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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Carta de um cristão para cristãos entre tendências e questões deste tempo

Carta de um cristão para cristãos entre tendências e questões deste tempo

​Muitos entre nossos irmãos cristãos acreditam ou agem como se houvesse uma plena harmonia entre o projeto do neocapitalismo selvagem e a ética cristã. É certo que nem este e nem o que foi o comunismo sejam condizentes com a proposta da instauração do Reino de Deus. É fato que, de algum modo, a "teologia da prosperidade" se hegemoniza como estilo de vivência da fé entre segmentos da Igreja Católica e outros segmentos que compõem o corpo místico de Cristo em unidade. Essas tendências ecoam em paixões por ídolos políticos — o que cheira a uma vã esperança e, pior, a uma das formas de idolatria raramente percebida, que desloca o lugar da real esperança e das sóbrias escolhas. Infelizmente, essa tendência não passa de um outro modo de perversão no corpo de nossa fé — não vale a pena acabar com um mal instaurando outro, isso é ilusão e inauguração de modalidades da continuidade do exercício do pecado.

​Em tempos onde o corpo da fé se reduz a egos individuais, deve-se recordar que a fé cristã se constituiu por princípios essenciais que norteiam a possibilidade de um bem comum que, em sua máxima radicalidade, propõe amar os inimigos — o que é loucura para muitos e contínua proposta de conversão. O bem comum de Jesus se compõe em um amplo anúncio de um Reino para todos. O nosso Deus, em sua humanidade mediante a conjuntura de seu tempo, reconheceu que traria discórdia e não a paz – havia ali uma atitude presente que já revelava a coragem (agir com o coração) e o potencial de escolha para enfrentar o caminho da cruz; contudo, de sua boca e de sua vida nos Evangelhos, temos as afirmações: "fazei o bem e não olhai a quem", "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Ele fazia distinções com um claro discernimento que claramente, nesta era de desinformação, tanto falta para muitos que se satisfazem nas confirmações de suas bolhas identitárias. Pelo amor de Deus, cristãos, voltai-vos para o que vos é próprio!

​Parece que esquecemos que a missão, mais do que julgar ou condenar, é promover a conversão. Isso é uma atitude propositiva e necessária que compõe o corpo dessa fé desde seus inícios! Agora, muitos continuam reféns da exaltação da sensação de medo do porvir. A via da cruz parece estar fora do foco, a esperança é fraca, e o caráter dos seus argumentos, justificativas e escolhas baseia-se no espírito perverso desse exaltado medo e da ameaça da quebra dos costumes... Ao invés disso, é melhor recordar e se devotar à lucidez de sua real salvação, o Cristo Jesus, e sim, em nome Dele, ousar sempre por mais esclarecimento e testemunho a partir da própria vida, com liberdade e independência das tendências deste mundo. Contudo, é preciso manter-se ciente das nossas limitações humanas: se nos iludirmos, querendo ou não, geraremos pecado e alimentaremos mais dor em nós e nos outros. Num mundo de informações e desinformações a um clique, todos podem sentir-se ilusoriamente oniscientes e portadores de um saber em grau de qualidade igualitária — o que não passa de ilusão e arrogância, fruto da insegurança de assumir suas fragilidades diante de um mundo com novos desafios. É próprio da sobriedade reconhecer que nosso saber é naturalmente insuficiente, distinto e íntegro ao ser de cada um. Essa limitação é causa para o a mais ou para o a menos na existência, mas na fé da via da luz que vem de Cristo, temos o a mais e podemos nos inspirar para a comunhão dos santos; podemos ser instrumentos Dele.

​Vivemos um tempo de um proselitismo político mesclado por excessos de costumes, alguns de ordens essenciais ao corpo da fé e outros que podem mudar, mas que por confusão são sentidos como naturais ao corpo da fé, moldando padrões vivenciais. Os envolvidos por estas tendências não se dão conta da semelhança de seus erros: suas atitudes e certezas são similarmente as mesmas daqueles que se inclinaram a crer que o comunismo era uma via de harmonia com o cristianismo; acreditavam de coração estar na escolha certa, julgavam-se fiéis a Cristo. É preciso acordar e retomar o tempo da conversão interna para ser sal no mundo. Infelizmente, há muitas facetas no cristianismo que, sem se dar conta de sua arrogância, testemunham ter-se tornado amargor e força de controle. Esta imagem vendida é uma triste decadência e, de algum modo, um afastamento de Jesus. Para livrar-se deste estigma que se impõe sobre si mesmos, nós, cristãos, devemos retomar nossa unidade comum em Jesus. Deve ser claro que "essa ou aquela ideologia", por mais distintas que sejam entre seus altos e baixos, limites e possibilidades, não são a nossa salvação — no máximo, devem ser meios passageiros para uma humanidade que sabe que pode amadurecer e não é um projeto fechado: há espaço para a conversão. Parte do papel no processo da contínua conversão que cabe a todo cristão é o cumprimento de sua missão: orar pelos governantes, anunciar a retidão e manter-se desapegado da paixão por candidatos como se estes não fossem humanos finitos. Escolher como cristão exige simultaneamente clareza e ternura, lucidez sobre o bem possível para que as cobranças sejam também justas, e não condenações delirantes por se identificar com esta ou aquela tendência política — ou seja, meios de concretizar projetos sob certa ótica ideal. Livres do mal, sim, ore para que esteja escolhendo certo em tempos de eleições — isso é agir com sobriedade cristã, e a medida exemplar de todos é a ótica de Jesus. Não dá para continuar fechando os olhos e afastados da unidade no Espírito de Jesus. É preciso coragem: não basta tentar fazer o bem depositando todas as esperanças no que é de natureza instável... Consegue entender? Sob o domínio da paixão pelas causas terrenas ou intolerâncias, de algum modo nega-se, por essa paixão, a fidelidade ao Evangelho por um mundo melhor. Se estivermos cegos em nossas tendências, não haverá metafísica que possa nos salvar. Por mais que creiamos estar fazendo o bem, na prática podemos, sim, estar fomentando o mal — lembremos que a palavra diabo significa divisão. Precisamos nos afastar deste mal presente entre muitos de nós. Devemos nos acolher na clareza e no amor do Cristo Jesus.

​Sob o desafio de um mundo cada vez mais diversificado, a ferramenta do cristão continua sendo orar por aqueles que governam, pois o Espírito Santo pode agir "quando e onde quiser". Devemos superar as ambições de nossas certezas sem nos perder da construção de um Reino amoroso e justo; a todos cabe responsabilidade e liberdade, abertos à graça e ao testemunho de vida. Convém ao cristão lembrar disso e fazer a parte que lhe cabe: acima de tudo, anunciar, denunciar e iluminar a partir do Amor de Cristo, que a tudo pode converter à justiça do Pai. As coisas deste mundo são passageiras, mas a realidade eterna não deve ser excluída do horizonte cristão; a realidade não para aqui neste tempo... O sonho de lá se encarna aqui no Cristo que vive em nós.

​Muitos entre nós, cristãos, estamos tradicionalmente presos a uma moral da repetição — isto ainda não é estar convertido. Lembremos: o Evangelho é vivo e deve estar vivo nos processos de cada um de nós. Essa foi a estagnação rompida com o farisaísmo: é o ir para além da lei, mas não uma oposição à finalidade da lei, que era estar na via de Deus. Os cristãos do início apenas dinamizaram um pouco mais a via; podemos retomar isso hoje na presença da ação do Espírito Santo.

​Sejamos humildes no espírito e firmes na fé; esta deve confortar nossos corações durante as mazelas deste mundo amado por Deus, mesmo com tantas desinformações e sequelas alienadoras. Tolos são todos os que fomentam inverdades, não notando que alicerçam armadilhas para si mesmos... Lembremos que, se o sentimento de fidelidade a Cristo se alicerçar em certezas sem um bom discernimento, nos encontraremos mais do que induzidos ao erro: não passaremos de cegos arrogantes e inconsequentes. Por mais autênticas e puras que sejam nossas intenções morais, elas não nos conduzirão à natureza da ética de Jesus.

​Enfim, para nossos corações estarem em paz com nossa identidade cristã e para melhor viver no mundo de hoje enquanto se constrói o melhor, devemos necessariamente voltar à raiz da atitude de Cristo, sendo condizentes com o Espírito Santo, que sopra onde e quando quer. Acima de tudo, romper com as reclamações que não passam de crendices sem fundamento, e assumir a responsabilidade de medir e construir as realidades a partir do Amor. E isso começa no coração de cada um de nós — o primeiro lugar a se fazer jardim para um mundo melhor. Anunciai aquilo que, de algum modo, já é o Cristo que vive em você! Seja comunhão! Ele veio para este mundo, não desistiu deste mundo, não o condenou, ofertou vias para a conversão e salvação!

​Mãos à obra, pois pouco ou nada ainda fizemos – como diria o corajoso e amoroso Francisco de Assis.

Autor: Luciano Vasconcellos — pensarconsiderando.blogspot.com


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Enaltecendo a Diferença: O encontro com o outro e a busca pela paz

O convívio com o diferente costuma provocar reações ambivalentes: de um lado, o receio do desconhecido; de outro, a oportunidade do autoconhecimento. Longe de ser um mero obstáculo para a harmonia social, a alteridade é o espelho que consolida a nossa própria identidade. Este texto propõe uma reflexão sobre como o respeito às particularidades do outro transcende o plano das ideias e se torna a única base concreta para uma ética da paz duradoura e verdadeira.

O contato com aquilo que se diversifica do meu mundo e do meu conjunto de referências é a presença do outro que me dá a concretude do saber sobre o meu próprio mundo. Trata-se de um processo enriquecedor que, ainda que permeado por condicionamentos como medo, preconceitos, buscas e estímulos, impulsiona-me a ultrapassar a barreira daquilo que sinto como natural e cômodo. A partir desse contato, sou movido a preencher o desconhecido: ora construo novos horizontes, ora confirmo os padrões já existentes, entregando-me ao desfrute da descoberta — uma verdadeira aventura da alma.

Uma relação aberta ao diferente talvez seja a real condição para uma identidade autêntica, alicerçada na acolhida do movimento da própria vida. Nela, não se vive submisso a um cárcere interno da alma; busca-se e sabe-se reconhecer a integridade em tudo. Não se fica preso a um idealismo fixista nem ao nihilismo, pois há plena noção do fluxo temporal e da possibilidade de um "além disso". Os significados e atitudes funcionam como ferramentas que compõem o viver — algo dinâmico, mas fundamentalmente inserido no tempo.

Nessa postura, não há uma necessidade arbitrária de impor mudanças; prefere-se, antes de tudo, compartilhar e pluralizar, posicionando-se com clareza sem perder a capacidade de deixar o outro ser. Reconhece-se, com maturidade, que as escolhas e atitudes alheias são expressões da liberdade do outro — um ponto radical onde, por respeito à própria liberdade, resta apenas compartilhar, sabendo que a reação do outro pode ir da acolhida à negação ou à mediação.

Daqui emerge uma ética que responsabiliza individualmente o sujeito pela sua forma de construir o mundo e de estar nele. O que se busca é um espaço onde o outro possa manifestar-se e crescer dentro de suas possibilidades de liberdade e complexidade. É essa a condição primordial para a aproximação e para a concretização de uma paz prática, onde a diferença seja um valor que garanta a integridade de todos.

Sem a acolhida prática da diferença, não pode haver boa convivência. Até mesmo o ideal do Amor torna-se frágil se baseado nos esforços tradicionais que tentaram fundar a paz na exigência de visões comuns e comportamentos padronizados sob superficialidades. Por essa via, fez-se guerra em nome de Deus, caçaram-se "bruxas", demonizaram-se religiões e oprimidos tornaram-se opressores. Muito conhecimento desenvolveu-se pela crueldade e, hoje, busca-se uma política econômica padronizada — um novo "deus" do momento que gera profunda exclusão.

Trata-se de uma verdadeira contradição em relação a uma cultura que idealizou o amor Ágape: um amor gratuito, cheio de graça, trans-exigente e nada romântico. Nele, não há por que exigir nem se impor; por isso, a diferença surge como criatividade e multiplicação das realidades. O ideal de um mundo em paz, unificado por uma hegemonia convencionada para excluir as diferenças, é um câncer histórico que só gera imposições, intolerância, revolta e autoafirmações cegas — gerando imenso mal em nome de fragmentos de um mundo mental.

A diferença é a essência da modalidade atual de tudo: uma condição indispensável para a distinção e para a construção da identidade em seu estado vivo e em constante movimento.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Entre a Esperança e a Dor: O Humano como Projeto em Aberto


Entre a Esperança e a Dor: O Humano como Projeto em Aberto


Por Luciano Vasconcellos


O que se entende por humanidade não se constitui como um conceito estático ou um produto acabado. No campo das significações e representações, esse entendimento vai muito além da descrição do fato biológico. A existência humana é, acima de tudo, um exercício simbólico que dança entre sensibilidade e inteligência. Trata-se da forma como se ordena e se vivencia aquilo que se idealiza e se nutre como sentimento do “melhor”. Nesse sentido, a humanidade se consolida como um valor transtemporal e uma via de construção ético-prática, flutuando entre o que já se foi, o que se é e o que se deseja ser. Trata-se de um movimento contínuo que — guiado pela localização temporal e pela crítica — tanto pode expandir-se em consciência, aprimoramento e compromisso, quanto pode esfriar-se em seu próprio dinamismo, chegando a inverter-se em um processo de retrocesso comportamental e cultural.


Trata-se de uma espécie dotada de inteligência, apta a fazer escolhas e a dar direção, capaz de interagir e de se moldar na conjuntura dos próprios sentimentos e acontecimentos. O ser humano é inerentemente criativo, potencialmente inclinado a construir sentidos para a vida — ora belos e realizadores, ora inconsistentes e autodestrutivos. Entre experiências sentidas como positivas ou negativas, o percurso é sempre particular. É curioso, e até lamentável quando se almeja um avanço contínuo, notar como essa mesma inteligência pode se tornar um meio de autossabotagem. Muitas vezes, em vez de evoluir para uma existência mais consciente e colaborativa, permite-se que visões de mundo circunscritas e limitantes — a exemplo de bolhas digitais ou pautas identitárias — desvirtuem o potencial de harmonia entre a individualidade e o coletivo.

Infelizmente, vive-se um desequilíbrio evidente em narrativas que visam disseminar ideias a serviço do controle pela alienação do salutar papel de uma crítica ética. Esse mal se naturaliza e se dissemina, especialmente, pela perversidade de modos de gestão negativa por interesses de poucos no poder e, também, pela ignorância ou pelo desinteresse de muitos. Muitos se encontram distraídos da noção fundamental de que se é parte da natureza, e não seus donos. A organização econômica e social sob o estandarte de uma ambição cega faz a Terra “chorar”. Evoluir e avançar é necessário, mas o “como” isso se faz é o que define as sequelas que se deixará para o futuro.


Hoje, muitos vivem como se a vida fosse um trajeto isolado, sem sequer se dar conta de que se eximem de iniciativas e responsabilidades que nutrem minimamente o bem de si e o bem comum. Há uma espécie de embriaguez em duas paixões: o consumo desenfreado, no qual qualquer coisa ou pessoa pode se converter em produto em nome de uma comodidade negativa — uma espécie de ditadura do prazer que ignora a moderação ou o equilíbrio no uso das coisas e das relações. Essa negligência com a sustentabilidade e com as trocas de energia que sustentam a vida é um sinal de alerta máximo, um indício de que, coletivamente, as forças da sensibilidade se encontram castradas. Há quem prefira a insensibilidade, treinando o espírito para ignorar dados da realidade, pois o que não está na consciência não precisa ser pensado, não precisa ter noção do que é sentido... Esse é o pior estado da privação: o sujeito que se autopriva de enxergar a própria finitude e a chance de se humanizar continuadamente.


A inteligência, nos jogos de signos e significantes, pode servir à cura ou à destruição; eis a grande questão do poder de escolha e destino.


Assim, na vida atual, quem se isola para tirar vantagens egoístas, sem a “poesia prática da alteridade”, acaba por viver um pessimismo disfarçado de sucesso. São indivíduos livres que se tornam “meias-marionetes”, aceitando arquétipos prontos que lhes regem e subjacente dizem: “não pense, apenas consuma, apenas, isso basta lhe para pensar que é feliz ”.


Até o ditado “errar é humano” tem sido usado como muleta para a negligência. Mas é preciso diferenciar as coisas: o erro é uma falha de cálculo, um alvo perdido por limitação técnica ou imprevistos. Já o equívoco ocorre quando se age acreditando estar certo, mas falta a consciência ética das relações e dos efeitos sobre o todo; a parte se julga universal, o que é um sinal de comportamento totalitário que se distingue de uma mera opinião egoísta. Reconhecer quando o equívoco se torna o ponto de referência nas narrativas é o amadurecimento necessário do qual a era tanto carece. Isso merece ser levado à clareza para evitar sofrimentos contemporâneos...


Em um mundo saturado de meias-verdades, onde pseudoautoridades gozam de status de credibilidade quase divinas, a repetição de postagens infundadas e de curtidas tornou-se ferramenta de convencimento. E, na esfera individual, o outro mal é deixar-se convencer passivamente: a nova forma de escravidão do espírito. Ao fim, é preciso entender que as interconexões têm começo, meio e fim — e a qualidade desse trajeto depende da coragem de ser, finalmente, inteiro.


Síntese


O texto convida ao despertar do estado de “meia-marionete” imposto pela cultura do consumo e pela insensibilidade social. Ao distinguir o erro técnico do equívoco moral, o autor reforça que a humanidade é um projeto contínuo que exige responsabilidade ética e harmonia com a natureza. A verdadeira evolução não está no acúmulo ou no poder, mas na capacidade de integrar a singularidade individual ao destino comum da espécie.

Há algo sempre a despertar


Que venha lucidez

Cada pensamento 

Eis uma resposta contextual

A alma é poética, mítica e descritiva...

Força lançada para fora

Um vento que passa

Vai além sua origem

O Propósito torna se brincadeira

 E o que nasceu recontextualiza

O novo encarna singularidades.

Nela não há repetição

O vem a compor-lhe

Há um tudo de novo

A experiência é única

Mundo dos eus

Seja simbólica

Seja diabólica. 

Lá um "Deus" fala

Há um campo imaginal

A sacada importa 

Do oriente a Dança flui

Balançar é equilibrar-se

Praticar é conhecer

Sentir é viver

Sorrir é alegria

Hoje a vida corre

A alma quer ser máquina

Obsessiva, moderna

Metas são plantadas 

Tudo deve estar 

Na fôrma de uma forma

Engana-se feliz assim

A aventura não é desordenar

É liberdade de somar 

O útil verte-se inútil

Se nobre sentido se perde

O prático verte em ócio

O ócio é trabalho

Deveria ser

Poderia ser

Nunca escravo

O inútil a nada serve

A nada precisa responder

Nossa! Quão útil és

A modernidade perde a leveza

Tudo se cobra

Naturalidade vira a falta

O tempo para contemplar

O coração geme silêncio 

Mas se olhas o horizonte

A oportunidade se faz

Há beleza nisso

Há algo sempre a despertar!

TAIJIQUAN: A ARTE DA INTEGRALIDADE EM UM MUNDO FRAGMENTADO


Por Luciano Vasconcellos


​O Taijiquan (Tai Chi Chuan) foi reconhecido em estudos da Universidade de Harvard como um dos sistemas mais eficazes para a manutenção da saúde. Segundo o Harvard Medical School Guide to Tai Chi, a prática é definida como uma "medicação em movimento", capaz de tratar e prevenir os males da vida sedentária e do estresse crônico. Esta arte, embora oriunda do vilarejo de Chenjiagou, na China, transcende suas origens camponesas para dialogar diretamente com as necessidades da natureza humana global.

​A Crise da Funcionalidade e o Resgate do Ser

​No cenário atual, a estrutura da vida moderna tende a reduzir o ser humano a meras funcionalidades de produção apressada. Essa dinâmica condiciona mentes responsáveis a um estresse que desvirtua a ordem do "ser integral". O mal-estar contemporâneo não advém apenas de escolhas individuais, mas das sequelas de uma vida onde os afazeres servem a segmentos específicos, tornando a manutenção da existência uma constante "objetificação". O bem-estar passa a ser entendido, erroneamente, apenas como o cumprimento de metas.

​Contra essa fragmentação, o Taijiquan se abre como um leque de benefícios. Não somos apenas partes isoladas — corpo e espírito, fisiologia e energia. Como aponta a Teoria dos Sistemas Complexos aplicada à saúde, o ser humano é o resultado de suas interações, pensamentos e relações. Ao priorizar apenas algumas dessas partes, fragmentamos nosso potencial.

​O "Co-nascer": Conhecimento como Transformação

​Praticar Taijiquan é permitir-se um processo de "co-nascimento". Ao conhecermos a arte, instauramos um grau de intimidade conosco. Como seres em contínua composição, não somos estáticos. O Taijiquan é o modo prático de viver essa dinamicidade no corpo — a geografia onde tudo se localiza. Enquanto respiramos, estamos em tempo; e é nesse corpo que o espírito se expressa.

​"O Tai Chi não apenas melhora a forma física, mas reprograma a resposta do sistema nervoso ao ambiente." — Wayne, P. M. (Harvard Health Publishing).


​Além das Categorias: Uma Prática Transversal

​Embora seja uma arte marcial interna, uma terapia natural e uma filosofia de vida, o Taijiquan não deveria ser limitado por legislações que o enquadram em apenas um desses nichos. No Ocidente, temos o hábito de fragmentar para conhecer, o que acaba por reduzir juridicamente uma arte de natureza transversa.

​O Taijiquan é uma meditação ativa e uma "ginástica de expansão cerebral". Estudos de neuroplasticidade demonstram que a prática sistemática aumenta a densidade da massa cinzenta e melhora as funções cognitivas. Não se trata de uma ideologia para mudar o mundo, mas de um exercício de integração entre o "dentro" e o "fora". É sabedoria integral comprovada na pele e confirmada pela ciência.

​Sobre o Autor

Luciano Vasconcellos

Professor e praticante de Taijiquan há mais de 30 anos. Oferece aulas presenciais e online, media rodas de conversa e realiza atendimentos terapêuticos baseados em escuta analítica e práticas corporais.


domingo, 25 de janeiro de 2026

A Raiva: Da Proteção à Desordem – Uma Análise sobre sua Função e sua Distorção

A Raiva: Da Proteção à Desordem – Uma Análise sobre sua Função e sua Distorção


No complexo potencial do comportamento humano, um conjunto de forças concretiza-se em expressões, atitudes, significados e sentimentos. Nesse território, uma emoção destaca-se numa trama entre dinâmicas fundamentais: a dor e o sofrimento, em contraposição à busca por alívio; e a satisfação que conduz à experiência do contentamento, àquele “agora em que tudo está bem”.

Entre as forças que atuam nesse campo, a raiva emerge como uma expressão poderosa. Ela é, em sua origem, a resposta ao que ultrapassou o limite do suportável. Reação instintiva e natural, é a expressão de uma ruptura – a transição de um estado anterior para outro. Pode também ser entendida como um mecanismo de defesa, que visa proteger um significado interno, uma ordem de valores estabelecida subjetivamente. Portanto, num primeiro momento, a raiva é um modo de proteção.

Nesse sentido, ela deve ser sentida e entendida como importante e até desejada, pois sinaliza, direta ou indiretamente, que algo saiu da ordem ou que uma circunstância conflituosa se instaurou. É a atualização de uma força natural, uma emoção com função vital.

Contudo, quando estabelecida como padrão predominante de reação, a resposta pela raiva pode tornar-se uma segunda natureza negativa. Cria-se uma vicissitude comportamental padronizada, na qual a raiva converte-se em desequilíbrio interno. Esse desequilíbrio perturba as relações entre o “dentro” (o mundo subjetivo) e o “fora” (o espaço de encontro das subjetividades), onde o comum aos sentidos instaura-se como dado objetivo, podendo exercer uma função de ponte ou convergência entre os signos.

Assim, mesmo sendo inicialmente uma força positiva e protetora, cabe perguntar: quando a raiva ultrapassou a defesa da integridade para tornar-se um paradigma de insensibilidade relacional ou inconsequência?

Nesse ponto, a raiva – antes útil em contextos específicos – transforma-se em força de autodestruição. Acumulada, passa a servir ao “ataque pelo ataque”. Tudo que incomoda é dramaticamente interpretado como ameaça real. Expressa, então, um grau profundo de desequilíbrio interno. Analogamente, será como uma ferida dolorosa na alma (no mundo dos signos e sentidos). A pessoa tende a interpretar tudo que a toca a partir dessa ferida, alimentando uma negatividade que cresce em si mesma – independentemente de causa externa imediata ou de desfoques internos. É preciso coragem para perceber que nem sempre a origem é um trauma, mas, por vezes, um caminho de cultivo negativo.

Quando o comportamento, na vivência das relações, decompõe-se e recompõe-se incessantemente em forças contra o outro – e a raiva torna-se a linguagem de comunicação predominante a qualquer gatilho físico, emocional ou paradigmático –, chega-se a um ponto em que ela precisa, urgentemente, de reeducação e ressignificação.

Em termos de consciência, a raiva deve ser entendida e acolhida como uma dinâmica natural. Ela pode ser uma força útil para a saúde (bem-estar) humana, quando reinserida em seu lugar adequado no psiquismo –  não denotando ameaça ou desordem à própria integridade.

Vontade, pulsão e instinto também se organizam em distintas cascatas de expressão, compondo o modo como sentimos, pensamos e agimos. Os teóricos da alma humana sempre tenderam à busca das respostas mais gerais possíveis. Uma coisa é certa: há uma clara busca por caminhos que conduzam o indivíduo a um estado mais integrado. Ou seja, a uma vida mais plena e feliz, ainda que os sofrimentos, a rigor, sejam inevitáveis. A integração – consciente ou não – é, em si, um caminho para o bem-estar. E a raiva deve ter um bom lugar nesse caminho. Evitar sua desvirtualização é uma aventura pessoal, entre as tantas e tantas forças que nos habitam.




Convite ao Leitor

Convidamos você, leitor, a observar com gentileza os processos e contextos da sua própria raiva. Este olhar pode ser um passo profundo e um gesto para a transformação. E para quem deseja ir além da reflexão e encontrar ferramentas corporais para essa jornada, convidamos a acompanhar o próximo texto de continuidade. Nele, exploraremos dinâmicas e propostas gestuais, práticas baseadas nos saberes do Taichi, do Qigong e da Meditação, que visam contribuir para uma vivência mais consciente, integrada e saudável dessa força fundamental que é a raiva. Até o próximo texto!




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Atenciosamente,

Luciano Vasconcellos
Esp. Filósofo Clínico,
Prof.Taichi, Qigong e meditação...

Aguardo você ao próximo texto, obrigado pela leitura, compartilhe!


Com ações e entregas de reflexões, saberes e ideias sinceras contribuímos para um mundo melhor ético e mais saudável!

quarta-feira, 2 de julho de 2025

"Humano por mais humanidade" - Uma crítica à projeção de um humano superior

     Há uma certa repetição no discurso de várias pessoas de destaque sobre uma suposta evolução do espírito humano, uns dizem que apesar dos avanços tecnológicos, espiritualmente temos muito para caminhar... Há uma certa certeza no patamar de um consenso que parece generalizado, onde seríamos espíritos destinados a uma longa jornada para uma evolução tão sonhada e querida. Mas será mesmo que somos inferiores ou superiores? Será que temos que assumir algum projeto pré-determinado ou desconhecido para alcançarmos nossas projeções acerca de nossos ideais  de bem? Será que não podemos nos equivocar nessa jornada onde apegados a nossas crenças e experiências pessoais tendem internamente serem elegidas como fonte de verdades? Sentimentos de vanguarda de certo modo não geram suas elites e preconceitos? O cuidado é precioso ou não? Seria esta uma atitude apta a todos e parâmetro de liberdade e educação?
    Convém lembrar que adoramos ter alguma justificativa para as questões da vida e para além dela, também queremos ser senhores do bem e do mal a ponto de até inventá-los. E de novo aparece aquele sutiu e eterno conflito das ações e do que se espera da relações entre o indivíduo e a coletividade. Parece que, no  para todos (os sensos em comum na coletividade) sempre entra num desarranjo com o para mim (no senso da individualidade). Insatisfeitos, as máximas começam: fulano precisa ter mais atenção, fulano precisa fazer isso ou aquilo, precisa se converter, não está de acordo... Fórmulas de humanização sob projeção do desejo de um humano superior são vomitadas aos quatro cantos, como se isto fosse exclusividade para alguns ditos mais evoluidos, e nesse processo o próprio senso de solidariedade acaba sendo uma manifestação egoística ou com ar de superioridade. Apesar de parecer contraditório é um possível da condição humana. Sim, essa sim,  pode ser o centro para uma reflexão em torno de nossas insatisfações e projeções.
    Pensar em uma humanidade mais "evoluída" seja entrar num campo contra corrente, onde alguns ideais precisem sofrer algumas inversões.
    O todo da vida talvez deva ser mais que entendido, vivido como dádiva e não sob a tutela de dívidas em relação de passado, presente ou futuro.  

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Rima furtiva

 

Há tantas formas no comunicar
Há tantas formas de juntos estar
Há tantas formas de como amar
Quando fisicamente distantes
As vezes vivo o silêncio que toca você
Enquanto fazes o mesmo a mim
Surfamos entre conveniências, limites e ousadias
Jingamos com a vida
Sabemos de regras
Sentimos o que sentimos
Gostamos de viver
Temos asas, casa, pés e gostamos da rua
Temos nosso querer bem
Tranquila vontade de estar,
segura e sabe esperar
Driblamos amarras
Ousamos em poucos estares
Aconchega-se o coração, calma e afeição
Um estar que não carece definição
Entre assuntos ,sonhos, parcerias e distâncias
É peculiar pontuar tal liberdade
Há uma brisa suave dissolvendo amarras
O vínculo é o amor, não os pactos.
Há tantas formas de amar
Nosso encontro é peculiar
E o mundo ainda não está pronto
Para este estilo de furtivos estares
Uma casualidade
Certezas pelo encontro
Desentendida mágica sentida
Pulsada, forte e moderada
A vida balança
Beleza ainda que em gotas de cuidar
Tudo transversaliza
Em rima furtiva
nossos caminhos se cruzam
É sempre bom querer-te bem!

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Fluxo ao foco de um instante

Mais um dia de presença amanheceu,  os passarinhos cantam... 

Tudo parece um convite aos gestos de silêncio.

Entre sentidos seguimos, percebemos, moldamos, despertamos e nos direcionamos.

 Muito se pode ou nada fazer.

Talvez, se no despertar da presença dos "instantes", possa escolher, moderar, deixar-se ir e ao fluxo focar, aprender, permancer, criar e enovar.

O caminho flui na multiplicidade enquanto ao tempo, sentidos e identificações cada um localiza-se e segue pontuando a vida..."

(L.V. 270323, @pensarconsiderando)

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Brasil Babel 2018 - a realidade e uma escolha em outro ponto de vista.





ENTRE OS PRESIDENCIÁVEIS, QUEM MAIS UTILIZOU RECURSOS DE CONVENCIMENTO EM SUA CAMPANHA? Sinceramente, você acha que sofreu algum efeito disso?

Para uma resposta que fosse além da tão venerada opinião com peso de verdade, seria necessária uma análise completa de todos os discursos dos políticos presidenciáveis na atual conjuntura. O marketing de cada um e as opiniões públicas, sempre instrumentalizadas por planejamentos de profissionais experts no assunto, são midiaticamente lançadas como ondas sobre nós, simples mortais. Os falsos deuses têm um certo poder.

Infelizmente, não é possível fazer isso agora. Adoraria fazer uma análise filosófico-clínica de todos os discursos, mas não tenho tempo nem investimento para tal. Então, depois de muitas tentativas de manter uma campanha neutra nas redes sociais por princípios de discernimento, resolvi falar sobre minha opção presidenciável. Vamos lá!

Primeiro, algo que já circulava no mundo virtual — claro, contendo um slogan sensacionalista, como quase todos. Logo houve reação em defesa de candidatos, até aí normal. Eu já vinha observando o fenômeno das influências, todas afirmando serem bem fundamentadas. Mas surgiu em mim a questão: até que ponto cada um de nós pode sofrer um convencimento e crer em narrativas como verdades absolutas, depositando nossas esperanças sem buscar aprofundamento? Assim, ficamos à mercê do que só o tempo poderá demonstrar — quais serão as perspectivas corretas e os discursos que se provaram verdadeiros perante os fatos e coerentes com as realidades futuras.

Então, olhei para vários discursos, todos apresentando propostas aparentemente bem-intencionadas e legítimas. Mas ainda era pouco. Ouvi teorias da conspiração, esforcei-me para elencar contradições entre fatos, pensamentos e significados de conceitos. A idealização é forte demais. Meu Deus! Tive a impressão de que é assim que pensamos enquanto povo. Uma angústia tomou conta do meu coração. Pensei de novo: meu Deus! E os que sabem que pensamos assim, o que fazem de nós? Ainda assim, procurei escolher um candidato. E aí, na condição comum a todos nós, submeto-me às minhas perspectivas e esperanças. Sinceramente, como exercício de patriotismo, fiz minha escolha ponderada.

Considerei UM PODER QUE NOS ASSOMBRA: ferramentas para o mal-convencimento, como slogans, entimemas e retóricas muito bem elaboradas. Coitados de nós, povo! Que diabo de palavras são estas? São apenas termos que significam conhecimento técnico sobre a arte de convencer, independentemente de fatos ou verdades. Essas técnicas buscam produzir significados, podem criar realidades em nossas mentes. Mas também poderiam servir apenas aos fatos e verdades — só que, em campanha política, isso seria ingenuidade, romantismo moral e seria entendido como atitude de um potencial perdedor... A atual conjuntura, porém, não vai para um lado ou outro intencionalmente. Os experts, formadores de opinião, têm a habilidade de fazer um mix de fatos, verdades, mentiras, invenções e ludíbrios convincentes, invisíveis à percepção leiga. Basta ter uma lógica que incline a crer; parece faltar critério. Assim, perguntei em minha alma: afinal, somos marionetes deles ou de nós mesmos? Vivemos a cultura da escolha do mais fácil e útil. Seria isso um sintoma grave? Muito sério isso… Deixa pra lá!

Os slogans, entimemas e retóricas predominaram em todas as campanhas, acertando flechas certeiras em seus alvos: os corações e pensamentos de nós, eleitores. Essas ferramentas eficazes das artes do convencimento — retóricas e lógicas — mesclaram realidades e suposições reformatadas ou estimuladas em todos nós, criando noias ordenadas, alimentando principalmente verdades pré-fabricadas que apreendem, conduzem e induzem nossas mentes a se ordenarem sob tais lógicas, depois coletivamente reforçadas por nós mesmos nos bares, nas rodas de conversa e nos seios familiares. Que gravidade, meu Deus! Poucos conseguem escapar! A noia criada perpassa pessoas de bom coração, desde intelectuais até ignorantes, todo tipo de pessoa, compondo o que parece uma formulação própria do tempo atual. Mesmo que um indivíduo se esforce para escapar, algo estará ali, infectado como verdade. Uma droga! Uma tentativa é não crer totalmente em nenhuma e não ceder ao pessimismo, pois a simples oposição por lógica, muitas vezes, valida o outro lado. Nesta eleição, isso é um fato!

Então, o que fiz? Procurei ser razoável, nem tanto lá nem tanto cá. Analisei apenas o que dizem e mostram. E, de fato, como a maioria dos brasileiros, não tenho intimidade ou aproximação real com nenhum dos candidatos, nem com esta ou aquela mídia; não faço parte de nenhum partido. Portanto, analisei o que me restou: propostas, disse-me-disse, manifestações apaixonadas, um povo envolvido como nunca (um patriotismo imaturo que pode e deve amadurecer). Só me restou escolher com coerência e análise dentro dos limites da minha consciência.

Esse sincero limite de consciência, para os éticos e bem-intencionados, é um ponto comum como condição de escolha e possibilidade de todos nós, não acha? Afinal, não somos oniscientes! Eticamente, essa condição me faz respeitar a escolha adversa e a similar. Nessa condição, entendo tudo como uma tentativa válida — ainda que infectada por ludíbrios tecnicamente articulados. Fora disso, brotam escolhas imaturas, dignas de comiseração. Não quero crer, e parece evidente que não é intencional ou por mal, apesar de tudo que tenho testemunhado em termos de convicções.

Vejo que a privação de um mínimo conteúdo para uma habilidade qualificada de discernimento é uma desgraça para a sociedade, que se envenena ao simplesmente alimentar os sentidos ofertados para induzir. Essa privação desqualifica a chance de um amadurecimento para escolhas ponderadas! Ponderar é uma habilidade importante para quem pretende ter um espírito livre! Quantos estão nessa condição de privação de conteúdos? O analfabetismo funcional nunca foi tão expressivo. Não se consegue ler e entender; não se consegue escutar e entender o que o mundo do outro revela para si mesmo; o quanto o mundo do outro revela o que se é no jogo das relações; o quanto é possível compor intencionalmente juntos. Mas a "Babel" continua predominando e nos levando à ruína. Poxa! Quantas pessoas nem imaginam o que é um slogan, um entimema? Quantas não têm consciência de que essas construções de ideias, em suas articulações de convencimento, escondem dados — função e sintoma essencial de toda ideologia — e são regidas por reducionismos que enquadram a realidade de acordo com suas conveniências? Isso para o bem de quem? De um grupo? Do povo? Ou até mesmo ao acaso da torpe cegueira fanática? Quem são os senhores das novas oligarquias? Enquanto a luta pelo poder vai rolando, nós, o povo, vamos falando e reinventando novos comunismos, fascismos, direitas, esquerdas e supostos centros. Deus! São inúmeras as teorias da conspiração que, indiretamente, parecem uma confissão de quanto gostamos de ser vítimas… Mas deixa isso pra lá — ou não; restará arcar com as consequências.

Aleatoriamente, na "Brasil Babel", ao conversar com uma pessoa instruída que se diz de extrema direita, verifiquei nela um discurso sonhando com um projeto político que, a rigor, seria uma proposta ideologicamente próxima de um tipo de sonho comunista. Chegamos a esse ponto de perder distinções básicas. Com outro, de esquerda, ouvi opiniões de centro, sendo ele taxado por amigos como comunista. Outro, de centro, apresentou-se com ideais de radical esquerda. Isto é real em nosso "Brasil Babel". Discursos assim revelam a noia dominante e o quanto temos que estudar mais, aprender mais, conhecer mais, compartilhar mais de modo criterioso, pensar e escutar qualitativamente para ponderar melhor. Enfim, sair desta "cultura da noia".

As sabatinas que ocorreram pareciam gerar mais dúvida pela dúvida, em vez de elucidar os eleitores. Seria melhor a confusão ou a instrução? Sonho que um dia isto fique claro e natural em nossa cultura. Os eleitores, por outro lado, sem os debates, já tinham definitivamente escolhido. Nunca vi TANTA PARALISIA DE OPINIÃO. Talvez Jesus diria: "Deixe que os mortos enterrem os mortos". Mas, na complexidade atual, os mortos enterram os vivos. Onde chegamos?

Vejo qualidades e defeitos em todas essas expressões de tipos políticos — ninguém é perfeito, não é? Não é preciso tapar o sol com a peneira, ainda que isso traga a ideia e a sensação de um falso alívio.

Aquele que o espírito democrático, com seus defeitos e qualidades, eleger como nosso representante, eu o honrarei como tal. Ficarei de olho e espero que nos honre com uma representatividade qualificada. Espero que a paixão desta eleição nos faça a todos fiscais participantes da "governança". Aí está a expressão dos meus sonhos para o meu país: um patriotismo qualificado. Atributos de governança deveriam ter sido o fator mais exaltado por todos nós e pelos candidatos, mas o fenômeno ocorreu em outros aspectos.

Fiz campanha pelo discernimento. Agora, na reta final, como todos, faço uma escolha. Assim como a maioria de nós, povo bem-intencionado, apenas fiz uma escolha.

Que venha o resultado, e que o eleito contenha ou desenvolva em si todos os atributos necessários para uma governança concretizadora, qualificada, justa para todos, não ideológica, apaixonante e simplista. O mundo nunca foi tão complexo, com tanta novidade, tecnologias, tendências econômicas e novos comportamentos; quantos medos, inseguranças e tentativas de retorno ideológico. Dentro de um quadro não terminado, um atributo ou outro, bom ou ruim, nisso ou naquilo, só pesaram na minha balança. Por isso, em minha justa consciência e liberdade, pesou a opção, no caso, o 12 (Ciro Gomes). Apesar de ele também usar recursos de slogans, entimemas e retórica, sinceramente, na escalada, apenas achei que usasse menos. Mas essas se tornaram o veículo e atualmente pragas infectando mentes, inclusive mentes brilhantes; algumas, com dinheiro e estruturalmente, financiam as verdades pré-fabricadas perpassando esquerdas e direitas, em nome da ideologia de seus interesses — quase nada lhes é de graça!

Ainda que em desacordo com efeitos de massa, positivos ou negativos, neguei-me a participar das ondas que me atropelavam com caixotes. Deus ilumine nosso futuro.

Para quem não entendeu o que eu quis dizer, no entanto, vou demonstrar (rsrs):

Devo escolher aquele que é bom. Deus é bom, a igreja compartilha os ensinamentos de Deus. Zé frequenta a igreja, logo Zé é a melhor escolha.
Resultado esperado: Produzir associação de que Zé é bom. Por dado lógico, gera-se um entendimento e uma identificação pessoal a partir do "desejado bem" (valor), e a pessoa torna-se vítima de uma astúcia manipuladora que instrumentaliza o que ela tem de melhor: seus valores, virtudes e crenças do bem, neste tipo perverso de arte do convencimento.


O bom pai educa seus filhos. Tonho ama seus filhos; os filhos fazem arte; como "bom pai", surra seus filhos; por medo, os filhos não fazem mais "artes" que possam ser percebidas. Portanto, quem ama bate. Tonho é entendido como um bom pai.
Dininha conversa francamente com os filhos depois de uma arte; os filhos, que nunca apanharam, sentem a franqueza e a privação de alguns "gostinhos" como uma surra. Não fazem mais artes. Tonho viu tudo e pensa: "Essa mulher devia ter dado uma surra, eles aprenderiam mais. Péssima mãe!"
Resultado esperado: Desfocar o centro de atenção, que deveria ser o educar e seu efeito. Daí, o interlocutor se distrai no debate homem × mulher, exemplos de jeitos de educar, costume, tem que bater ou não… Distrai-se do que se deseja: uma educação qualificada.

Isso tudo para dizer que o sensato é fazer o seu melhor. Na política, a dúvida é condição mínima para uma escolha que possa gerar efeitos de um bem real, querendo aprender e amadurecer. Crer na política é diferente de crer no Absoluto. Isso pode dar uma chance preciosa de escolher com real liberdade e dignidade, que cada um de nós merece ter — ainda que se considere um erro depois, afinal somos seres limitados. Democraticamente, importa a liberdade de escolha; melhor se há empenho para escapar das armadilhas indutivas de convencimento, às quais todos estamos sujeitos.

Eu escolhi votar, na reta final, no Ciro Gomes, 12, e manifesto. Poderia não fazê-lo. Há pessoas que me conhecem que poderão repensar suas escolhas por causa disto, eu bem sei. Mas isso seria uma pena, a não ser que tenham feito seu discernimento ao máximo, pois optar pelo voto de um amigo seria uma consideração amigável, mas também irresponsabilidade e imaturidade política — isto é real. E teríamos mais uma vítima da armadilha perversa de uma lógica dos afetos, porém distorcidos de sua função natural: gerar vínculos humanos. Nada a ver com o reconhecimento da qualidade administrativa que exige um cargo político.

Se todo esse sincero e limitado texto for entendido por você como indicação ou convencimento para votar na minha — declarada e arriscada como qualquer outra — opção 12, Ciro Gomes, ALERTA! Por favor, releia quantas vezes for necessário. Se não entendeu o sentido deste texto, possivelmente você pode estar sendo uma vítima das artes do convencimento, e seu voto estará sendo uma peça de manobra. Seria mais coerente votar nulo ou pontuar os aparentemente não elegíveis.

"12, Ciro Gomes", considerando atributos para uma melhor governança, é minha respeitosa opção, numa aposta de quem possa ser o melhor para todos nós — o que é diferente de uma certeza (crença) de que assim será. É apenas minha melhor perspectiva, só isso, nada mais.

Por favor, faça o mesmo, pensando no nós, em sua melhor escolha, sem medos. Faça seu melhor, neste ou naquele. Meu conselho você já sabe! Já sabe que não deve ir na onda dos "conselhos", mas discernir. Manter-se discernindo no realismo deve ser a regra absoluta. O seu melhor revela a condição em que se encontra como ser livre, pensante, responsável e politicamente solícito a todos os brasileiros — ou não.

Respeito sua escolha; respeite a minha. Diferenças de opinião devem ser expostas e conversadas em vista de amadurecimentos; negar isto é negar a possibilidade de si mesmo. O patriotismo é um ponto que deve unir os que querem o melhor desenvolvimento, ainda que haja divergência de opiniões, pois, mesmo crendo em vias de projetos distintos, a fé projetada é para um bem. Há um dito popular bem ético: se não pode ajudar, não atrapalhe. O voto em branco ou nulo também carece de discernimento.

Vamos lá, e viva o Brasil!

Andar para mais que andar

 

Andar não é só caminhar, andar é iniciativa, é concreção, andar é dar direção, andar é o fazer do agora o 100 por cento de cada passo, andar é o reunir as forças do antes e se lançar ao futuro, um passo de cada vez. Assim, a existência é integral, rima passado, presente e futuro, arte de ser sendo onde participativanente o destino se faz.

Andar é gesto onde a cada passo, o milagre do equilibrio acontece.

Andar é uma espiritualidade silenciosa do corpo em ação, signo do devir. Devir pelo corpo, devir pelos sentidos, é a alma que se expressa estando em direção. É via para as conquistas e satisfação  em construção na eminência de cada passo, o melhor modo de ser e estar feliz.

Andar é mais que a meta! A meta é um para onde, uma dualidade entre ser o motivo ou a tênue linha para frustração, afinal deseja-se realização. Andar é sempre uma concreção. Por isso, convém focar no poder do fazer, o agir de agora, fonte mantenedora da alegria do ser sendo.

Siga, aja, vai, anda, viva os 100% (cem por cento) de cada passo.  Isto é atitude de bem viver, é estar sóbrio(a) no acontecer, força que funda o futuro a partir do agora enquanto canaliza os impulsos do passado, afinal somos seres estruturantes.

No agora, sóbrio andar é dançar com a vida, é estar em par a tudo que lhe toca. Andar é administrar-se enquanto afeta-se e é afetado. Andar é ação, metáfora para o onde vai e para onde pretende-se chegar, um depois que torne um agora, andar é deslocar o tempo, transmutar  para parar um pouco. Andar é lidar com as resultantes e continuar, isto é alegria do ser sendo, é o surfar com o movimento.

Predominantemente, andar é a positividade de multiplas direções, espaço para os sentidos,  inclusive o recuar seja para proteger, esperar ou mais como adaptar, depois vem de novo aquele  impulso de continuar indo. Andar é movimento. E movimento é um campo de criação, expressão, e composição do viver. É bom que o andar seja compor-se em beleza. Pode-se involuir, permanecer ou evoluir, multiplicidade dos estados de ser.

Siga, mova-se por dentro e por fora, continue expressando em fatos aquilo que ultrapassou a fase potencial. Viva a realização, continue construindo sobre os momentos, ouse plasmar  a realidade, ouse conquistar a cada passo, desperter-se, assuma-se, liberdade de ser sendo, harmonize as responsabilidades, autoridades só fazem os sentidos de um mundo melhor.

Andar é uma metáfora do empenho, andar é mais do espera-se dos resultados e projetos, andar é ação, condição do tornar-se em realização, sentido que importa e prova aquilo que se é capaz. Continue andando, conquistando, aprendendo o.progresso de si mesma(o), alma que faz a cada passo. Sinta o despertar sorriso interior a cada momento. Viva viver!

terça-feira, 25 de outubro de 2022

A indução das mentes nos dias atuais, qualquer pode ser uma vítima!



Se permiteres ser uma vítima da astúcia alheia, não percebes que és tua alma que se embreaga de tolice e negação de uma verdadeira liberdade de espírito. Aquele que ousa te manipular no pensar, desrespeita o  teu ser te convencendo, disvirtua-te da clarez. Esses algozes, mais que acreditar que sejas um tolo sujeito as manipulações dos seus jogos de sentidos, no ato de tua adesão eles provam seu estado de pessoa ludibriada e possivelmente orguilhosa do de se estar no erro da ilusão.

Atualmente, exercer uma livre e séria reflexão pode ser perigoso? Mais perigoso ainda é não perceber como somos levados a pensar.
Este texto examina a arma invisível que molda o debate público: a metáfora. Como ela persuade, divide e aprisiona — e como podemos resistir à manipulação na política e na vida.
Uma reflexão urgente sobre o Brasil, a linguagem e a liberdade que ainda podemos conquistar.

Figuras de linguagem conferem a textos ou narrativas uma amplitude de sentidos. São meios que fomentam plurissignificação, aguçando a imaginação e, por vezes, induzindo a conclusões que se solidificam como evidências pessoais.
Partindo dessa consideração, uma metáfora — conforme a intenção de seu locutor — pode se converter em estratégia para induzir ideias, influenciar mentalidades ou convencer indivíduos e coletividades. Nesse caso, transforma-se em ferramenta para a conquista de certos fins. Parece que entramos na era da exploração do território da mente.
Usada com tal objetivo, uma metáfora assemelha-se àquelas armadilhas para passarinhos: uma vez dentro e envolvidos, torna-se difícil escapar.

Em termos práticos, essas armadilhas linguísticas ao entendimento promovem processos excludentes à clareza e à interação entre compreensões propositivas, dificultando novos aprendizados ou atitudes para um desenvolvimento contínuo da compreensão.
Esse tipo de artimanha comunicativa é especialmente presente na retórica política, constituindo visões de mundo e projetos específicos. Quando os espíritos a eles aderem, tornam-se enrijecidos em suas convicções, crenças e condicionamentos comportamentais. Sem perceber, ficam sujeitos à exclusão de suas potencialidades e ao digno clamor da alma humana por liberdade amadurecida e responsável — quanto ao entendimento, interpretação e compreensão das realidades e das fantasias. A capacidade de distinguir debilita-se, e o terreno para a constituição de entendimentos equívocos torna-se fértil.

Assim, nosso tempo, na facilidade da comunicação digital, paradoxalmente também segue produzindo prisioneiros de bolhas, guetos de signos identitários, onde os adeptos retroalimentam suas perspectivas — sentidas como legítimas pelo reconhecimento entre seus pares de causas, projetos e visões de mundo. Consequentemente, no placebo de suas satisfações internas, elegem o que pensam como se fossem dogmas ou a vanguarda da verdade.
Esse fenômeno se multiplica e participa da composição de visões tanto na esfera pessoal quanto coletiva.

Eis o perigo presente em nossa sociedade brasileira: paradoxalmente, resulta de estruturas que constituem avanços tecnológicos que facilitam o acesso à informação e dão voz a todos para se comunicarem e se expressarem livremente — o que não é sinônimo de ética ou maturidade.
Chegamos a essa dualidade no século XXI: uma realidade instaurada. A era tecnocrata está preenchida de intenções sobrepostas e técnicas manipuladoras de nossa natureza humana. A sociedade elege teorias da conspiração como verdades pré-fabricadas. A serviço de quem? Para quê? O que experimentamos de nosso caminho humanitário e no que estamos nos tornando?

Este contexto funda novos cenários, seguidos de muitos medos. Identitarismos e conservadorismos emergem como se fossem uma saída para o estado de confusão. As classes profissionais seguem competindo entre si, defendendo-se em corpos legais e exercícios de poder. Vivemos num mundo tão complexo e novo que, apesar de ser fruto de tudo que acumulamos — e também do que esquecemos ou negligenciamos — demos um salto em conhecimento: do século XX até agora, é incontavelmente superior à soma de todas as eras anteriores de nossa história. Dados estão presentes e mais acessíveis do que nunca: basta acessar o Google ou outros meios.

Hoje, com todo o arsenal de luzes para o presente, continuamos similarmente repetindo erros e inconsequências. Os saberes de antes permanecem, mas sem uma lúcida adequação correm o risco de não passar de formulações supostamente resolutivas, tolas esperanças para os desafios presentes.
Esse é o perigo do conservadorismo e sua tendência ao anacronismo — ainda que nele também haja clamores autênticos, pois seus adeptos igualmente são filhos deste tempo, em busca de soluções e de um mundo mais harmônico.

Apesar de toda tradição e experimentação de novos paradigmas, parece que não evoluímos para estar onde estamos. Continuamos produzindo e alimentando sofrimentos pela inadaptabilidade à inclusão e ao amadurecimento junto das diferenças. Ainda que iludidos como defensores de um bem, seguimos sendo causa de desintegração.
Fazem-se presentes iniciativas que levantam bandeiras que deformam tudo que lhes é diferente, preconcebendo o outro como ameaça a seu mundo, sobrepondo modelos totalitários regidos por projetos de universalidade excludente.

A título de exemplo, no Brasil basta abrir o YouTube ou outra rede social para constatar a presença de militantes de uma guerra cultural — que, ao que parece, foi idealizada em ambiente classificado como esquerdista, mas que, de fato, em projetos e práticas atuais, está sendo executada por agentes de uma direita. Um fato irônico e incoerentemente paradoxal.
Um sintoma grave desse tipo de movimento é a mesquinhez intelectual, deturpando e coletivizando a manipulação de dados históricos interpretados sob as trevas das teorias da conspiração. Ali, com todos os recursos lógicos e cinematográficos, é quase impossível não acreditar na veracidade do que se assiste.

Esse também é um dos desafios sobre a conjuntura das mentalidades: é difícil, sem preparo ou formação sobre as possibilidades do mundo atual, ter um discernimento hábil.
Estamos na era dos tecnocratas de tudo — inclusive das almas. Há um processo de morte da verdade: a narrativa mais convincente torna-se “verdade”. Para isso, basta lógica e bom discurso. Fatos viram piada, e voltamos a nos satisfazer apenas com uma verdade lógica — nada mais medieval que isso!
Se para os medievais tal pensamento era justificável por seu contexto, pensar somente assim hoje é negar nossa evolução no campo do conhecimento — no caso da cultura ocidental, de matriz judaica, grega e cristã, é negar as revelações que o mundo antigo, medieval e moderno ainda não tinham desvelado.
Não dá para avançarmos sem aprender a distinguir e integrar. Fora disso, é retroagir — abraçar a perda de potencial de aprendizado e, consequentemente, negar descobertas, nossa natureza criativa, os erros do passado e a possibilidade de um futuro mais harmônico, zeloso e amoroso.

Toda essa dificuldade vem sendo alimentada por adesões coletivizadas e, muitas vezes, pela multiplicação de metáforas e fake news. Mas vamos nos ater aqui ao poder das metáforas.

O poder ambíguo da metáfora
Metáforas são excelentes ferramentas de convencimento ou abertura a novas considerações. Até aí, tudo bem. Mas elas têm poder significativo tanto para esclarecer quanto para ludibriar; tanto para a veracidade quanto para fazer a ilusão e a mentira serem sentidas como verdade.
Há artimanhas tão astutas que até mesmo um espírito crítico, sem mínimo empenho, raramente escapa — seja para verificar, seja para superar.
Se olhamos a história das humanidades, a metáfora — assim como outras figuras de linguagem — foi e é utilizada por quase todos os sábios. Mas em todas as épocas há os “sabichões perversos” que, ainda que convictos de suas próprias visões de mundo, também a utilizam e com ela angariam adeptos. Esse tipo de ocorrência parece ser um processo comum às sociedades humanas.

Metáforas são pequenas narrativas pedagógicas: orientam sentidos, ajudam a entender, compor, reforçar e até criar visões de mundo, enraizar opiniões e valores. Mas, infelizmente, podem também reforçar a confusão e a alienação — como prova o Brasil imerso em extrema polarização.
Quando o sentido de uma metáfora internamente torna-se um valor — assertivo ou equívoco —, converte-se também em referencial na formatação de nossos juízos, pois inclina ativamente as interpretações a uma unidade valorativa e afetiva. Assim, tudo que nos toca os sentidos passa por essa lente.

Aos amantes da liberdade, da ética e do caminho para a verdade, é necessário compreender as estruturas de si mesmo, conhecer os jogos de linguagem e os efeitos das próprias afeições. Só assim estarão aptos ao conhecimento e à ação do próprio grau de liberdade interna, podendo romper bolhas e ciclos de repetição que nos aprisionam.
É preciso ter clareza de que compreendemos e interpretamos tudo a partir de um lugar e de uma estrutura processual que diz quem cada um de nós é no presente — ora tendendo à tolice, ora ao caminho dos sábios; ora às trevas, ora à luz; ora à aceitação do senso comum, ora à autonomia em direção a vanguardas.
Nessa rota, determina-se o que é falso ou verdadeiro, o que será do bem ou do mal, elege-se ou expurga-se quem ou o que é do bem ou do mal. Distinguir sem o devido amadurecimento — salvo por graça ou dádiva — só pode culminar em equívocos, erro, soberba e teimosia. Aí pode haver confusão entre identidade e convicções. Há entre nós quem não se dê conta de que ser e saber são coisas distintas.

Somos seres comunicativos que enrijecem ou manufaturam visões de mundo. Nessa natureza criativa, que eticamente exige responsabilidade na moldagem do mundo, cada opinião que externalizamos é um fragmento que revela parte de nossa composição mental e de como estamos sendo — mais para a integridade ou para a destruição. Por mais convictos que estejamos de estar no caminho do bem, o erro pode estar presente.
Nessa visão, há uma exigência que clama por sobriedade e humildade: somos apenas humanos. Nosso valor maior, depois do amor, está na afeição — pois tudo nos afeta.

O mecanismo interno da metáfora
Enfim, metáforas têm o poder de gerar associações que induzem direções aos sentidos que constituem a mente. Consequentemente, as metáforas — constituídas de suas lógicas e sentidos — trazem a sensação de evidência, de contato com as verdades.
É exatamente por isso que tendemos a entender e sentir, no primeiro instante, que aquilo que ao menos se aproxima do que já cremos ser verdadeiro seja de fato verossímil. Mas isso é inocência por privação do espírito crítico: não pensamos ou consideramos o que desconhecemos.

Observe a gravidade ética do mundo atual — tempo da pós-verdade —, onde verdades são produções com fins técnicos de convencer e produzir comportamentos, fazendo às vezes da verdade sem o serem de fato.
Complexo isso. Exigir essa percepção como saída — libertação dos espíritos — depende da própria compreensão de quem somos: humanos, seres culturais, históricos, limitados e maravilhosamente em construção.

O sentido de uma metáfora instaurada na mente é resultado de um entendimento lógico tornado valor interno. Sem a possibilidade de tutela crítica, deixa a mente à mercê de um funcionamento espontâneo que preenche lacunas com imaginação, por razões neuromecânicas, sem distinguir entre o hipotético, o indício, o provável e a descrição do real.
Portanto, na primeira fase do entendimento frente a metáforas — seja para o bem ou para o mal —, ao associarmos acontecimentos, temos um misto de imaginação, lógicas e indícios que se traduzem como fatos em si. É nesse quadro que nos alienamos da possibilidade da luz das verdades. A verdade, nesse quadro, reduz-se à limitação do movimento habitual da mente, e condicionadamente elegemos o que é falso ou verdadeiro.
Nesse caso, a verdade torna-se aquilo que queremos que seja verdade. A crítica deixa de ser útil e torna-se incômoda para a mente, que, por economia de energia, tende a permanecer no mesmo modelo de funcionamento.
Eis um dos desafios: tudo o que consideramos real é eleito como verdade. Por natureza, a mente — limitada em sua conjuntura de significações — acaba ora afirmando, ora negando, em nome de sua comodidade interna, quase nunca consciente em primeiro instante.

Por fim, um alerta
É importante sermos capazes de distinguir entre narrativas descritivas — aquelas que apenas descrevem o observado — e aquelas que criam situações, dão voltas, distraem e engolem no convencimento. Aí, o mundo de uma lógica fantasiosa toma o lugar dos fatos.

Diante de tudo isso, encerro não com uma conclusão, mas com um convite à vigilância afetiva e intelectual.
A metáfora não é um inimigo a ser eliminado — é uma força da linguagem que reflete nossa própria ambiguidade humana: criadores e criaturas dos sentidos que nos movem. O que está em jogo, portanto, não é abolir as figuras, mas educar o olhar que as recebe.

Nossa saída possível não está na ingenuidade de acreditar que escaparemos totalmente das armadilhas, nem no cinismo de achar que tudo é manipulação. Está na humildade de quem sabe que pode estar errado — e na coragem de revisar, a cada nova evidência, os mapas mentais que traçamos.

Se a política hoje se tornou um campo de batalha de narrativas, nossa tarefa civilizatória é recusar a redução do outro a um inimigo a ser convencido ou cancelado. É lembrar que por trás de cada metáfora ardilosa há uma mente humana — tão frágil, tão sedenta de sentido quanto a nossa.

Que estejamos atentos, pois, não só às metáforas que nos chegam, mas às que produzimos. Que possamos ser artesãos de uma linguagem que não aprisione, mas que abra — que não enrijeça certezas, mas que alimente diálogos.
No fim, talvez a única metáfora realmente libertadora seja aquela que nos lembra: somos todos, sempre, aprendizes da realidade. E é nessa condição compartilhada que podemos, com sorte e esforço, tecer um entendimento comum — menos intoxicado, mais generoso, e à altura da complexidade que nos habita.

A arma contra a armadilha não é o silêncio, mas a reflexão consciente.
Contra a alienação, o diálogo paciente, claro e ponderado.
Contra a pseudos-verdades, a busca contínua.
Vamos adiante.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Por outro poema

 A força do poema

Toca a existência

Explícita o limite

Ousa para o alcançe


Cada qual na sua

Em comum o ser

Em mares do agora

Sentidos para o infinito


Incertezas e pretenções

Gaiolas e vôos

Recolhimento e expansão

Tramas da liberdade


Apenas se é

Mente aqui e ali

Desloca-se em sentidos

Enquanto ser movimento


Resposta em poemas

Tantas "Pluri-lógicas" 

Poucos se tocam

A vida flui tempo


Palavras jogam

Brincam signos

Coração sente

Espaços preenchem


Dança o eu ser instante

O outro a condição afeto

Da relação à concepção

Geografias do(s)  si(s) no mundo


Para onde vais?

Até onde alcança?

Onde está agora?

Em saltos realização!?!?


(L.V. 108, 18/11/21 @pensarconsiderando)

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O Pensar considerando - Uma breve auto apresentação do autor


Olá, eu sou Luciano Vasconcellos. Estudei filosofia e teologia e vivenciei de perto a espiritualidade franciscana entre os frades menores conventuais. Nesse período, tive a alegria de experimentar o espírito do conhecimento como uma dimensão devocional. Tudo se encaixava perfeitamente com meus anseios de criança e com as lembranças de olhar para as estrelas — eram tantos pontos de luz...
Com a vida franciscana, veio a oportunidade de ouvir e partilhar as luzes e sombras de tantas pessoas. Concretamente, a alma humana ia se apresentando a mim em sua pluralidade de sentidos; cada experiência era um conjunto de relações que explicitava dores e alegrias, revelando mundos inteiros. Os problemas, os estados, as circunstâncias, as mentalidades e as alternativas daquelas pessoas — e as minhas próprias — tornavam-se vias de possibilidades do devir.
Naquele convívio, também pude experimentar um peculiar ambiente de debates. Foram muitas querelas que desafiaram e amadureceram convicções, enquanto afiavam as lâminas do pensamento. Era um ambiente formativo para a vida, que evocava outras percepções; tudo estimulava o desenvolvimento e a plasticidade da mente. A singularidade daquele estilo de vida era internamente plural, reunindo pessoas de diversas culturas sob a aspiração poética inerente àquela espiritualidade. Afinal, pude observar que as divergências sempre fizeram parte da vida franciscana, compondo um sentido sustentado por uma base amorosa, onde se crê que tudo é uma oferta da graça. Nesse sentido, fazia-se presente a adesão a um rigor intelectual vivo: em tudo estavam escritos os sinais do Divino.
A intelectualidade devocional franciscana foi um segundo portal de aprofundamento, em perfeita concomitância com a academia. O diferencial era que, na vida conventual, tudo acontecia de modo natural, fazendo parte do dia a dia, da cozinha, da mesa do jantar... Graças à velha disputatio, como faziam os mestres medievais do século XIII, as questões de hoje eram enfrentadas com o mesmo espírito. Eu adorava vivenciar as argumentações e ouvir os ensaios que brotavam dos corações.
Havia momentos em que os ânimos se alteravam nos tropeços das paixões e das certezas assumidas sem questionamento. Era a hora de recolher-se, permitir-se o confronto e direcionar-se a uma imparcialidade capaz de superar a vaidade da certeza — ou, do contrário, fechar-se. Mas aquelas circunstâncias, em si, faziam com que a porta ficasse aberta, até mesmo para os espíritos dados à teimosia, que sofriam em maior ou menor grau. Dali, inevitavelmente, contemplavam-se vestígios de outros horizontes, o que não tinha preço para quem tinha sede de conhecer. As divergências, ainda que incômodas, aguçavam a unidade no caminho de um processo de amadurecimento, e, volta e meia, as questões em aberto eram retomadas. Era um ambiente de grande exercício do pensar. Divergências, acertos e ponderações eram reais motivações para conhecer mais e mais. Eu via isso com bons olhos, o que me trouxe grandes libertações. E o mais instigante: entre um bate-papo e outro, havia uma busca por fundamentação que ouso dizer mais rigorosa que a da própria academia, pois os sentidos da vida estavam em jogo. Isto, por si só, traz uma mensagem ao mundo.
Sem dúvida, os conteúdos e a vida na academia promovem o desenvolvimento de um pensar amadurecido, mas, decididamente, isso não é uma exclusividade dela. O cotidiano daquela vida franciscana testemunhava outra realidade: vivia-se na pele o estímulo ao desenvolvimento intelectual e a consciência dos sentidos da vida. Não bastava a memorização de conteúdos, os bons resultados nas atividades acadêmicas ou uma excelente erudição do legado; era preciso saber articular. Muitos ali aprenderam a pensar sobre a tradição em relação aos dados atuais. Estávamos mentalmente vivos, extrapolávamos "programações".
Esta vivência prática trouxe-me a compreensão de que o desenvolvimento formativo, a transmissão e a produção do conhecimento — em todos os níveis — não devem ser exclusividade da academia, embora lhe sejam constitutivos como guarda, proliferação e produção de saberes. A primazia pertence ao pensar presente em cada indivíduo; ele funda e transpassa a academia, bem como qualquer outro setor da sociedade. A maturidade do pensar não é propriedade acadêmica, como pode parecer. A formação humana é um processo contínuo que intersecta tudo o que se concebe e produz, tanto material quanto culturalmente. O pensar está presente no dia a dia do Homo sapiens sapiens. O Pensar Considerando nasce desta consciência "con-sentida" e expressa uma experiência pessoal que desejo partilhar como uma nova vertente.
Olhando ainda mais para trás, tudo começa com a dádiva dos estímulos na infância. Os livros da estante de casa brincavam muito comigo. Foram muitas informações colhidas em coletâneas como o "Tesouro da Juventude", a Barsa e a Life. Quantas horas trago na memória, eu e aqueles livros sendo revirados a cada curiosidade — algumas vezes despertadas pelas conversas dos adultos —, a cada descoberta que eu admirava. Hoje, sem esquecer os livros, continuo abrindo o Google: basta uma dúvida, e o mundo virtual está aí a nos servir.
Dando um salto para a fase adulta, nas experiências da vida vieram a graduação em filosofia, a de teologia e a querida filosofia clínica — que considero uma vanguarda capaz de dirimir preconceitos, adornando a motivação do exercício do livre pensar que denomino como Pensar Considerando. Trata-se de um querer conhecer a partir das relações, um acontecer com ciência e percepção acolhedora dos sentidos, tanto dos corpos quanto das almas e de seus anseios. É permitir que, na finitude humana, possamos nos servir à mesa dos signos, significados e ressignificados, do permanente ao criativo. Caminha por aí.
Portanto, o Pensar Considerando serve-se da academia, das culturas, do cotidiano, dos acontecimentos, das ideias, dos sentimentos, dos encontros e das interseções. É um modo de articular e transitar entre o que está expresso e a independência de acolher, manter, aprimorar e até superar os sentidos, sob o foco de uma sobriedade entre o que se conserva e o que progride. Entre os erros e acertos do caminho, que a meta seja sempre uma ética do livre pensar, sem o enclausuramento dos preconceitos, mas acolhedora das diversas modalidades de ser e de suas expressões — desde que respeitem as outras existências e manifestações como garantia de si e dos demais.
Nesse sentido, o Pensar Considerando é uma abertura ao cocriativo que não cessa; é colocar-se na dimensão de um pensar inclusivo, que distingue, mas não exclui; faz escolhas sem destruir. Nesta perspectiva, uma identidade só existe em razão da diferença, entendendo a diversidade como a própria possibilidade do essencial. Não acolhê-la é negar o que viabiliza o reconhecimento e a expressão da própria identidade — algo fundamental para a reflexão atual, uma vez que o identitarismo excludente é uma das grandes causas de sofrimento na conjuntura coletiva contemporânea. Inconsequentemente, reduzem a realidade e as ideias a visões de mundo etnocêntricas, desrespeitando a complexidade e os conhecimentos que ultrapassam seus muros.
O Pensar Considerando também é um modo de refletir que acolhe as artes, as ciências, as religiões e tantas outras expressões singulares da beleza humana. Entre cores, sombras e luzes, dores e alegrias, todas elas estão permeadas pela busca e criação de sentidos. A rigor, não é possível pensar considerando sem apreender os sentidos do que se quer pensar; sem isso não há consideração, não se veem estrelas brilhando e, sem as luzes, nada resta senão as trevas. O Pensar Considerando é uma atitude ética do pensamento que não se fecha em si mesma: admite sistemas, mas apenas como fragmentos da totalidade, sempre parcialmente apreendida.
Convido você a participar desta perspectiva. Venha trilhar este caminho comigo, acompanhe este blog e siga o podcast e contribua com seu olhar. Se possível, seja também um apoiador desta iniciativa. O desejo é multiplicar horizontes para um mundo mais responsável e acolhedor. Iremos compartilhar e receber! Vem aí uma série de questões, reflexões, leituras, entrevistas, espiritualidade, ciência e arte. E contamos com a sua participação!

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Filhos do Nosso Tempo: O Banquete da Informação e a Ilusãodo Saber

Quando não sabemos quais influências estamos recebendo, nos condenamos a viver a realidade de forma inconsciente. Alguém opina primeiro por nós, alguém sintetiza o mundo em nosso lugar... e nós apenas reproduzimos. Mas a alma humana é plural, feita de luzes e sombras que nenhuma tela ou algoritmo consegue traduzir por completo. Eu sou Luciano Vasconcellos e, após caminhar pela filosofia, pela teologia e pela vida conventual, convido você a sentar-se comigo à mesa do conhecimento real. Este blog é um espaço para quem tem sede de verdade e recusa o enclausuramento dos preconceitos. Seja bem-vindo. Vamos, juntos, Pensar Considerando.

Quando não se sabe das influências que se recebe e daquelas que se gera, o indivíduo encontra-se condenado à inconsciência da realidade vivida. Tristemente, poucos entenderão: algo falta!
Quando um candidato decide não participar de um debate político, em um determinado caso, esta é, sem dúvida, a melhor estratégia quando se tem a maioria da opinião pública a seu favor. Segundo os olhares populares — de onde se pode descrever que há duas compreensões figurativas no atual momento do Brasil —, temos, de um lado, um "endeusado grandioso" e, do outro, um demonizado que representa um "ex-grandioso", em explícita oposição.
O ponto comum e interessante é que ambos parecem ter lido e compreendido os clássicos da humanidade que tratam de como buscar, gerenciar e manter o PODER. Ou partilham da pura sorte carismática ou — o que é mais provável — contam com uma assessoria de profissionais competentes. Mas isso é apenas um ponto inspirador para tratar de um fenômeno que, a meu ver, engloba inevitavelmente a todos nós no século XXI.
Em prol do entendimento, começo com uma pergunta: qual será a estatística, entre o povo brasileiro, dos que leram e entenderam ao menos algo da obra O Príncipe, de Maquiavel? Quantos sabem da existência de um livro tão pequeno e lúcido como o Breviário dos Políticos, do Cardeal Mazarin? Imagina se agora, com tantas influências de dogmas religiosos no Legislativo, se ao menos ouviram falar dos conceitos de Poder Temporal e Poder Espiritual segundo o "rebelde católico" Guilherme de Ockham — que, nesse quesito, influenciou ninguém menos que os pais do protestantismo?
Todos esses conteúdos são saberes hoje dissolvidos como ferramentas de manobra por muitos profissionais competentes. É incrível como os corpos se mantêm tão dóceis em plena era de livre acesso às informações, onde o indivíduo se sente perfeitamente livre e munido de uma infalível capacidade de opinar com certeza. Que produto somos? Quem somos nós como filhos do próprio tempo?
Testemunho essa realidade. Por acaso, você que lê este texto já leu ou entendeu algo daquelas obras? Elas podem parecer distantes, mas ofertam profundidade. Mas o que é, afinal, a profundidade? Ela surge em acidental oposição a um tipo atual de pensar: raso, útil e rápido. Esse pensamento quantitativo vem prevalecendo e trazendo a falsa sensação de que cada um de nós sabe bem de tudo um pouco, gerando uma satisfação imediata que dispensa o ir além.
Assim, temos por consequência um mundo de pretensos sábios. Todos se sentem portadores de inúmeras informações — e nada mais que isso. Estamos em um mundo no qual a sagrada liberdade de expressão se confunde com um pseudo e íntegro saber. O pensar raso tornou-se uma normose (uma patologia da normalidade). Definitivamente, não temos todos as mesmas competências, nem mesmo no pensar de onde derivam nossas livres expressões. Quanta pretensão pensar o contrário; não somos oniscientes. Mas este tempo, mais uma vez, prova o quanto cada um de nós pode ser facilmente capturado pela alienação.
Talvez o dinheiro não seja mais o maior motivador de idolatrias. Quem sabe não seja o próprio pensar raso? Em termos de efeito coletivo, com certeza é. O pensar raso atual é como uma doença que se espalha silenciosa e invisível. Ela NÃO É FRUTO DA IGNORÂNCIA POR FALTA DE DADOS; dá-se pelo efeito do excesso de informações fragmentadas, instrumentalizadas e articuladas. Sob a falsa sensação de verdade, esse mecanismo sobrepõe-se à ausência de uma reflexão aprofundada — uma óbvia qualidade humana que exige tempo. O dano é que este estimulado pensar raso (que não acredito ser um projeto conspiratório, mas uma sequela do próprio tempo) segue, inevitavelmente, gerando seus efeitos nas pessoas e na sociedade.
Parece que este pensar raso, em alguma esfera, é um dado comum a todos nós, tornando-nos autoridades que não se dão conta de seu comando influenciador. Vivemos em um mundo onde os excessos de informações entre fakes e truths se misturam, sobrepondo-se a um saber evolutivo e, portanto, em contínua construção. Um mundo onde se compra e vende informação via terceirização, onde muitos apenas reproduzem o mesmo. Ou seja: alguém pensou primeiro por você, alguém opinou primeiro por nós, e o resultado segue se desdobrando sem uma tomada de consciência. Andando sem essa ciência, não há crítica.
Nesse caso, os sentidos e compreensões estarão, na maioria das vezes, camufladamente predeterminados. Não escapam disso nem os intelectuais, salvas suas especialidades e exceções — afinal, a alma humana tem suas imprevisibilidades, e que bom! Mas o fenômeno dos consumidores de informação segue firme: pessoas influenciadas por ideias que alguém sintetizou por elas, por mim, por nós. Onde está o filtro?
De algum modo, somos todos vitimizados pelo efeito dessas terceirizações que nos bombardeiam com informes, amplificando o pensar raso. Esse fato me faz pensar que se criou um novo tipo de massa de manobra: a dos "bem-informados". Eles definitivamente não são ignorantes, mas provam que uma cultura de informação ainda é insuficiente para o espírito crítico, discernente e voltado ao bom senso.
Considerando isso uma constatação, tornam-se compreensíveis as mil teorias da conspiração pseudo-fundamentadas que surgem a cada instante, contrariando os fatos da historicidade. Todas essas falsas teorias são mancas de lógica, embora repletas de muita inteligência. O fato é muito grave, pois elas só se mantêm por efeito de crenças em equívocos sentidos como verdades, multiplicados por sensacionalismos nas redes de comunicação, justificando qualquer adesão pessoal e blindando a integridade de caráter individual delimitada por sua própria realidade.
Vivemos um banquete de informações no qual vários atributos humanos são os convidados. Antagonicamente, em posição de destaque na mesa, os gêmeos Mal e Bem servem-se no banquete da Inteligência. O ditado popular "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" é a descrição perfeita desse dilema experimentado em nossa sociedade. Trata-se de um fenômeno que perpassa a vida de todos, explicitado como nunca na esfera das atuais campa­nhas políticas pelo mundo. Mais que uma precisa ressonância, nas redes sociais tem-se tudo escancarado: conflitos, crenças e opiniões que revelam a expressão quantitativa do pensar raso, um efeito das bases da mentalidade que caracteriza o tempo atual.
Mas há esperança, pois nesta mesma mesa ainda há lugares reservados para outros importantes personagens. Entre eles, há um convidado mais rebelde, tanto para o Bem quanto para o Mal: o Discernimento está à porta e parece ter fome. No momento, ele apenas bate à porta enquanto visualiza suas denúncias pelo olhar de fora, mas quer entrar. Os outros convidados torcem para que sua irmã, a Prudência, esteja junto dele, pois, senão, a briga será muito feia — e toda briga tende a consequências ruins para todos os lados.
De qualquer modo, na mesa da Inteligência estão todas as nossas possibilidades concretas de realização e transcendência sobre os efeitos das fontes do pensar raso, as quais seguem escravizando a Astúcia em sua própria cama — ela que sempre gostou de implicar com a Liberdade. Nessa história, podemos ser uma porta aberta ou trancada. A escolha é nossa.
O mal do pensar raso é que ele se dá na humanidade sem culpa, sem percepção imediata. O meio naturalizado por esta cultura direciona e estimula as mentes, instituindo e alimentando a superficialidade. Esta, por sua natureza, exclui a necessidade de aprofundamento, que estaria na contramão do estilo de vida atual e de sua exigência de eficácia de produção.
Aprofundar, sair da superfície, exige tempo. Tornou-se, de novo, sinônimo de ociosidade ou mera curiosidade. Longe de gerar pessoas com mentalidades autônomas, o sistema precisa de gente funcional; esta é a meta. Porém, o humano não se reduz ao funcional. Aprofundar não é prático, não é rápido, e tempo é dinheiro. Para que engrandecer a alma? Onde está o tempo e a disponibilidade para o livre empenho em direção às raízes dos assuntos? Será que estão nos jornais? Nas sínteses primeiras que aparecem no Google?
Será que, nessa correria, não há uma necessidade pessoal e político-educacional urgente de inverter essa situação? Precisamos multiplicar espíritos livres: influenciáveis sim, mas abertos a novas construções, capazes de executar o caminho sagrado rumo ao aprofundamento.