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terça-feira, 25 de outubro de 2022

A indução das mentes nos dias atuais, qualquer pode ser uma vítima!



Se permiteres ser uma vítima da astúcia alheia, não percebes que és tua alma que se embreaga de tolice e negação de uma verdadeira liberdade de espírito. Aquele que ousa te manipular no pensar, desrespeita o  teu ser te convencendo, disvirtua-te da clarez. Esses algozes, mais que acreditar que sejas um tolo sujeito as manipulações dos seus jogos de sentidos, no ato de tua adesão eles provam seu estado de pessoa ludibriada e possivelmente orguilhosa do de se estar no erro da ilusão.

Atualmente, exercer uma livre e séria reflexão pode ser perigoso? Mais perigoso ainda é não perceber como somos levados a pensar.
Este texto examina a arma invisível que molda o debate público: a metáfora. Como ela persuade, divide e aprisiona — e como podemos resistir à manipulação na política e na vida.
Uma reflexão urgente sobre o Brasil, a linguagem e a liberdade que ainda podemos conquistar.

Figuras de linguagem conferem a textos ou narrativas uma amplitude de sentidos. São meios que fomentam plurissignificação, aguçando a imaginação e, por vezes, induzindo a conclusões que se solidificam como evidências pessoais.
Partindo dessa consideração, uma metáfora — conforme a intenção de seu locutor — pode se converter em estratégia para induzir ideias, influenciar mentalidades ou convencer indivíduos e coletividades. Nesse caso, transforma-se em ferramenta para a conquista de certos fins. Parece que entramos na era da exploração do território da mente.
Usada com tal objetivo, uma metáfora assemelha-se àquelas armadilhas para passarinhos: uma vez dentro e envolvidos, torna-se difícil escapar.

Em termos práticos, essas armadilhas linguísticas ao entendimento promovem processos excludentes à clareza e à interação entre compreensões propositivas, dificultando novos aprendizados ou atitudes para um desenvolvimento contínuo da compreensão.
Esse tipo de artimanha comunicativa é especialmente presente na retórica política, constituindo visões de mundo e projetos específicos. Quando os espíritos a eles aderem, tornam-se enrijecidos em suas convicções, crenças e condicionamentos comportamentais. Sem perceber, ficam sujeitos à exclusão de suas potencialidades e ao digno clamor da alma humana por liberdade amadurecida e responsável — quanto ao entendimento, interpretação e compreensão das realidades e das fantasias. A capacidade de distinguir debilita-se, e o terreno para a constituição de entendimentos equívocos torna-se fértil.

Assim, nosso tempo, na facilidade da comunicação digital, paradoxalmente também segue produzindo prisioneiros de bolhas, guetos de signos identitários, onde os adeptos retroalimentam suas perspectivas — sentidas como legítimas pelo reconhecimento entre seus pares de causas, projetos e visões de mundo. Consequentemente, no placebo de suas satisfações internas, elegem o que pensam como se fossem dogmas ou a vanguarda da verdade.
Esse fenômeno se multiplica e participa da composição de visões tanto na esfera pessoal quanto coletiva.

Eis o perigo presente em nossa sociedade brasileira: paradoxalmente, resulta de estruturas que constituem avanços tecnológicos que facilitam o acesso à informação e dão voz a todos para se comunicarem e se expressarem livremente — o que não é sinônimo de ética ou maturidade.
Chegamos a essa dualidade no século XXI: uma realidade instaurada. A era tecnocrata está preenchida de intenções sobrepostas e técnicas manipuladoras de nossa natureza humana. A sociedade elege teorias da conspiração como verdades pré-fabricadas. A serviço de quem? Para quê? O que experimentamos de nosso caminho humanitário e no que estamos nos tornando?

Este contexto funda novos cenários, seguidos de muitos medos. Identitarismos e conservadorismos emergem como se fossem uma saída para o estado de confusão. As classes profissionais seguem competindo entre si, defendendo-se em corpos legais e exercícios de poder. Vivemos num mundo tão complexo e novo que, apesar de ser fruto de tudo que acumulamos — e também do que esquecemos ou negligenciamos — demos um salto em conhecimento: do século XX até agora, é incontavelmente superior à soma de todas as eras anteriores de nossa história. Dados estão presentes e mais acessíveis do que nunca: basta acessar o Google ou outros meios.

Hoje, com todo o arsenal de luzes para o presente, continuamos similarmente repetindo erros e inconsequências. Os saberes de antes permanecem, mas sem uma lúcida adequação correm o risco de não passar de formulações supostamente resolutivas, tolas esperanças para os desafios presentes.
Esse é o perigo do conservadorismo e sua tendência ao anacronismo — ainda que nele também haja clamores autênticos, pois seus adeptos igualmente são filhos deste tempo, em busca de soluções e de um mundo mais harmônico.

Apesar de toda tradição e experimentação de novos paradigmas, parece que não evoluímos para estar onde estamos. Continuamos produzindo e alimentando sofrimentos pela inadaptabilidade à inclusão e ao amadurecimento junto das diferenças. Ainda que iludidos como defensores de um bem, seguimos sendo causa de desintegração.
Fazem-se presentes iniciativas que levantam bandeiras que deformam tudo que lhes é diferente, preconcebendo o outro como ameaça a seu mundo, sobrepondo modelos totalitários regidos por projetos de universalidade excludente.

A título de exemplo, no Brasil basta abrir o YouTube ou outra rede social para constatar a presença de militantes de uma guerra cultural — que, ao que parece, foi idealizada em ambiente classificado como esquerdista, mas que, de fato, em projetos e práticas atuais, está sendo executada por agentes de uma direita. Um fato irônico e incoerentemente paradoxal.
Um sintoma grave desse tipo de movimento é a mesquinhez intelectual, deturpando e coletivizando a manipulação de dados históricos interpretados sob as trevas das teorias da conspiração. Ali, com todos os recursos lógicos e cinematográficos, é quase impossível não acreditar na veracidade do que se assiste.

Esse também é um dos desafios sobre a conjuntura das mentalidades: é difícil, sem preparo ou formação sobre as possibilidades do mundo atual, ter um discernimento hábil.
Estamos na era dos tecnocratas de tudo — inclusive das almas. Há um processo de morte da verdade: a narrativa mais convincente torna-se “verdade”. Para isso, basta lógica e bom discurso. Fatos viram piada, e voltamos a nos satisfazer apenas com uma verdade lógica — nada mais medieval que isso!
Se para os medievais tal pensamento era justificável por seu contexto, pensar somente assim hoje é negar nossa evolução no campo do conhecimento — no caso da cultura ocidental, de matriz judaica, grega e cristã, é negar as revelações que o mundo antigo, medieval e moderno ainda não tinham desvelado.
Não dá para avançarmos sem aprender a distinguir e integrar. Fora disso, é retroagir — abraçar a perda de potencial de aprendizado e, consequentemente, negar descobertas, nossa natureza criativa, os erros do passado e a possibilidade de um futuro mais harmônico, zeloso e amoroso.

Toda essa dificuldade vem sendo alimentada por adesões coletivizadas e, muitas vezes, pela multiplicação de metáforas e fake news. Mas vamos nos ater aqui ao poder das metáforas.

O poder ambíguo da metáfora
Metáforas são excelentes ferramentas de convencimento ou abertura a novas considerações. Até aí, tudo bem. Mas elas têm poder significativo tanto para esclarecer quanto para ludibriar; tanto para a veracidade quanto para fazer a ilusão e a mentira serem sentidas como verdade.
Há artimanhas tão astutas que até mesmo um espírito crítico, sem mínimo empenho, raramente escapa — seja para verificar, seja para superar.
Se olhamos a história das humanidades, a metáfora — assim como outras figuras de linguagem — foi e é utilizada por quase todos os sábios. Mas em todas as épocas há os “sabichões perversos” que, ainda que convictos de suas próprias visões de mundo, também a utilizam e com ela angariam adeptos. Esse tipo de ocorrência parece ser um processo comum às sociedades humanas.

Metáforas são pequenas narrativas pedagógicas: orientam sentidos, ajudam a entender, compor, reforçar e até criar visões de mundo, enraizar opiniões e valores. Mas, infelizmente, podem também reforçar a confusão e a alienação — como prova o Brasil imerso em extrema polarização.
Quando o sentido de uma metáfora internamente torna-se um valor — assertivo ou equívoco —, converte-se também em referencial na formatação de nossos juízos, pois inclina ativamente as interpretações a uma unidade valorativa e afetiva. Assim, tudo que nos toca os sentidos passa por essa lente.

Aos amantes da liberdade, da ética e do caminho para a verdade, é necessário compreender as estruturas de si mesmo, conhecer os jogos de linguagem e os efeitos das próprias afeições. Só assim estarão aptos ao conhecimento e à ação do próprio grau de liberdade interna, podendo romper bolhas e ciclos de repetição que nos aprisionam.
É preciso ter clareza de que compreendemos e interpretamos tudo a partir de um lugar e de uma estrutura processual que diz quem cada um de nós é no presente — ora tendendo à tolice, ora ao caminho dos sábios; ora às trevas, ora à luz; ora à aceitação do senso comum, ora à autonomia em direção a vanguardas.
Nessa rota, determina-se o que é falso ou verdadeiro, o que será do bem ou do mal, elege-se ou expurga-se quem ou o que é do bem ou do mal. Distinguir sem o devido amadurecimento — salvo por graça ou dádiva — só pode culminar em equívocos, erro, soberba e teimosia. Aí pode haver confusão entre identidade e convicções. Há entre nós quem não se dê conta de que ser e saber são coisas distintas.

Somos seres comunicativos que enrijecem ou manufaturam visões de mundo. Nessa natureza criativa, que eticamente exige responsabilidade na moldagem do mundo, cada opinião que externalizamos é um fragmento que revela parte de nossa composição mental e de como estamos sendo — mais para a integridade ou para a destruição. Por mais convictos que estejamos de estar no caminho do bem, o erro pode estar presente.
Nessa visão, há uma exigência que clama por sobriedade e humildade: somos apenas humanos. Nosso valor maior, depois do amor, está na afeição — pois tudo nos afeta.

O mecanismo interno da metáfora
Enfim, metáforas têm o poder de gerar associações que induzem direções aos sentidos que constituem a mente. Consequentemente, as metáforas — constituídas de suas lógicas e sentidos — trazem a sensação de evidência, de contato com as verdades.
É exatamente por isso que tendemos a entender e sentir, no primeiro instante, que aquilo que ao menos se aproxima do que já cremos ser verdadeiro seja de fato verossímil. Mas isso é inocência por privação do espírito crítico: não pensamos ou consideramos o que desconhecemos.

Observe a gravidade ética do mundo atual — tempo da pós-verdade —, onde verdades são produções com fins técnicos de convencer e produzir comportamentos, fazendo às vezes da verdade sem o serem de fato.
Complexo isso. Exigir essa percepção como saída — libertação dos espíritos — depende da própria compreensão de quem somos: humanos, seres culturais, históricos, limitados e maravilhosamente em construção.

O sentido de uma metáfora instaurada na mente é resultado de um entendimento lógico tornado valor interno. Sem a possibilidade de tutela crítica, deixa a mente à mercê de um funcionamento espontâneo que preenche lacunas com imaginação, por razões neuromecânicas, sem distinguir entre o hipotético, o indício, o provável e a descrição do real.
Portanto, na primeira fase do entendimento frente a metáforas — seja para o bem ou para o mal —, ao associarmos acontecimentos, temos um misto de imaginação, lógicas e indícios que se traduzem como fatos em si. É nesse quadro que nos alienamos da possibilidade da luz das verdades. A verdade, nesse quadro, reduz-se à limitação do movimento habitual da mente, e condicionadamente elegemos o que é falso ou verdadeiro.
Nesse caso, a verdade torna-se aquilo que queremos que seja verdade. A crítica deixa de ser útil e torna-se incômoda para a mente, que, por economia de energia, tende a permanecer no mesmo modelo de funcionamento.
Eis um dos desafios: tudo o que consideramos real é eleito como verdade. Por natureza, a mente — limitada em sua conjuntura de significações — acaba ora afirmando, ora negando, em nome de sua comodidade interna, quase nunca consciente em primeiro instante.

Por fim, um alerta
É importante sermos capazes de distinguir entre narrativas descritivas — aquelas que apenas descrevem o observado — e aquelas que criam situações, dão voltas, distraem e engolem no convencimento. Aí, o mundo de uma lógica fantasiosa toma o lugar dos fatos.

Diante de tudo isso, encerro não com uma conclusão, mas com um convite à vigilância afetiva e intelectual.
A metáfora não é um inimigo a ser eliminado — é uma força da linguagem que reflete nossa própria ambiguidade humana: criadores e criaturas dos sentidos que nos movem. O que está em jogo, portanto, não é abolir as figuras, mas educar o olhar que as recebe.

Nossa saída possível não está na ingenuidade de acreditar que escaparemos totalmente das armadilhas, nem no cinismo de achar que tudo é manipulação. Está na humildade de quem sabe que pode estar errado — e na coragem de revisar, a cada nova evidência, os mapas mentais que traçamos.

Se a política hoje se tornou um campo de batalha de narrativas, nossa tarefa civilizatória é recusar a redução do outro a um inimigo a ser convencido ou cancelado. É lembrar que por trás de cada metáfora ardilosa há uma mente humana — tão frágil, tão sedenta de sentido quanto a nossa.

Que estejamos atentos, pois, não só às metáforas que nos chegam, mas às que produzimos. Que possamos ser artesãos de uma linguagem que não aprisione, mas que abra — que não enrijeça certezas, mas que alimente diálogos.
No fim, talvez a única metáfora realmente libertadora seja aquela que nos lembra: somos todos, sempre, aprendizes da realidade. E é nessa condição compartilhada que podemos, com sorte e esforço, tecer um entendimento comum — menos intoxicado, mais generoso, e à altura da complexidade que nos habita.

A arma contra a armadilha não é o silêncio, mas a reflexão consciente.
Contra a alienação, o diálogo paciente, claro e ponderado.
Contra a pseudos-verdades, a busca contínua.
Vamos adiante.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Por outro poema

 A força do poema

Toca a existência

Explícita o limite

Ousa para o alcançe


Cada qual na sua

Em comum o ser

Em mares do agora

Sentidos para o infinito


Incertezas e pretenções

Gaiolas e vôos

Recolhimento e expansão

Tramas da liberdade


Apenas se é

Mente aqui e ali

Desloca-se em sentidos

Enquanto ser movimento


Resposta em poemas

Tantas "Pluri-lógicas" 

Poucos se tocam

A vida flui tempo


Palavras jogam

Brincam signos

Coração sente

Espaços preenchem


Dança o eu ser instante

O outro a condição afeto

Da relação à concepção

Geografias do(s)  si(s) no mundo


Para onde vais?

Até onde alcança?

Onde está agora?

Em saltos realização!?!?


(L.V. 108, 18/11/21 @pensarconsiderando)

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O Pensar considerando - Uma breve auto apresentação do autor


Olá, eu sou Luciano Vasconcellos. Estudei filosofia e teologia e vivenciei de perto a espiritualidade franciscana entre os frades menores conventuais. Nesse período, tive a alegria de experimentar o espírito do conhecimento como uma dimensão devocional. Tudo se encaixava perfeitamente com meus anseios de criança e com as lembranças de olhar para as estrelas — eram tantos pontos de luz...
Com a vida franciscana, veio a oportunidade de ouvir e partilhar as luzes e sombras de tantas pessoas. Concretamente, a alma humana ia se apresentando a mim em sua pluralidade de sentidos; cada experiência era um conjunto de relações que explicitava dores e alegrias, revelando mundos inteiros. Os problemas, os estados, as circunstâncias, as mentalidades e as alternativas daquelas pessoas — e as minhas próprias — tornavam-se vias de possibilidades do devir.
Naquele convívio, também pude experimentar um peculiar ambiente de debates. Foram muitas querelas que desafiaram e amadureceram convicções, enquanto afiavam as lâminas do pensamento. Era um ambiente formativo para a vida, que evocava outras percepções; tudo estimulava o desenvolvimento e a plasticidade da mente. A singularidade daquele estilo de vida era internamente plural, reunindo pessoas de diversas culturas sob a aspiração poética inerente àquela espiritualidade. Afinal, pude observar que as divergências sempre fizeram parte da vida franciscana, compondo um sentido sustentado por uma base amorosa, onde se crê que tudo é uma oferta da graça. Nesse sentido, fazia-se presente a adesão a um rigor intelectual vivo: em tudo estavam escritos os sinais do Divino.
A intelectualidade devocional franciscana foi um segundo portal de aprofundamento, em perfeita concomitância com a academia. O diferencial era que, na vida conventual, tudo acontecia de modo natural, fazendo parte do dia a dia, da cozinha, da mesa do jantar... Graças à velha disputatio, como faziam os mestres medievais do século XIII, as questões de hoje eram enfrentadas com o mesmo espírito. Eu adorava vivenciar as argumentações e ouvir os ensaios que brotavam dos corações.
Havia momentos em que os ânimos se alteravam nos tropeços das paixões e das certezas assumidas sem questionamento. Era a hora de recolher-se, permitir-se o confronto e direcionar-se a uma imparcialidade capaz de superar a vaidade da certeza — ou, do contrário, fechar-se. Mas aquelas circunstâncias, em si, faziam com que a porta ficasse aberta, até mesmo para os espíritos dados à teimosia, que sofriam em maior ou menor grau. Dali, inevitavelmente, contemplavam-se vestígios de outros horizontes, o que não tinha preço para quem tinha sede de conhecer. As divergências, ainda que incômodas, aguçavam a unidade no caminho de um processo de amadurecimento, e, volta e meia, as questões em aberto eram retomadas. Era um ambiente de grande exercício do pensar. Divergências, acertos e ponderações eram reais motivações para conhecer mais e mais. Eu via isso com bons olhos, o que me trouxe grandes libertações. E o mais instigante: entre um bate-papo e outro, havia uma busca por fundamentação que ouso dizer mais rigorosa que a da própria academia, pois os sentidos da vida estavam em jogo. Isto, por si só, traz uma mensagem ao mundo.
Sem dúvida, os conteúdos e a vida na academia promovem o desenvolvimento de um pensar amadurecido, mas, decididamente, isso não é uma exclusividade dela. O cotidiano daquela vida franciscana testemunhava outra realidade: vivia-se na pele o estímulo ao desenvolvimento intelectual e a consciência dos sentidos da vida. Não bastava a memorização de conteúdos, os bons resultados nas atividades acadêmicas ou uma excelente erudição do legado; era preciso saber articular. Muitos ali aprenderam a pensar sobre a tradição em relação aos dados atuais. Estávamos mentalmente vivos, extrapolávamos "programações".
Esta vivência prática trouxe-me a compreensão de que o desenvolvimento formativo, a transmissão e a produção do conhecimento — em todos os níveis — não devem ser exclusividade da academia, embora lhe sejam constitutivos como guarda, proliferação e produção de saberes. A primazia pertence ao pensar presente em cada indivíduo; ele funda e transpassa a academia, bem como qualquer outro setor da sociedade. A maturidade do pensar não é propriedade acadêmica, como pode parecer. A formação humana é um processo contínuo que intersecta tudo o que se concebe e produz, tanto material quanto culturalmente. O pensar está presente no dia a dia do Homo sapiens sapiens. O Pensar Considerando nasce desta consciência "con-sentida" e expressa uma experiência pessoal que desejo partilhar como uma nova vertente.
Olhando ainda mais para trás, tudo começa com a dádiva dos estímulos na infância. Os livros da estante de casa brincavam muito comigo. Foram muitas informações colhidas em coletâneas como o "Tesouro da Juventude", a Barsa e a Life. Quantas horas trago na memória, eu e aqueles livros sendo revirados a cada curiosidade — algumas vezes despertadas pelas conversas dos adultos —, a cada descoberta que eu admirava. Hoje, sem esquecer os livros, continuo abrindo o Google: basta uma dúvida, e o mundo virtual está aí a nos servir.
Dando um salto para a fase adulta, nas experiências da vida vieram a graduação em filosofia, a de teologia e a querida filosofia clínica — que considero uma vanguarda capaz de dirimir preconceitos, adornando a motivação do exercício do livre pensar que denomino como Pensar Considerando. Trata-se de um querer conhecer a partir das relações, um acontecer com ciência e percepção acolhedora dos sentidos, tanto dos corpos quanto das almas e de seus anseios. É permitir que, na finitude humana, possamos nos servir à mesa dos signos, significados e ressignificados, do permanente ao criativo. Caminha por aí.
Portanto, o Pensar Considerando serve-se da academia, das culturas, do cotidiano, dos acontecimentos, das ideias, dos sentimentos, dos encontros e das interseções. É um modo de articular e transitar entre o que está expresso e a independência de acolher, manter, aprimorar e até superar os sentidos, sob o foco de uma sobriedade entre o que se conserva e o que progride. Entre os erros e acertos do caminho, que a meta seja sempre uma ética do livre pensar, sem o enclausuramento dos preconceitos, mas acolhedora das diversas modalidades de ser e de suas expressões — desde que respeitem as outras existências e manifestações como garantia de si e dos demais.
Nesse sentido, o Pensar Considerando é uma abertura ao cocriativo que não cessa; é colocar-se na dimensão de um pensar inclusivo, que distingue, mas não exclui; faz escolhas sem destruir. Nesta perspectiva, uma identidade só existe em razão da diferença, entendendo a diversidade como a própria possibilidade do essencial. Não acolhê-la é negar o que viabiliza o reconhecimento e a expressão da própria identidade — algo fundamental para a reflexão atual, uma vez que o identitarismo excludente é uma das grandes causas de sofrimento na conjuntura coletiva contemporânea. Inconsequentemente, reduzem a realidade e as ideias a visões de mundo etnocêntricas, desrespeitando a complexidade e os conhecimentos que ultrapassam seus muros.
O Pensar Considerando também é um modo de refletir que acolhe as artes, as ciências, as religiões e tantas outras expressões singulares da beleza humana. Entre cores, sombras e luzes, dores e alegrias, todas elas estão permeadas pela busca e criação de sentidos. A rigor, não é possível pensar considerando sem apreender os sentidos do que se quer pensar; sem isso não há consideração, não se veem estrelas brilhando e, sem as luzes, nada resta senão as trevas. O Pensar Considerando é uma atitude ética do pensamento que não se fecha em si mesma: admite sistemas, mas apenas como fragmentos da totalidade, sempre parcialmente apreendida.
Convido você a participar desta perspectiva. Venha trilhar este caminho comigo, acompanhe este blog e siga o podcast e contribua com seu olhar. Se possível, seja também um apoiador desta iniciativa. O desejo é multiplicar horizontes para um mundo mais responsável e acolhedor. Iremos compartilhar e receber! Vem aí uma série de questões, reflexões, leituras, entrevistas, espiritualidade, ciência e arte. E contamos com a sua participação!

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Filhos do Nosso Tempo: O Banquete da Informação e a Ilusãodo Saber

Quando não sabemos quais influências estamos recebendo, nos condenamos a viver a realidade de forma inconsciente. Alguém opina primeiro por nós, alguém sintetiza o mundo em nosso lugar... e nós apenas reproduzimos. Mas a alma humana é plural, feita de luzes e sombras que nenhuma tela ou algoritmo consegue traduzir por completo. Eu sou Luciano Vasconcellos e, após caminhar pela filosofia, pela teologia e pela vida conventual, convido você a sentar-se comigo à mesa do conhecimento real. Este blog é um espaço para quem tem sede de verdade e recusa o enclausuramento dos preconceitos. Seja bem-vindo. Vamos, juntos, Pensar Considerando.

Quando não se sabe das influências que se recebe e daquelas que se gera, o indivíduo encontra-se condenado à inconsciência da realidade vivida. Tristemente, poucos entenderão: algo falta!
Quando um candidato decide não participar de um debate político, em um determinado caso, esta é, sem dúvida, a melhor estratégia quando se tem a maioria da opinião pública a seu favor. Segundo os olhares populares — de onde se pode descrever que há duas compreensões figurativas no atual momento do Brasil —, temos, de um lado, um "endeusado grandioso" e, do outro, um demonizado que representa um "ex-grandioso", em explícita oposição.
O ponto comum e interessante é que ambos parecem ter lido e compreendido os clássicos da humanidade que tratam de como buscar, gerenciar e manter o PODER. Ou partilham da pura sorte carismática ou — o que é mais provável — contam com uma assessoria de profissionais competentes. Mas isso é apenas um ponto inspirador para tratar de um fenômeno que, a meu ver, engloba inevitavelmente a todos nós no século XXI.
Em prol do entendimento, começo com uma pergunta: qual será a estatística, entre o povo brasileiro, dos que leram e entenderam ao menos algo da obra O Príncipe, de Maquiavel? Quantos sabem da existência de um livro tão pequeno e lúcido como o Breviário dos Políticos, do Cardeal Mazarin? Imagina se agora, com tantas influências de dogmas religiosos no Legislativo, se ao menos ouviram falar dos conceitos de Poder Temporal e Poder Espiritual segundo o "rebelde católico" Guilherme de Ockham — que, nesse quesito, influenciou ninguém menos que os pais do protestantismo?
Todos esses conteúdos são saberes hoje dissolvidos como ferramentas de manobra por muitos profissionais competentes. É incrível como os corpos se mantêm tão dóceis em plena era de livre acesso às informações, onde o indivíduo se sente perfeitamente livre e munido de uma infalível capacidade de opinar com certeza. Que produto somos? Quem somos nós como filhos do próprio tempo?
Testemunho essa realidade. Por acaso, você que lê este texto já leu ou entendeu algo daquelas obras? Elas podem parecer distantes, mas ofertam profundidade. Mas o que é, afinal, a profundidade? Ela surge em acidental oposição a um tipo atual de pensar: raso, útil e rápido. Esse pensamento quantitativo vem prevalecendo e trazendo a falsa sensação de que cada um de nós sabe bem de tudo um pouco, gerando uma satisfação imediata que dispensa o ir além.
Assim, temos por consequência um mundo de pretensos sábios. Todos se sentem portadores de inúmeras informações — e nada mais que isso. Estamos em um mundo no qual a sagrada liberdade de expressão se confunde com um pseudo e íntegro saber. O pensar raso tornou-se uma normose (uma patologia da normalidade). Definitivamente, não temos todos as mesmas competências, nem mesmo no pensar de onde derivam nossas livres expressões. Quanta pretensão pensar o contrário; não somos oniscientes. Mas este tempo, mais uma vez, prova o quanto cada um de nós pode ser facilmente capturado pela alienação.
Talvez o dinheiro não seja mais o maior motivador de idolatrias. Quem sabe não seja o próprio pensar raso? Em termos de efeito coletivo, com certeza é. O pensar raso atual é como uma doença que se espalha silenciosa e invisível. Ela NÃO É FRUTO DA IGNORÂNCIA POR FALTA DE DADOS; dá-se pelo efeito do excesso de informações fragmentadas, instrumentalizadas e articuladas. Sob a falsa sensação de verdade, esse mecanismo sobrepõe-se à ausência de uma reflexão aprofundada — uma óbvia qualidade humana que exige tempo. O dano é que este estimulado pensar raso (que não acredito ser um projeto conspiratório, mas uma sequela do próprio tempo) segue, inevitavelmente, gerando seus efeitos nas pessoas e na sociedade.
Parece que este pensar raso, em alguma esfera, é um dado comum a todos nós, tornando-nos autoridades que não se dão conta de seu comando influenciador. Vivemos em um mundo onde os excessos de informações entre fakes e truths se misturam, sobrepondo-se a um saber evolutivo e, portanto, em contínua construção. Um mundo onde se compra e vende informação via terceirização, onde muitos apenas reproduzem o mesmo. Ou seja: alguém pensou primeiro por você, alguém opinou primeiro por nós, e o resultado segue se desdobrando sem uma tomada de consciência. Andando sem essa ciência, não há crítica.
Nesse caso, os sentidos e compreensões estarão, na maioria das vezes, camufladamente predeterminados. Não escapam disso nem os intelectuais, salvas suas especialidades e exceções — afinal, a alma humana tem suas imprevisibilidades, e que bom! Mas o fenômeno dos consumidores de informação segue firme: pessoas influenciadas por ideias que alguém sintetizou por elas, por mim, por nós. Onde está o filtro?
De algum modo, somos todos vitimizados pelo efeito dessas terceirizações que nos bombardeiam com informes, amplificando o pensar raso. Esse fato me faz pensar que se criou um novo tipo de massa de manobra: a dos "bem-informados". Eles definitivamente não são ignorantes, mas provam que uma cultura de informação ainda é insuficiente para o espírito crítico, discernente e voltado ao bom senso.
Considerando isso uma constatação, tornam-se compreensíveis as mil teorias da conspiração pseudo-fundamentadas que surgem a cada instante, contrariando os fatos da historicidade. Todas essas falsas teorias são mancas de lógica, embora repletas de muita inteligência. O fato é muito grave, pois elas só se mantêm por efeito de crenças em equívocos sentidos como verdades, multiplicados por sensacionalismos nas redes de comunicação, justificando qualquer adesão pessoal e blindando a integridade de caráter individual delimitada por sua própria realidade.
Vivemos um banquete de informações no qual vários atributos humanos são os convidados. Antagonicamente, em posição de destaque na mesa, os gêmeos Mal e Bem servem-se no banquete da Inteligência. O ditado popular "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" é a descrição perfeita desse dilema experimentado em nossa sociedade. Trata-se de um fenômeno que perpassa a vida de todos, explicitado como nunca na esfera das atuais campa­nhas políticas pelo mundo. Mais que uma precisa ressonância, nas redes sociais tem-se tudo escancarado: conflitos, crenças e opiniões que revelam a expressão quantitativa do pensar raso, um efeito das bases da mentalidade que caracteriza o tempo atual.
Mas há esperança, pois nesta mesma mesa ainda há lugares reservados para outros importantes personagens. Entre eles, há um convidado mais rebelde, tanto para o Bem quanto para o Mal: o Discernimento está à porta e parece ter fome. No momento, ele apenas bate à porta enquanto visualiza suas denúncias pelo olhar de fora, mas quer entrar. Os outros convidados torcem para que sua irmã, a Prudência, esteja junto dele, pois, senão, a briga será muito feia — e toda briga tende a consequências ruins para todos os lados.
De qualquer modo, na mesa da Inteligência estão todas as nossas possibilidades concretas de realização e transcendência sobre os efeitos das fontes do pensar raso, as quais seguem escravizando a Astúcia em sua própria cama — ela que sempre gostou de implicar com a Liberdade. Nessa história, podemos ser uma porta aberta ou trancada. A escolha é nossa.
O mal do pensar raso é que ele se dá na humanidade sem culpa, sem percepção imediata. O meio naturalizado por esta cultura direciona e estimula as mentes, instituindo e alimentando a superficialidade. Esta, por sua natureza, exclui a necessidade de aprofundamento, que estaria na contramão do estilo de vida atual e de sua exigência de eficácia de produção.
Aprofundar, sair da superfície, exige tempo. Tornou-se, de novo, sinônimo de ociosidade ou mera curiosidade. Longe de gerar pessoas com mentalidades autônomas, o sistema precisa de gente funcional; esta é a meta. Porém, o humano não se reduz ao funcional. Aprofundar não é prático, não é rápido, e tempo é dinheiro. Para que engrandecer a alma? Onde está o tempo e a disponibilidade para o livre empenho em direção às raízes dos assuntos? Será que estão nos jornais? Nas sínteses primeiras que aparecem no Google?
Será que, nessa correria, não há uma necessidade pessoal e político-educacional urgente de inverter essa situação? Precisamos multiplicar espíritos livres: influenciáveis sim, mas abertos a novas construções, capazes de executar o caminho sagrado rumo ao aprofundamento.


terça-feira, 9 de outubro de 2018

Ao alcance de todos I - Bom senso x Consenso

Ao alcance de todos I – Bom senso x Consenso
O senso refere-se à capacidade de entender e julgar. É a característica e a qualidade de quem é sensato e prudente.
O bom senso pressupõe um juízo ou entendimento qualificado. Ele possui uma abrangência que o torna menos suscetível ao erro e independente do consenso.
O consenso é um resultado quantitativo. Ele se dá pela concordância ou uniformidade de opiniões, pensamentos, sentimentos e crenças da maioria ou da totalidade dos membros de uma coletividade.
Exemplos e Reflexões:
  1. "Um líder democrático, ainda que munido de bom senso, deve se submeter ao consenso de seu parlamento. Caso contrário, será um totalitário."
  2. "Um sábio, em seu bom senso, defendeu um injustiçado. Contudo, por contrariar o consenso dos iníquos, o homem foi condenado como comparsa."
  3. "Em um regime totalitário, se todos os homens tivessem bom senso, seu líder necessariamente agiria de forma democrática. Portanto, o nome do regime deste utópico estado poderia ser qualquer outro, pois, novamente, prevaleceria o espírito democrático."
  4. "Em cada ser humano, o senso é peculiar. Há um conjunto de variações, acontecimentos e influências que determinam sua capacidade de entender e julgar. O humano, nesse sentido, está mais propenso ao erro porque não lhe é possível a onisciência. Sua pretensa consciência é o todo que lhe cabe na graça do aprendizado, na capacidade de distinção e na coerência entre seus signos simbólicos e as forças (leis) da natureza."
  5. "Não importa o regime: um líder será amado pelo povo ao bajular seus ouvidos, suas crenças e suas convicções..."
(L. Vasconcellos, 39)
Leitura recomendada: O Príncipe (Nicolau Maquiavel)

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

ÉTICA, FÉ E O ESSENCIAL PARA TODOS OS TEMPOS

Será que Deus realmente vota no seu candidato, ou você só está usando o nome Dele para validar suas próprias vontades?
Em tempos onde as redes sociais transformaram a fé em cabo eleitoral e o julgamento em virtude, este texto é um convite — com carinho, mas sem rodeios — para darmos um passo atrás. Longe de ser um ataque a crenças, esta é uma reflexão franca sobre como a ética de Jesus e o nosso amadurecimento espiritual foram engolidos pela paranoia política. Deixemos de lado as certezas cegas por alguns minutos: afinal, o que nos une ainda é a nossa humanidade. Topa o desafio?

Que vaidade é essa de achar que Deus já escolheu o seu candidato? Será que julgas Deus um manipulador inconsequente ou és inocente demais? Ainda não amadureceu o seu pensar como espírito adulto? Caso não, há esperança na fé legada pelas Escrituras, pois a vontade divina é pedagógica: sempre opta, primeiro, por ser amorosa e acolhedora.
Em Sua iniciativa divina, Deus sempre mediou a comunicação por meio de Seus inspirados profetas. Na boca de Jesus, emerge a luz: “Deixai vir a mim as crianças”. Não pense que esta frase é apenas uma descrição literal e simplista. Os evangelhos não são reducionismos de aspectos históricos, como mostram os discursos ignorantes, ainda que permeados de ótimas intenções.
As Sagradas Escrituras, em seu conjunto, geram por sua própria natureza uma linguagem teológica, abrangente e simbólica. Por isso, a frase de Jesus não se aplica somente aos “pequeninos”, mas também aos fisicamente adultos que precisam desenvolver-se em espírito. Deus, em Jesus, expressa-se carinhosamente na palavra pequeninos — e essa já é uma linguagem simbólica.
Deus, o Todo-Poderoso segundo a tradição judaico-cristã, não está submetido à arrogância e à finitude influenciável de nós, criaturas humanas. Somos inclinados à lógica da busca pelo poder, um encantamento ou patologia de uma certeza cega, forjada na insistência de manter um "coração de pedra". Transformamos expectativas, mentiras e boatos em verdades. No contexto da comunicação digital plural e sem métricas, todos têm voz, mas muitas vezes aquém de uma ética.
Quanto aos fatos, saiba que a permissão de Deus para que algo ocorra difere totalmente de ser algo de Sua Vontade. Responsabilizá-Lo pelos nossos erros é uma infantilidade do ser humano que se esquiva de sua própria autonomia e responsabilidade.
Aos olhos e ao coração da fé legada, Deus pode chamar (e inspirar) para o serviço da construção de um mundo bom e justo desde o mais corrupto até o mais virtuoso, visando um bem maior. Ainda que paradoxal, isto faz parte da abrangência dessa fé. Afinal, o Espírito Santo "sopra onde quer e quando quer".
Crentes são apenas humanos sujeitos a cegar-se ou a perder-se em pensamentos e atitudes hipócritas. Por isso, convém evitar essa torpe manipulação de Deus, tão comum nesta era que negligencia a orientação: "Não tomarás o Seu santo nome em vão". Cabe urgentemente a cada consciência perguntar: O que está fazendo, filho(a) de Deus? Não entendeu o que ensinam as Escrituras ou só vê e escuta aquilo que lhe convém?
Nas Escrituras, vemos um "Deus que não faz acepção de pessoas". Um Deus que, em Jesus, diz: "Não vim para os sãos" e "Devemos amar os inimigos". Esta difícil máxima do cristianismo revela que a lógica de Deus ultrapassa a nossa. Na busca por fidelidade, muitas vezes reduzimos o caminho divino aos excessos do moralismo; quando isso acontece, a chance de nos aproximarmos de uma autêntica fidelidade segundo a ética de Jesus esvai-se.
A ética de Jesus é bem maior do que aquilo que alguns entendem por "moral e bons costumes", principalmente quando a defesa destes gera mais sofrimento do que libertação. A ética de Jesus funda uma moral, e não o contrário. Não nos esqueçamos do radicalismo de certos fariseus: muitos não deveriam abraçar tamanha finitude.
Jesus na cruz, um inocente condenado sob a pressão de uma massa de pessoas, diz: "Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem". Tudo indica que, entre estes, estavam os doutores da lei, os incitadores do povo. Ou seja, o que eles sabiam não foi o suficiente para acolher ou perdoar Aquele que julgaram ser contra o que acreditavam. Não viram Deus em Jesus; viram apenas um blasfemador, uma ameaça à sua sobrevivência diante do Império Romano. Afinal, não compreenderam que Jesus tinha aversão à violência, preferindo entregar-se ao destino que Lhe tocava e apresentando a outra face — algo que tanto encantou os primeiros cristãos.
Diante de tudo o que vem acontecendo, convém expressar de novo: Meu Deus, meu Deus! Será que sabemos o que fazemos? Na arrogância e no diabo de uma pseudojustiça, teremos certeza de que sabemos claramente sobre nossas escolhas? Ou somos levados por evidências falsas, sob postagens incitantes repetidamente compartilhadas sem escrúpulos? Infelizmente, a mente convicta se sujeita ao agrado das próprias mentiras. Humildade e ponderação têm passado longe após a libertinagem dita por alguns como "mídias independentes". E dessas ações impulsivas e inconsequentes, que consequências virão? Não serão apenas as ilusões presentes.
Aos olhos da fé tradicional, aquele ou aquela que o povo escolher há de ser ou não um servo ou serva na construção do Reino de paz e justiça? Os seus meios serão justos? Tratará a todos sem acepção de pessoas, mediado pela ideia de uma representatividade em comum? Será que se sentirá — ou será tratado e amado — como um deus na silenciosa idolatria de conchavos ideológicos de falsos profetas?
Se um profeta do passado nos visitasse hoje, talvez deixasse um recado:
— Afinal, não vês que Deus “faz o Sol nascer para bons e maus”? Por que muitos, em suas atitudes, negligenciam a orientação de Jesus: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é”?
Deus é justo, bom e compassivo. A lógica de Deus não é a lógica forense (dos tribunais humanos). É muito mais: é a lógica da graça. Ela é capaz de tornar um assassino de cristãos em um mensageiro do amor, como fez com Paulo de Tarso. Por que muitos negligenciam isto?
Para que haja a lógica da graça, é preciso espaço para a mudança interior. É preciso escutar a Deus para a superação das próprias vaidades, costumes e convicções, que não passam de construtos culturais temporários, invenções e projeções mentais. O lado positivo é que a fé transmitida pelas Sagradas Escrituras, em sua pedagogia da revelação, é maximizada e plena em Jesus — ainda que por Ele reconhecida como limitada na carne, outra verdade esquecida por muitos cristãos.
Jesus é um humano fantástico. De certo modo, revela a esperança de Deus em cada um de nós, sem exceção: a todos há a possibilidade de amadurecer a cada dia. A divindade de Jesus é encarnada, aberta e criativa, sem nunca se perder da ética do Amor do Pai. Então, espera-se que haja um processo de metanoia (conversão/mudança de mente), e não toda essa paranoia que se instaurou neste tempo. Converter-se todos os dias! Para a escuta e para o entendimento, senão, não há discernimento. Sem este, sobra histeria, paixões cegas, provocações danosas e desmedidas.
Neste momento, e para muitos outros contextos, não se trata de levantar uma mão, aceitar ou não aceitar, ser julgado ou não, merecer o céu ou o inferno, fazer parte ou ter o reconhecimento deste ou daquele grupo. Não se trata meramente de crer ou não crer agora. Trata-se do que é essencial: trata-se de ser ético, de pensar e agir em conformidade ao Espírito do Cristo. É preciso abraçar o Seu querigma (a mensagem central do Evangelho).
Nas redes sociais, o desrespeito virou um caos. Ser cristão significa, também, empenho em ser ético como o evangelho mostra que Jesus foi. Se alguém não é cristão, cabe-lhe ser ético por nossa própria condição humana comum. O paradoxo em Jesus é que, no corpo da fé que predominou, Ele é o Deus que assume a condição humana. Isto é revolucionário quanto aos arquétipos de poder.
A condição humana é o que nos une. Todos temos as mesmas necessidades naturais e vivemos no mesmo mundo. Na religião de Jesus, temos a história de um Deus que esvaziou-se nesta condição humana — isto é um dogma do cristianismo (como mostra a carta aos Filipenses). Não dá para o cristão ignorar que isso é um dos dados essenciais de sua fé. Sem isso, passará a vida inteira professando uma fé permeada de equívocos e embriagada pelo poder, sem uma autocrítica interna. Aí as coisas desandam!
Entenda, por amor à humanidade, o que é ser ético, o que é o pensar e o sentir ético. A ética é a nossa única possibilidade real para que crentes e não crentes sejam coerentes consigo mesmos, com seus semelhantes e com a ordem do cosmos, da natureza e do Bem — o “Sumo Bem, a Plenitude do Bem”, como dizia Francisco de Assis. É preciso entender que, para nos movermos numa construção harmônica neste tempo — seja no campo econômico, político, profissional ou pessoal —, temos que ser éticos.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Os Sábios estão sem vez

"Em um mundo saturado de certezas rasas, vozes barulhentas e respostas fáceis, o que ainda resta para quem busca a verdadeira sabedoria? Vivemos o desafio de navegar entre ilusões, desinformação e julgamentos apressados. Mas e se a verdadeira força não estiver em ter todas as respostas, e sim na coragem de encarar nossas próprias limitações e aprender com os erros? Convidamos você a fazer uma pausa no ruído do cotidiano e mergulhar em uma reflexão profunda sobre discernimento, humildade e o papel da sabedoria em tempos tão incertos."


 

"Um sábio, depois de tanto estudar a alma humana, seguia aprendendo e ainda nada sabia. Ele descobriu como as convicções são capazes de cegar e aprendeu a ver seu próprio pensamento acontecendo — uma habilidade que ajudou a si e a outros a se desenvolverem —, mas parecia-lhe que muitos não conseguiam pôr isso em prática.

Continuava seu caminho de ofertas, continuava aprendendo. Aprendeu que a dúvida pode ser boa e, muitas vezes entre risos, como louco, não tinha escrúpulos em duvidar de si mesmo; entendeu que a mente também mente. Em suas contemplações, observou que a mente faz preenchimentos para agradar a si mesma e percebeu que os sentidos da alma também falham, assim como os do corpo: quando os olhos se fixam num ponto, cega-se para os outros.

O sábio ia seguindo seu caminho, mesmo sabendo de suas limitações. Certas vezes, em nome de sua sede de justiça (coisa boa como valor), caía em erros e julgamentos precipitados decorrentes de pobres considerações. Eram instantes de pobreza de espírito, a hora do impulso não mediado, não meditado. Mas ele, no exercício da sabedoria, voltava atrás e continuava aprendendo. Ora se entristecia pelas consequências das equívocas paixões que lhe pareceram nobres naquele momento; ora se alegrava por mais um oportuno momento de aprendizado, pois descobria que a força das paixões exacerbadas em causas e questões imediatistas, quando não mediadas, geralmente tende a gerar danos.

O sábio é como um grande espelho das tendências e vivências comuns a todos entre tantos devires e escolhas. Sua sabedoria tem raiz em conhecer a si mesmo na alteridade com os outros. Ele percebe a si mesmo acontecendo, exercita-se em não ser conduzido, prefere participar e esforça-se para não criar ou reforçar armadilhas de sentido que se apresentam no caminho. Mas, mesmo assim, falha: é apenas humano, com o diferencial do esforço para melhor discernir. Apenas isso!

Quantos de nós sofrem, sem se dar conta, nas armadilhas que se constituem numa estrutura de agrado da mente estagnada em suas conveniências? Quantos vivem, agem e pensam sob impulsos identitários de uma ideologia qualquer? Quantos são realmente espíritos livres e éticos?

Afinal, o que é o homem bom? Onde está o ser humano integral em sua finitude? Certo é que o tempo não para, mas o 'ser para a morte' tolamente vive como se esta condição fosse eterna e, assim, escolhe alienar-se do que importa...

Agora imagine: quantas pessoas amadurecidas compartilham seu precioso saber enquanto outros, gratificantemente, consomem apetitosos lixos como se fossem o 'tudo de bom'? Agora imagine: quantos despertarão de suas crenças limitantes, sentidas e escolhidas como as verdades mais coerentes do mundo? Convicções forjadas em fechadas visões de mundo, alimentadas por segmentos etnocêntricos ou identitários, agregam o apoio de pessoas que sofrem num espaço de comodidade mental, espaço de uma alienação comovente que não se comunica para fora. Nesses agrupamentos, instala-se uma mentalidade onde não há espaço para ponderações, pois a mente segue convicta em suas manias de um mundo produzido e estagnado. Portanto, não haverá culpa, haverá apenas certeza; não tem como existirem evidências de outras significações, e outros horizontes serão ameaças descartáveis.

Todavia, para alguns que se envolvem num contexto desse tipo, cabe a compaixão sob o pressuposto de uma certa condição de inocência ou ignorância, caso permaneçam em uma privação de oportunidades e estímulos na qual o processo pessoal de maturação encontra-se estagnado. Já outros que muito receberam, por teimosia, arrogância, preguiça mental, vil comodidade, mesquinhez e atributos como o mau-caratismo, há de se questionar e responsabilizar. Um sábio medieval, considerado uma pessoa sublime em inteligência emocional, chamava pessoas com esse comportamento de 'irmãos moscas' — ou seja, pessoas que vivem somente pelos impulsos de alimentar seus 'estômagos', dando-se bem a partir do esforço dos outros.

Parece coerente pensar que a humanidade, pela condição óbvia de sua natureza finita, deveria gerar um grau de humildade nos espíritos, diminuir a arrogância e o apego a verbalidades inúteis. Mas, infelizmente, este é um tempo em que as vozes de conhecedores são sentidas por muitos como uma opinião qualquer e, algumas vezes, absurdamente subordinadas a subjetividades. Este contexto tornou-se uma mina de ouro para pervertidos experts, que seguem forjando e alimentando uma extensa rede de massificação de opiniões; uma fábrica de ideias falsas que, vendidas e camufladas de verdades, são consumidas enquanto preenchem de vis sentidos a vida de muitos, enquanto os exploradores de almas seguem se dando bem.

Expertise não é crime, e, como há quem a ela adira, esses mentores seguem se beneficiando da fraqueza humana. Sutilmente ou até escrachadamente, influenciam inúmeras mentes vendendo-lhes desejos por meio de gorjetas de satisfação viciante em suas esperanças. Tornam-se tutores de uma pretensa verdade e de pretensas soluções, ampliando o espaço para insanas opiniões e eleição de heróis como se fossem solucionar todos os problemas. Pessoas comovidas por tais sistematizações de ideias tendem a se perder numa dependência da existência desse mundo inventado — e não por maldade, mas em razão de suas esperanças. Entram num movimento de reação, negando falas, ideias e projetos com propriedade e o direito a saudáveis contradições, tão necessárias à prudência.

Infelizmente, isto está naturalizado no mundo atual. O que sobra é uma disputa por espaço entre tolices absurdas que distraem as orientações e decisões daquilo que se deve considerar prioritário ou essencial. Somos uma sociedade onde sábios de fato perderam seus espaços e funções. Vivemos um caos social em que os cidadãos se apartam do conhecimento de suas legislações como alicerce igualitário e ordenador impessoal da ordem nacional; parece que nunca tivemos bom senso, e o consenso sempre veio aos trancos e barrancos.

Ultimamente, mais do que nunca, as redes sociais se tornaram a nova e mais forte expressão da Torre de Babel, onde milhares dão credibilidade à mentira e à inversão de valores perenes que garantem o desenvolvimento humano. Basta o placebo de uma satisfação para que a força técnica de convencimento não seja questionada, enquanto se produz um consenso meramente numérico que determina o rumo de países. Assim se caracteriza essa dominante força medíocre que determina os espaços políticos.

Que tempo é esse, em que parece que tudo quanto provier de sabedoria e ponderação deverá tornar-se resistência? Que tempo é esse, onde todos podem se expressar, mas ninguém parece ter a força da razão? Que silêncio é esse de tantas vozes do bem, emitidas, mas não auscultadas? E, ainda assim, alguns podem sentir alguma alegria porque compartilham e se manifestam. Não basta poder se expressar, há de se querer mais...

Por outro lado, os convictos 'filhos da pós-verdade' irão legislar e governar por vias demagógicas, apoiadas na crença quantitativa parcial que legitima uma representação que se diz de todo o povo, onde os símbolos nacionais e até mesmo Deus, numa idealização, são instrumentalizados e adestrados absurdamente a um segmento.

Esta realidade que se concretiza como traço da época é mais uma das presas dos feitos humanos. Mas, neste contexto, a esperança, agora instrumentalizada, deverá se converter diante das factualidades dos sofrimentos e manter-se viva, pois da Babel sempre prevalecem infelizes consequências: o choro chega como resultado que não provém do acaso, mas de um erro, de uma negligência.

Imaginem: tivemos o Museu Nacional a queimar, a prova de um descaso estrutural. Será que isso despertou algo? Será que erros assim se convertem em sabedoria, mas a que preço? O que nos falta? Serás tu, sabedoria? Não seria muito melhor se o mundo das livres opiniões fosse elaborado com pelo menos uma pitada de ética, sensibilidade, estímulo à reflexão e boas ponderações? Será que recebemos os estímulos certos? Nos passaram as lições certas?

Que situação! Se continuarmos como estamos, presos nesta roda de guerra de ideias e lutas pelo poder político, eternizando nossa tradicional falha administrativa, será que em tempos de eleição expressamos apenas um histérico pedido de socorro e apostamos cegamente? Por que passamos a admirar a arrogância pelo poder e as autoafirmações? Até quando nos submeteremos a trocas de favores? Até quando mentalidades em que não há espaço para provocações e plasticidade irão impedir o desenvolvimento? Até quando a opção pela comodidade e pelo que parece mais fácil será nossa escolha?

Pelo jeito, estamos num tempo em que até as pedras devem começar a gritar! Mas a boa escuta, a ação eficaz e a madura consideração parecem ir muito mal. Há muita falta no caminho da sabedoria! Se não se assumem erros, não se aprende com eles! Somente pessoas que se dão conta do próprio tempo, das circunstâncias e das tendências nas quais estão inseridas podem desenvolver-se nos caminhos. Essa deve ser uma tarefa de todos para que cheguemos ao patamar de um povo que pode discernir sempre melhor — um povo disposto a aprender com os erros, reconhecendo o papel de cada um na soma de todos; um povo que avalie a retidão política sob valores e razões de bem comum que estão acima de segmentos como direita ou esquerda.

Temos que ter ciência de que os lados devem se submeter ao que importa. Há de se ter um mínimo de lucidez, atitudes e estratégias que nos protejam sempre, ainda que tenhamos que inventá-las. Isto seria ser um país 'abençoado por Deus', como diz a canção. Isto tem que ser nosso desejo, nosso fazer, nosso compromisso até o fim, enquanto povo. É preciso efetivar sábios líderes, cujos defeitos pessoais não se sobreponham ao interesse comum. Se errarem, que se mostrem dispostos e eficazes a consertar os erros que devem ser assumidos.

Infelizmente, estamos num tempo em que a simpatia midiática se confunde com competência, onde o identitarismo organizado se tornou uma fábrica de verdades inventadas que dão muito lucro. Portadores de saberes não têm a devida credibilidade e voz, mas eles estão por aí. Em vez de reacionarismos, é preciso voltar a escutar, perceber para melhor julgar... Saber articular acolhendo e unindo as diversidades. Não há vergonha nenhuma em tentar acertar, mesmo que dê errado."