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quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Andar para mais que andar

 

Andar não é só caminhar, andar é iniciativa, é concreção, andar é dar direção, andar é o fazer do agora o 100 por cento de cada passo, andar é o reunir as forças do antes e se lançar ao futuro, um passo de cada vez. Assim, a existência é integral, rima passado, presente e futuro, arte de ser sendo onde participativanente o destino se faz.

Andar é gesto onde a cada passo, o milagre do equilibrio acontece.

Andar é uma espiritualidade silenciosa do corpo em ação, signo do devir. Devir pelo corpo, devir pelos sentidos, é a alma que se expressa estando em direção. É via para as conquistas e satisfação  em construção na eminência de cada passo, o melhor modo de ser e estar feliz.

Andar é mais que a meta! A meta é um para onde, uma dualidade entre ser o motivo ou a tênue linha para frustração, afinal deseja-se realização. Andar é sempre uma concreção. Por isso, convém focar no poder do fazer, o agir de agora, fonte mantenedora da alegria do ser sendo.

Siga, aja, vai, anda, viva os 100% (cem por cento) de cada passo.  Isto é atitude de bem viver, é estar sóbrio(a) no acontecer, força que funda o futuro a partir do agora enquanto canaliza os impulsos do passado, afinal somos seres estruturantes.

No agora, sóbrio andar é dançar com a vida, é estar em par a tudo que lhe toca. Andar é administrar-se enquanto afeta-se e é afetado. Andar é ação, metáfora para o onde vai e para onde pretende-se chegar, um depois que torne um agora, andar é deslocar o tempo, transmutar  para parar um pouco. Andar é lidar com as resultantes e continuar, isto é alegria do ser sendo, é o surfar com o movimento.

Predominantemente, andar é a positividade de multiplas direções, espaço para os sentidos,  inclusive o recuar seja para proteger, esperar ou mais como adaptar, depois vem de novo aquele  impulso de continuar indo. Andar é movimento. E movimento é um campo de criação, expressão, e composição do viver. É bom que o andar seja compor-se em beleza. Pode-se involuir, permanecer ou evoluir, multiplicidade dos estados de ser.

Siga, mova-se por dentro e por fora, continue expressando em fatos aquilo que ultrapassou a fase potencial. Viva a realização, continue construindo sobre os momentos, ouse plasmar  a realidade, ouse conquistar a cada passo, desperter-se, assuma-se, liberdade de ser sendo, harmonize as responsabilidades, autoridades só fazem os sentidos de um mundo melhor.

Andar é uma metáfora do empenho, andar é mais do espera-se dos resultados e projetos, andar é ação, condição do tornar-se em realização, sentido que importa e prova aquilo que se é capaz. Continue andando, conquistando, aprendendo o.progresso de si mesma(o), alma que faz a cada passo. Sinta o despertar sorriso interior a cada momento. Viva viver!

terça-feira, 25 de outubro de 2022

A indução das mentes nos dias atuais, qualquer pode ser uma vítima!



Se permiteres ser uma vítima da astúcia alheia, não percebes que és tua alma que se embreaga de tolice e negação de uma verdadeira liberdade de espírito. Aquele que ousa te manipular no pensar, desrespeita o  teu ser te convencendo, disvirtua-te da clarez. Esses algozes, mais que acreditar que sejas um tolo sujeito as manipulações dos seus jogos de sentidos, no ato de tua adesão eles provam seu estado de pessoa ludibriada e possivelmente orguilhosa do de se estar no erro da ilusão.

Atualmente, exercer uma livre e séria reflexão pode ser perigoso? Mais perigoso ainda é não perceber como somos levados a pensar.
Este texto examina a arma invisível que molda o debate público: a metáfora. Como ela persuade, divide e aprisiona — e como podemos resistir à manipulação na política e na vida.
Uma reflexão urgente sobre o Brasil, a linguagem e a liberdade que ainda podemos conquistar.

Figuras de linguagem conferem a textos ou narrativas uma amplitude de sentidos. São meios que fomentam plurissignificação, aguçando a imaginação e, por vezes, induzindo a conclusões que se solidificam como evidências pessoais.
Partindo dessa consideração, uma metáfora — conforme a intenção de seu locutor — pode se converter em estratégia para induzir ideias, influenciar mentalidades ou convencer indivíduos e coletividades. Nesse caso, transforma-se em ferramenta para a conquista de certos fins. Parece que entramos na era da exploração do território da mente.
Usada com tal objetivo, uma metáfora assemelha-se àquelas armadilhas para passarinhos: uma vez dentro e envolvidos, torna-se difícil escapar.

Em termos práticos, essas armadilhas linguísticas ao entendimento promovem processos excludentes à clareza e à interação entre compreensões propositivas, dificultando novos aprendizados ou atitudes para um desenvolvimento contínuo da compreensão.
Esse tipo de artimanha comunicativa é especialmente presente na retórica política, constituindo visões de mundo e projetos específicos. Quando os espíritos a eles aderem, tornam-se enrijecidos em suas convicções, crenças e condicionamentos comportamentais. Sem perceber, ficam sujeitos à exclusão de suas potencialidades e ao digno clamor da alma humana por liberdade amadurecida e responsável — quanto ao entendimento, interpretação e compreensão das realidades e das fantasias. A capacidade de distinguir debilita-se, e o terreno para a constituição de entendimentos equívocos torna-se fértil.

Assim, nosso tempo, na facilidade da comunicação digital, paradoxalmente também segue produzindo prisioneiros de bolhas, guetos de signos identitários, onde os adeptos retroalimentam suas perspectivas — sentidas como legítimas pelo reconhecimento entre seus pares de causas, projetos e visões de mundo. Consequentemente, no placebo de suas satisfações internas, elegem o que pensam como se fossem dogmas ou a vanguarda da verdade.
Esse fenômeno se multiplica e participa da composição de visões tanto na esfera pessoal quanto coletiva.

Eis o perigo presente em nossa sociedade brasileira: paradoxalmente, resulta de estruturas que constituem avanços tecnológicos que facilitam o acesso à informação e dão voz a todos para se comunicarem e se expressarem livremente — o que não é sinônimo de ética ou maturidade.
Chegamos a essa dualidade no século XXI: uma realidade instaurada. A era tecnocrata está preenchida de intenções sobrepostas e técnicas manipuladoras de nossa natureza humana. A sociedade elege teorias da conspiração como verdades pré-fabricadas. A serviço de quem? Para quê? O que experimentamos de nosso caminho humanitário e no que estamos nos tornando?

Este contexto funda novos cenários, seguidos de muitos medos. Identitarismos e conservadorismos emergem como se fossem uma saída para o estado de confusão. As classes profissionais seguem competindo entre si, defendendo-se em corpos legais e exercícios de poder. Vivemos num mundo tão complexo e novo que, apesar de ser fruto de tudo que acumulamos — e também do que esquecemos ou negligenciamos — demos um salto em conhecimento: do século XX até agora, é incontavelmente superior à soma de todas as eras anteriores de nossa história. Dados estão presentes e mais acessíveis do que nunca: basta acessar o Google ou outros meios.

Hoje, com todo o arsenal de luzes para o presente, continuamos similarmente repetindo erros e inconsequências. Os saberes de antes permanecem, mas sem uma lúcida adequação correm o risco de não passar de formulações supostamente resolutivas, tolas esperanças para os desafios presentes.
Esse é o perigo do conservadorismo e sua tendência ao anacronismo — ainda que nele também haja clamores autênticos, pois seus adeptos igualmente são filhos deste tempo, em busca de soluções e de um mundo mais harmônico.

Apesar de toda tradição e experimentação de novos paradigmas, parece que não evoluímos para estar onde estamos. Continuamos produzindo e alimentando sofrimentos pela inadaptabilidade à inclusão e ao amadurecimento junto das diferenças. Ainda que iludidos como defensores de um bem, seguimos sendo causa de desintegração.
Fazem-se presentes iniciativas que levantam bandeiras que deformam tudo que lhes é diferente, preconcebendo o outro como ameaça a seu mundo, sobrepondo modelos totalitários regidos por projetos de universalidade excludente.

A título de exemplo, no Brasil basta abrir o YouTube ou outra rede social para constatar a presença de militantes de uma guerra cultural — que, ao que parece, foi idealizada em ambiente classificado como esquerdista, mas que, de fato, em projetos e práticas atuais, está sendo executada por agentes de uma direita. Um fato irônico e incoerentemente paradoxal.
Um sintoma grave desse tipo de movimento é a mesquinhez intelectual, deturpando e coletivizando a manipulação de dados históricos interpretados sob as trevas das teorias da conspiração. Ali, com todos os recursos lógicos e cinematográficos, é quase impossível não acreditar na veracidade do que se assiste.

Esse também é um dos desafios sobre a conjuntura das mentalidades: é difícil, sem preparo ou formação sobre as possibilidades do mundo atual, ter um discernimento hábil.
Estamos na era dos tecnocratas de tudo — inclusive das almas. Há um processo de morte da verdade: a narrativa mais convincente torna-se “verdade”. Para isso, basta lógica e bom discurso. Fatos viram piada, e voltamos a nos satisfazer apenas com uma verdade lógica — nada mais medieval que isso!
Se para os medievais tal pensamento era justificável por seu contexto, pensar somente assim hoje é negar nossa evolução no campo do conhecimento — no caso da cultura ocidental, de matriz judaica, grega e cristã, é negar as revelações que o mundo antigo, medieval e moderno ainda não tinham desvelado.
Não dá para avançarmos sem aprender a distinguir e integrar. Fora disso, é retroagir — abraçar a perda de potencial de aprendizado e, consequentemente, negar descobertas, nossa natureza criativa, os erros do passado e a possibilidade de um futuro mais harmônico, zeloso e amoroso.

Toda essa dificuldade vem sendo alimentada por adesões coletivizadas e, muitas vezes, pela multiplicação de metáforas e fake news. Mas vamos nos ater aqui ao poder das metáforas.

O poder ambíguo da metáfora
Metáforas são excelentes ferramentas de convencimento ou abertura a novas considerações. Até aí, tudo bem. Mas elas têm poder significativo tanto para esclarecer quanto para ludibriar; tanto para a veracidade quanto para fazer a ilusão e a mentira serem sentidas como verdade.
Há artimanhas tão astutas que até mesmo um espírito crítico, sem mínimo empenho, raramente escapa — seja para verificar, seja para superar.
Se olhamos a história das humanidades, a metáfora — assim como outras figuras de linguagem — foi e é utilizada por quase todos os sábios. Mas em todas as épocas há os “sabichões perversos” que, ainda que convictos de suas próprias visões de mundo, também a utilizam e com ela angariam adeptos. Esse tipo de ocorrência parece ser um processo comum às sociedades humanas.

Metáforas são pequenas narrativas pedagógicas: orientam sentidos, ajudam a entender, compor, reforçar e até criar visões de mundo, enraizar opiniões e valores. Mas, infelizmente, podem também reforçar a confusão e a alienação — como prova o Brasil imerso em extrema polarização.
Quando o sentido de uma metáfora internamente torna-se um valor — assertivo ou equívoco —, converte-se também em referencial na formatação de nossos juízos, pois inclina ativamente as interpretações a uma unidade valorativa e afetiva. Assim, tudo que nos toca os sentidos passa por essa lente.

Aos amantes da liberdade, da ética e do caminho para a verdade, é necessário compreender as estruturas de si mesmo, conhecer os jogos de linguagem e os efeitos das próprias afeições. Só assim estarão aptos ao conhecimento e à ação do próprio grau de liberdade interna, podendo romper bolhas e ciclos de repetição que nos aprisionam.
É preciso ter clareza de que compreendemos e interpretamos tudo a partir de um lugar e de uma estrutura processual que diz quem cada um de nós é no presente — ora tendendo à tolice, ora ao caminho dos sábios; ora às trevas, ora à luz; ora à aceitação do senso comum, ora à autonomia em direção a vanguardas.
Nessa rota, determina-se o que é falso ou verdadeiro, o que será do bem ou do mal, elege-se ou expurga-se quem ou o que é do bem ou do mal. Distinguir sem o devido amadurecimento — salvo por graça ou dádiva — só pode culminar em equívocos, erro, soberba e teimosia. Aí pode haver confusão entre identidade e convicções. Há entre nós quem não se dê conta de que ser e saber são coisas distintas.

Somos seres comunicativos que enrijecem ou manufaturam visões de mundo. Nessa natureza criativa, que eticamente exige responsabilidade na moldagem do mundo, cada opinião que externalizamos é um fragmento que revela parte de nossa composição mental e de como estamos sendo — mais para a integridade ou para a destruição. Por mais convictos que estejamos de estar no caminho do bem, o erro pode estar presente.
Nessa visão, há uma exigência que clama por sobriedade e humildade: somos apenas humanos. Nosso valor maior, depois do amor, está na afeição — pois tudo nos afeta.

O mecanismo interno da metáfora
Enfim, metáforas têm o poder de gerar associações que induzem direções aos sentidos que constituem a mente. Consequentemente, as metáforas — constituídas de suas lógicas e sentidos — trazem a sensação de evidência, de contato com as verdades.
É exatamente por isso que tendemos a entender e sentir, no primeiro instante, que aquilo que ao menos se aproxima do que já cremos ser verdadeiro seja de fato verossímil. Mas isso é inocência por privação do espírito crítico: não pensamos ou consideramos o que desconhecemos.

Observe a gravidade ética do mundo atual — tempo da pós-verdade —, onde verdades são produções com fins técnicos de convencer e produzir comportamentos, fazendo às vezes da verdade sem o serem de fato.
Complexo isso. Exigir essa percepção como saída — libertação dos espíritos — depende da própria compreensão de quem somos: humanos, seres culturais, históricos, limitados e maravilhosamente em construção.

O sentido de uma metáfora instaurada na mente é resultado de um entendimento lógico tornado valor interno. Sem a possibilidade de tutela crítica, deixa a mente à mercê de um funcionamento espontâneo que preenche lacunas com imaginação, por razões neuromecânicas, sem distinguir entre o hipotético, o indício, o provável e a descrição do real.
Portanto, na primeira fase do entendimento frente a metáforas — seja para o bem ou para o mal —, ao associarmos acontecimentos, temos um misto de imaginação, lógicas e indícios que se traduzem como fatos em si. É nesse quadro que nos alienamos da possibilidade da luz das verdades. A verdade, nesse quadro, reduz-se à limitação do movimento habitual da mente, e condicionadamente elegemos o que é falso ou verdadeiro.
Nesse caso, a verdade torna-se aquilo que queremos que seja verdade. A crítica deixa de ser útil e torna-se incômoda para a mente, que, por economia de energia, tende a permanecer no mesmo modelo de funcionamento.
Eis um dos desafios: tudo o que consideramos real é eleito como verdade. Por natureza, a mente — limitada em sua conjuntura de significações — acaba ora afirmando, ora negando, em nome de sua comodidade interna, quase nunca consciente em primeiro instante.

Por fim, um alerta
É importante sermos capazes de distinguir entre narrativas descritivas — aquelas que apenas descrevem o observado — e aquelas que criam situações, dão voltas, distraem e engolem no convencimento. Aí, o mundo de uma lógica fantasiosa toma o lugar dos fatos.

Diante de tudo isso, encerro não com uma conclusão, mas com um convite à vigilância afetiva e intelectual.
A metáfora não é um inimigo a ser eliminado — é uma força da linguagem que reflete nossa própria ambiguidade humana: criadores e criaturas dos sentidos que nos movem. O que está em jogo, portanto, não é abolir as figuras, mas educar o olhar que as recebe.

Nossa saída possível não está na ingenuidade de acreditar que escaparemos totalmente das armadilhas, nem no cinismo de achar que tudo é manipulação. Está na humildade de quem sabe que pode estar errado — e na coragem de revisar, a cada nova evidência, os mapas mentais que traçamos.

Se a política hoje se tornou um campo de batalha de narrativas, nossa tarefa civilizatória é recusar a redução do outro a um inimigo a ser convencido ou cancelado. É lembrar que por trás de cada metáfora ardilosa há uma mente humana — tão frágil, tão sedenta de sentido quanto a nossa.

Que estejamos atentos, pois, não só às metáforas que nos chegam, mas às que produzimos. Que possamos ser artesãos de uma linguagem que não aprisione, mas que abra — que não enrijeça certezas, mas que alimente diálogos.
No fim, talvez a única metáfora realmente libertadora seja aquela que nos lembra: somos todos, sempre, aprendizes da realidade. E é nessa condição compartilhada que podemos, com sorte e esforço, tecer um entendimento comum — menos intoxicado, mais generoso, e à altura da complexidade que nos habita.

A arma contra a armadilha não é o silêncio, mas a reflexão consciente.
Contra a alienação, o diálogo paciente, claro e ponderado.
Contra a pseudos-verdades, a busca contínua.
Vamos adiante.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Por outro poema

 A força do poema

Toca a existência

Explícita o limite

Ousa para o alcançe


Cada qual na sua

Em comum o ser

Em mares do agora

Sentidos para o infinito


Incertezas e pretenções

Gaiolas e vôos

Recolhimento e expansão

Tramas da liberdade


Apenas se é

Mente aqui e ali

Desloca-se em sentidos

Enquanto ser movimento


Resposta em poemas

Tantas "Pluri-lógicas" 

Poucos se tocam

A vida flui tempo


Palavras jogam

Brincam signos

Coração sente

Espaços preenchem


Dança o eu ser instante

O outro a condição afeto

Da relação à concepção

Geografias do(s)  si(s) no mundo


Para onde vais?

Até onde alcança?

Onde está agora?

Em saltos realização!?!?


(L.V. 108, 18/11/21 @pensarconsiderando)

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Ep.0 - O Pensar considerando - Apresentação


                             Se preferir escute o podcast aqui:
                             


  1. Olá, eu sou Luciano Vasconcellos, estudei filosofia e teologia, vivenciei de perto a espiritualidade franciscana entre os frades menores conventuais. Nesse período, tive a alegria de experimentar o espírito do conhecimento como uma dimensão devocional. Tudo se encaixava como uma luva com meus anseios dos tempos de criança e as lembranças de olhar para estrelas... eram tantos pontos de luz..., Com a vida franciscana, veio a oportunidade de ouvir e compartilhar experiências de luzes e sombras de tantas e tantas pessoas. Concretamente, a alma humana ia se apresentando a mim com sua pluralidade de sentidos, cada experiência era um conjunto de relações explicitando dores e alegrias, mundos se descortinando. Os problemas, os estados, as circunstâncias, as mentalidades e as alternativas destas pessoas ou meus se tornavam vias de possibilidades do devir.

  1. Entre eles, também pude experimentar um peculiar ambiente de debates, foram muitas querelas que desafiaram e amadureceram convicções enquanto afiavam as lâminas do pensamento. Era um ambiente formativo para a vida, que evocava a outras percepções, tudo era estimulante ao desenvolvimento e plasticidades da mente. A singularidade daquele estilo de vida era internamente plural, com pessoas de diversas culturas sob a aspiração poética inerente àquela espiritualidade. Afinal, pude observar, que as querelas sempre fizeram parte da vida franciscana compondo um sentido sustentado por uma base amorosa, onde se crê que tudo é uma oferta da graça.  Nesse sentido era presente uma adesão a um tipo de rigor intelectual vivido, em tudo estava escrito os sinais do Divino...

  1. A Intelectualidade devocional franciscana foi um segundo portal de aprofundamentos  em perfeita concomitância com a academia. O diferencial era que na vida conventual, tudo acontecia de modo natural, fazia parte do dia a dia, da cozinha, da mesa do jantar... Graças a velha disputatio, como faziam os mestres medievais do século XIII, as questões de hoje eram enfrentadas com o mesmo espírito. Eu adorava vivenciar as argumentações e ouvir os ensaios que saíam dos corações.

  1.  Havia momentos em que, alguns ânimos se alteravam nos tropeços das paixões, das certezas assumidas sem muitos mais, era a hora de pegar a si mesmo, permitir-se confrontar e, direcionar-se  a uma imparcialidade para superar a vaidade da certeza, ou se fechar. Mas aquela circunstâncias, em si  faziam com que a porta ficasse aberta, até mesmo para os espíritos dados a teimosia, o quais sofriam pouco ou muito.. Porém dali, inevitavelmente, contemplava -se vestígios de outros horizontes, isso não tinha preço pra quem tinha sede de conhecer.  As divergências, ainda que fossem incômodas, aguçavam uma unidade no caminho de um processo de amadurecimento, e volta e meia as questões em aberto eram retomadas. Era um ambiente  de um grande exercício do pensar. Divergências, acertos, ponderações eram reais motivações para conhecer mais e mais. Eu via isso com bons olhos, o que trouxe-me libertações. E o mais legal! Entre bate papos e bate papos, havia uma sede de fundamentações que posso afirmar que até mais rigorosos do que a academia, pois os sentidos da vida estavam em jogo. Isto por si só traz uma mensagem ao mundo..

  1.  Sem dúvida, os conteúdos e a vida na academia promovem o desenvolvimento de um pensar amadurecido, mas decididamente, não lhe é uma exclusividade. O  cotidiano daquela vida franciscana testemunhava outra realidade, vivia-se na pele o estímulo ao desenvolvimento intelectual e a consciência dos sentidos da vida, não bastava a memorização de conteúdos e bons resultados nas atividades acadêmicas ou uma excelente erudição do legado, era preciso saber articular… Muitos ali aprenderam a pensar sobre o legado e a relação com dados atuais, estávamos mentalmente vivos, extrapolávamos “programações”....

  1. Esta vivência na prática trouxe-me a compreensão de que o desenvolvimento formativo, a transmissão e a produção do conhecimento, incluindo todos os níveis, não deve ser uma exclusividade da acadêmia,  mas, sim, algo que lhe é constitutivo como guarda, proliferação e produção de saberes.  A primazia é do pensar presente em cada indivíduo, ele funda e transpassa a academia, como qualquer outro setor da sociedade, a maturidade do pensar não pertence a ela como pode parecer. A formação humana é um processo contínuo intersectando tudo que se concebe e produz, tanto material quanto cultural. O pensar é presente no dia a dia do Homo sapiens sapiens, o Pensar Considerando nasce desta consciência “con-sentida”, e  expressa uma experiência pessoal que desejo compartilhar com denominação.

  1. Olhando ainda mais para trás,  tudo começa com as dádivas dos estímulos, primeiro  na infância. Os livros da estante de casa, brincaram muito comigo, foram muitos informes das coletâneas como “Tesouro da Juventude”, Barsa e Life, quantas e quantas horas trago na memória, eu e aqueles livros sendo revirados a cada curiosidade, algumas vezes causadas pelas conversas dos adultos, a cada descoberta que eu admirava... Hoje, sem esquecer dos livros, continuo abrindo o Google, basta uma dúvida, e o mundo virtual está aí a nos servir.. 

  1. Dando um pulo, na fase adulta, nas experiências da vida vieram o curso de filosofia, o de teologia,  e a querida filosofia clínica, que considero uma vanguarda que dirrime preconceitos, vindo adornar a motivação do exercício do livre pensar que denomino como pensar considerando. Pois trata-se de um querer conhecer a partir das relações, um acontecer com ciência  e percepção acolhedora dos sentidos, seja dos corpos quanto das almas e seus anseios, para que na finitude humana possa servir-se na mesa dos signos, significados e ressignificados, do permanente ao  criativo… Vai por aí! Portanto pensar considerando serve-se da academia, das  culturas, do cotidiano, dos acontecimentos, das idéias, dos sentimentos, dos encontros e das interseções.  É um modo de articular e transitar entre o que está expresso e a independência de acolher, manter, aprimorar e até superar os sentidos, sob o foco de uma sobriedade entre o que se conserva e o que progride. Entre erros e acertos do caminho que a meta seja sempre por uma ética de um livre pensar sem enclausuramentos de preconceitos, mas acolhedora das diversas modalidades de ser e suas expressões desde que respeitem as outras existências e manifestações como garantia de si e das outras. Nesse sentido, pensar considerando é uma abertura ao cocriativo que não cessa, é um por-se  na dimensão de um pensar inclusivo, que distingue mas não exclui… Faz escolhas sem destruir. Em pensar considerando uma identidade só existe por razão da diferença, entendendo a diversidade como a possibilidade do essencial, não acolhê-la é negar  o que viabiliza o reconhecimento e a expressão da própria identidade…  Algo para reflexão atual, uma vez que o identitarismo excludente, é uma das causas de sofrimentos numa conjuntura coletiva atual... Inconsequentemente,  reduzem a realidade e as idéias em suas visões de mundo etnocêntricas, assim desrespeitam a complexidade e conhecimentos que ultrapassam seus muros. 

  1. Pensar Considerando também é um modo de refletir acolhedor das artes, da ciências, das religiões e de tantas, e tantas outras expressões singulares da beleza humana, entre cores,  sombras e luzes, dores e alegrias, todas elas estão permeadas de busca e criação de sentidos. A rigor, não é possível, pensar considerando sem apreender os sentidos do que se quer pensar, sem isso não há consideração, não se vê estrelas brilhando, e sem as luzes, nada há do que trevas.  Pensar Considerando, é uma atitude ética do pensamento que não se fecha em si mesmo, admite sistemas, mas apenas como fragmentos da totalidade, sempre parcialmente apreendida. 

  1. Convido você a participar desta perspectiva. venha trilhar comigo, acompanhe este podcast, Contribua com seu olhar, e se possível seja um apoiador desta iniciativa. O desejo é multiplicar horizontes para um mundo responsável e acolhedor! Iremos compartilhar e receber! Vem aí uma série de questões, reflexões, leituras, entrevistas, espiritualidade, ciência e arte. E contamos com sua participação.

  1. Fiquemos mentalmente Vivos!

  1. Seja muito Bem vindo!