segmentos da Igreja Católica e outros segmentos que compõem o corpo místico de Cristo em unidade. Essas tendências ecoam em paixões por ídolos políticos — o que cheira a uma vã esperança e, pior, a uma das formas de idolatria raramente percebida, que desloca o lugar da real esperança e das sóbrias escolhas. Infelizmente, essa tendência não passa de um outro modo de perversão no corpo de nossa fé — não vale a pena acabar com um mal instaurando outro, isso é ilusão e inauguração de modalidades da continuidade do exercício do pecado.

​Em tempos onde o corpo da fé se reduz a egos individuais, deve-se recordar que a fé cristã se constituiu por princípios essenciais que norteiam a possibilidade de um bem comum que, em sua máxima radicalidade, propõe amar os inimigos — o que é loucura para muitos e contínua proposta de conversão. O bem comum de Jesus se compõe em um amplo anúncio de um Reino para todos. O nosso Deus, em sua humanidade mediante a conjuntura de seu tempo, reconheceu que traria discórdia e não a paz – havia ali uma atitude presente que já revelava a coragem (agir com o coração) e o potencial de escolha para enfrentar o caminho da cruz; contudo, de sua boca e de sua vida nos Evangelhos, temos as afirmações: "fazei o bem e não olhai a quem", "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Ele fazia distinções com um claro discernimento que claramente, nesta era de desinformação, tanto falta para muitos que se satisfazem nas confirmações de suas bolhas identitárias. Pelo amor de Deus, cristãos, voltai-vos para o que vos é próprio!

​Parece que esquecemos que a missão, mais do que julgar ou condenar, é promover a conversão. Isso é uma atitude propositiva e necessária que compõe o corpo dessa fé desde seus inícios! Agora, muitos continuam reféns da exaltação da sensação de medo do porvir. A via da cruz parece estar fora do foco, a esperança é fraca, e o caráter dos seus argumentos, justificativas e escolhas baseia-se no espírito perverso desse exaltado medo e da ameaça da quebra dos costumes... Ao invés disso, é melhor recordar e se devotar à lucidez de sua real salvação, o Cristo Jesus, e sim, em nome Dele, ousar sempre por mais esclarecimento e testemunho a partir da própria vida, com liberdade e independência das tendências deste mundo. Contudo, é preciso manter-se ciente das nossas limitações humanas: se nos iludirmos, querendo ou não, geraremos pecado e alimentaremos mais dor em nós e nos outros. Num mundo de informações e desinformações a um clique, todos podem sentir-se ilusoriamente oniscientes e portadores de um saber em grau de qualidade igualitária — o que não passa de ilusão e arrogância, fruto da insegurança de assumir suas fragilidades diante de um mundo com novos desafios. É próprio da sobriedade reconhecer que nosso saber é naturalmente insuficiente, distinto e íntegro ao ser de cada um. Essa limitação é causa para o a mais ou para o a menos na existência, mas na fé da via da luz que vem de Cristo, temos o a mais e podemos nos inspirar para a comunhão dos santos; podemos ser instrumentos Dele.

​Vivemos um tempo de um proselitismo político mesclado por excessos de costumes, alguns de ordens essenciais ao corpo da fé e outros que podem mudar, mas que por confusão são sentidos como naturais ao corpo da fé, moldando padrões vivenciais. Os envolvidos por estas tendências não se dão conta da semelhança de seus erros: suas atitudes e certezas são similarmente as mesmas daqueles que se inclinaram a crer que o comunismo era uma via de harmonia com o cristianismo; acreditavam de coração estar na escolha certa, julgavam-se fiéis a Cristo. É preciso acordar e retomar o tempo da conversão interna para ser sal no mundo. Infelizmente, há muitas facetas no cristianismo que, sem se dar conta de sua arrogância, testemunham ter-se tornado amargor e força de controle. Esta imagem vendida é uma triste decadência e, de algum modo, um afastamento de Jesus. Para livrar-se deste estigma que se impõe sobre si mesmos, nós, cristãos, devemos retomar nossa unidade comum em Jesus. Deve ser claro que "essa ou aquela ideologia", por mais distintas que sejam entre seus altos e baixos, limites e possibilidades, não são a nossa salvação — no máximo, devem ser meios passageiros para uma humanidade que sabe que pode amadurecer e não é um projeto fechado: há espaço para a conversão. Parte do papel no processo da contínua conversão que cabe a todo cristão é o cumprimento de sua missão: orar pelos governantes, anunciar a retidão e manter-se desapegado da paixão por candidatos como se estes não fossem humanos finitos. Escolher como cristão exige simultaneamente clareza e ternura, lucidez sobre o bem possível para que as cobranças sejam também justas, e não condenações delirantes por se identificar com esta ou aquela tendência política — ou seja, meios de concretizar projetos sob certa ótica ideal. Livres do mal, sim, ore para que esteja escolhendo certo em tempos de eleições — isso é agir com sobriedade cristã, e a medida exemplar de todos é a ótica de Jesus. Não dá para continuar fechando os olhos e afastados da unidade no Espírito de Jesus. É preciso coragem: não basta tentar fazer o bem depositando todas as esperanças no que é de natureza instável... Consegue entender? Sob o domínio da paixão pelas causas terrenas ou intolerâncias, de algum modo nega-se, por essa paixão, a fidelidade ao Evangelho por um mundo melhor. Se estivermos cegos em nossas tendências, não haverá metafísica que possa nos salvar. Por mais que creiamos estar fazendo o bem, na prática podemos, sim, estar fomentando o mal — lembremos que a palavra diabo significa divisão. Precisamos nos afastar deste mal presente entre muitos de nós. Devemos nos acolher na clareza e no amor do Cristo Jesus.

​Sob o desafio de um mundo cada vez mais diversificado, a ferramenta do cristão continua sendo orar por aqueles que governam, pois o Espírito Santo pode agir "quando e onde quiser". Devemos superar as ambições de nossas certezas sem nos perder da construção de um Reino amoroso e justo; a todos cabe responsabilidade e liberdade, abertos à graça e ao testemunho de vida. Convém ao cristão lembrar disso e fazer a parte que lhe cabe: acima de tudo, anunciar, denunciar e iluminar a partir do Amor de Cristo, que a tudo pode converter à justiça do Pai. As coisas deste mundo são passageiras, mas a realidade eterna não deve ser excluída do horizonte cristão; a realidade não para aqui neste tempo... O sonho de lá se encarna aqui no Cristo que vive em nós.

​Muitos entre nós, cristãos, estamos tradicionalmente presos a uma moral da repetição — isto ainda não é estar convertido. Lembremos: o Evangelho é vivo e deve estar vivo nos processos de cada um de nós. Essa foi a estagnação rompida com o farisaísmo: é o ir para além da lei, mas não uma oposição à finalidade da lei, que era estar na via de Deus. Os cristãos do início apenas dinamizaram um pouco mais a via; podemos retomar isso hoje na presença da ação do Espírito Santo.

​Sejamos humildes no espírito e firmes na fé; esta deve confortar nossos corações durante as mazelas deste mundo amado por Deus, mesmo com tantas desinformações e sequelas alienadoras. Tolos são todos os que fomentam inverdades, não notando que alicerçam armadilhas para si mesmos... Lembremos que, se o sentimento de fidelidade a Cristo se alicerçar em certezas sem um bom discernimento, nos encontraremos mais do que induzidos ao erro: não passaremos de cegos arrogantes e inconsequentes. Por mais autênticas e puras que sejam nossas intenções morais, elas não nos conduzirão à natureza da ética de Jesus.

​Enfim, para nossos corações estarem em paz com nossa identidade cristã e para melhor viver no mundo de hoje enquanto se constrói o melhor, devemos necessariamente voltar à raiz da atitude de Cristo, sendo condizentes com o Espírito Santo, que sopra onde e quando quer. Acima de tudo, romper com as reclamações que não passam de crendices sem fundamento, e assumir a responsabilidade de medir e construir as realidades a partir do Amor. E isso começa no coração de cada um de nós — o primeiro lugar a se fazer jardim para um mundo melhor. Anunciai aquilo que, de algum modo, já é o Cristo que vive em você! Seja comunhão! Ele veio para este mundo, não desistiu deste mundo, não o condenou, ofertou vias para a conversão e salvação!

​Mãos à obra, pois pouco ou nada ainda fizemos – como diria o corajoso e amoroso Francisco de Assis.

Autor: Luciano Vasconcellos — pensarconsiderando.blogspot.com